Texto: Isabel Braga                     Ilustração: Hugo Henriques

 

Foi um dia cheio para mim, o 25 de Abril de 1974. Comecei com música, depois veio a inquietação e acabei a chorar de contente, mas sem saber como se chamava uma canção.

 
Não vivi a manhã do dia 25 de Abril de 1974, pois acordei já passava do meio-dia, em casa dos amigos onde costumava ficar quando visitava Lisboa, vinda de Coimbra. A casa ficava num oitavo andar do bairro dos Olivais, o jantar dera para o tarde, para muito tarde mesmo. Tínhamos todos pouco mais de vinte anos, dois ou três de nós éramos estudantes, outros dois já trabalhavam, um não fazia rigorosamente nada, se bem me lembro.

 
A unir aquele grupo, havia a música, alguns dos rapazes tocavam viola, e todos adorávamos Frank Zappa, Jimmi Hendrix, os Rolling Stones, David Bowie, The Cream, mais ou menos por esta ordem. Quando nos juntávamos, passávamos horas a ouvi-los, com o som do gira-discos o mais alto que os vizinhos nos consentiam, e muita cerveja e alguns fumos à mistura.

 
Na noite de 24 para 25 de Abril, uma canção do Zappa tinha sido uma revelação para mim, ouvi-a vezes sem conta, chorei e ri com a tristeza e a ironia dele, pensei que tinha ali uma alma gémea e adormeci a pensar que, mal me levantasse, iria ver como se chamava o LP – um disco de vinil com umas doze músicas de cada lado – e comprá-lo.

 
Mas não o fiz, não tive tempo. Passava do meio-dia quando acordei e tive uma sensação de estranheza ao olhar lá para fora e não vi único carro a passar na rua. Era esquisito. Em contrapartida, alguns jipes da tropa e soldados de camuflado agitavam-se junto ao prédio do lado.

 
“Mora ali o Magalhães Mota, acho que vêem prendê-lo”, alvitrou a dona da casa. A seguir, tocou o telefone, era o pai dela, a dizer-lhe para não sair de casa, pois, da janela do seu escritório, na baixa, percebia um extraordinário movimento de soldados e populares. “Pode ser perigoso, fica aí”, disse ele, ainda hoje, com mais de 90 anos, um pai muito protector.

 
Num segundo, a noite anterior ficou para trás, tinha sido noutro mundo, noutra vida que eu ouvira o Frank Zappa, que me parecera tão importante saber como se chamava aquela canção.

 
Uma sensação familiar penetrava-me na pele e nos ossos, a mesma sensação de desconforto que tinha naquelas manhãs em Coimbra, quando estava convocada uma manifestação e era preciso calçar sapatilhas para correr melhor à frente da polícia de choque. Polícia e soldados não era a mesma coisa, mas os soldados obedeciam a generais e destes não se esperava nada de bom.

 
Disse adeus à pressa aos donos da casa dos Olivais e meti-me no carro, um velho Renault 4L, com três velocidades, a caminho de Benfica, onde viviam outros amigos, bastante ligados à luta estudantil, a quem tinha que encontrar, não me lembro porquê.

 
Era incrível, a Segunda Circular deserta e eu a voar por ali adiante com uma ideia fixa, chegar junto da minha filha, uma bébé de um ano, que ficara com os meus pais em Coimbra, antes que alguém ou alguma coisa me cortasse o caminho. Os meus amigos de Benfica, dois irmãos, um estudante de letras e outro de medicina, também não sabiam bem o que se passava. Tinham-se levantado havia pouco e ouvido no rádio, várias vezes, a “Grândola Vila Morena”, do Zeca Afonso. Parecia-lhes que o golpe era de esquerda.

 
Mas um golpe de esquerda? Que golpe conseguia acabar com aquele regime podre em que vivíamos havia séculos, desde sempre? E o que se seguiria? Era inimaginável, para mim, um exército ao serviço da esquerda, em Portugal. Quanto tempo ia durar uma revolução, se a tropa a combatesse? Hoje, pode pensar-se que era óbvio para toda a gente que o exército português estava repleto de revolucionários de esquerda. Mas não era. Por isso, naquele dia, a meio do dia, eu receava o pior.

 
Meti-me no Renault 4 L e pensei, que se lixe, tenho pressa e vou para Coimbra pelo caminho mais curto. Carreguei no acelerador, ninguém me fez parar e, três horas depois, estava a pegar na minha filha ao colo, a dar-lhe beijinhos e a chorar de alegria, com o meu pai e a minha mãe a dizerem que o regime tinha caído, estava a cair.

 
Ao fim da tarde, comecei a ficar optimista e a sonhar alto, podia ser que aguerra colonial acabasse depressa e o meu amigo Zé Bichão voltasse, finalmente, são e salvo para casa. Ele era o filho de uma antiga criada em casa da minha família, a Carolina Bichão, que tinha ficado tuberculosa, com três filhos pequenos.

 

Desde os cinco ou seis anos que o Zé passava o dia em nossa casa e conseguia ser o rapaz mais preguiçoso e divertido do mundo. Tinha um redemoinho à frente, no cabelo, uns olhos muito verdes, iguais aos da mãe, e era tão lento a fazer os trabalhos da escola quanto era rápido a devorar a comida que lhe punham a frente.

 
Quando ele acabou a quarta classe, a minha avó achou que devia aprender um ofício. Por isso pediu a um serralheiro da vizinhança que o aceitasse como aprendiz na oficina. Eu e os meus irmãos ficámos muito tristes com a ausência dele e mais tristes ainda quando ele apareceu com um braço ao peito, levado pelo patrão. Tinha-se cortado numa máquina e ficado sem metade do indicador da mão direita.

 
Lembro-me de me sentir muito zangada com a minha avó, culpando-a pelo seu dedo cortado. Mas ela dizia que era mesmo assim, um rapaz de dez anos filho de pobres tinha que trabalhar.

 
O Zé Bichão continuou a aprender o ofício de serralheiro e a ser o maior a brincar à cabra cega, a pôr armadilhas aos pássaros, a esconder-se, quando brincávamos aos sustos. Aos dezoito anos, foi chamado para a tropa. Porque não tinha o dedo indicador foi incorporado como rádio-telegrafista e mandado combater para África.

 
Depois de regressar são e salvo da primeira comissão de três anos no Norte de Moçambique, numa frente de guerra, aceitou segunda comissão como voluntário, na vez de outro soldado, que lhe pagou trinta contos por isso.

 
O Zé deu o dinheiro à mãe, que continuava pobre, voltou a África e regressou de novo, sem uma beliscadura e cheio de histórias para contar: as namoradas eram aos montes, esperavam-no à porta do quartel, miúdas ricas e com estudos, havia uma advogada que não o largava, escrevia-me ele em aerogramas intermináveis. Eu acreditava, não havia ninguém mais giro que o Zé Bichão. E morria de medo com o que pudesse acontecer-lhe.

 
Pouco antes do 25 de Abril, ele ia outra vez a caminho de África, para substituir alguém com dinheiro para lhe pagar, porque a mãe ainda precisava. Se o regime caísse, a guerra havia de acabar, era impossível que aquilo continuasse.

 
“O Zé Bichão vem aí. Vai brincar contigo” pensava eu, na noite de 25 para 26 de Abril, enquanto dava o biberão à minha filha, a quem tinha vestido um “babygrow” encarnado, novo, porque a vida ia mudar para melhor.

 
Foi um dia bom, aquele, não digo que foi um dia muito feliz, porque as incertezas eram muitas. Passados trinta e nove anos, lembro-me de cada hora, do casaco que trazia vestido, e só lamento uma coisa, não ter tido tempo para investigar o nome do disco com aquela música do Frank Zappa, que me fez rir e chorar e que ainda hoje não sei como se chama.

 

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