Crónica

 

As dezenas de turistas que se sentam na mesa de Fernando Pessoa na esplanada d’A Brasileira não se limitam a fazer uma ‘selfie’ com o mais universal poeta português. Alguns também compram livros dele.

– Pessoa vende-se todos os dias – diz o alfarrabista José Ferreira. Ainda há pouco vendi o “Livro do Desassossego” a um italiano.

Aquele livro já foi traduzido em italiano, mas, pelo que lhe disse o turista, está esgotado em Itália.

– Os espanhóis e os brasileiros também compram muito Pessoa.

Quando José Ferreira estava a dizer isto entrou um casal de turistas brasileiros. Vinham à procura de “Equador”, um romance de Miguel Sousa Tavares, publicado em 2003. (Ao fim de um ou dois anos, qualquer livro é considerado antigo: segundo a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, há quatro anos, saiam em média 160 livros novos por mês, o que esgota rapidamente a capacidade de stock de qualquer livraria). O alfarrabista tinha outro título do mesmo autor, mas o casal só queria aquele: “É uma prenda para a minha mãe, que mora no Rio”, disse o homem.

Quem desce do Largo do Carmo para o Rossio, através da inclinadíssima Calçada do Carmo, com os pés a travar a fundo, já deve ter reparado na Livraria Antiga do Carmo. É uma livraria onde não cabem mais de cinco pessoas, com prateleiras cheias até ao teto e fotocópias a preto e branco coladas no vidro da porta. Uma das fotocópias tem um excerto dos “Sermões” do Padre António Vieira que reza assim: “O livro é um mudo que fala; um surdo que responde; um cego que guia; um morto que vive. E não tendo ação em si mesmo, move os ânimos e causa grandes efeitos”.

José Ferreira estabeleceu-se ali há mais de 30 anos. Vende e compra livros.

– Só me interessam os clássicos – avisa.

Best-sellers´ tipo “O Código da Vinci, vendido aos milhões na década passada, não.

– Há alguns anos andava a toda a gente com o Dan Brown debaixo do braço. Agora estão a desfazer-se dele. Esse género de livros não me interessa.

Pessoa, pelo contrário, “vende-se sempre”.

– É imortal – garante o alfarrabista.

 

Texto: António Caeiro

 

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