Duas historiadoras criticaram, na terça-feira, o executivo de António Costa pelo mau tratamento dado ao valioso material documental pertencente ao município.

Falando na primeira sessão da Assembleia Municipal saída das eleições autárquicas de 29 de Setembro, Maria João Vaz, professora do ISCTE, lamentou a “incúria com que o município tem encarado” a preservação do seu património histórico documental, “remetido para a total negligência”. A historiadora referia-se concretamente ao acervo do Arquivo Histórico Municipal, instalado em garagens de um prédio de habitação social no Bairro da Liberdade, um sítio pouco central e sem acessibilidades.

O arquivo, tal  “como as populações realojadas, foi enviado para a periferia”. Segundo contou aos deputados municipais, chuvas recentes obrigaram à recolocação de vário material para não ficar estragado. Cabe à Câmara dignificar com urgência o arquivo da cidade, “objecto de permanente negligência”, afirmou Maria João Vaz.

Professora emérita do ISCTE e ex-directora da Torre do Tombo, Miriam Halpern Pereira perguntou por que saíu a Hemeroteca Municipal do sítio onde estava desde longa data – na Rua de São Pedro de Alcântara, no centro de Lisboa –, sem que houvesse local pronto para a acolher. A docente, e apoiante da candidatura de António Costa, perguntou também qual a razão da “sua reinstalação num local periférico, a Lapa, sem transportes colectivos adequados”.

A Câmara Municipal de Lisboa diz que o equipamento reabrirá no próximo ano no antigo Complexo Desportivo da Lapa, que falta adaptar para o efeito. No edifício até agora da Hemeroteca – objecto de uma permuta entre a Misericórdia de Lisboa e a CML, cujos contornos a historiadora pediu que fossem aclarados – vai instalar-se a revista “Brotéria”, publicação doutrinária dos jesuítas.

Criada em 1973, a Hemeroteca Municipal de Lisboa fechou a 7 de Setembro e a sua vasta colecção de milhares de jornais e revistas ficou inacessível ao público. O seu periódico mais antigo é uma “Gazeta de Lisboa” de 1715.

Miriam Halpern Pereira sugeriu que uma boa localização para a Hemeroteca seria o Palácio das Galveias, no Campo Pequeno. As questões que pôs aos vereadores não tiveram respostas, mas a nova presidente da Assembleia Municipal, Helena Roseta, prometeu que mais tarde lhas enviaria.

A assembleia para o novo mandato é bastante diferente do colectivo anterior. Começa por ser mais pequena, em resultado da redução das juntas de freguesia, de 107 deputados municipais passou-se a 75. O PSD sofreu uma razia: perdeu 25 representantes – eram 41, agora são 16. O PPM desapareceu. O PS, com 42 membros (25 eleitos e 17 por inerência) é agora o grupo maior. Entraram duas formações novas: o Partido dos Animais e da Natureza (PAN) e o Parque das Nações por Nós (PNPN), ambos com um só deputado.

São bastantes as caras novas, como é o caso de Ana Drago, do BE, que pediu aos socialistas mais empenho contra a privatização dos transportes públicos de Lisboa. Pediu-o ao dirigente do PS Rui Paulo Figueiredo quando este a convidou a participar num debate aberto sobre o futuro dos transportes públicos em Lisboa, depois de dizer que o partido é contra um “processo de privatização perfeitamente opaco” que o Governo estará a conduzir.

A eleita do BE respondeu ao parlamentar socialista que debates não são o que mais importa agora, mas, sim, que a AML “se bata ferozmente contra a concessão” dos transportes colectivos aos privados. Seria bom, disse, que António Costa clarificasse a sua posição sobre o assunto pois a questão não é o processo “ser opaco ou transparente. Há que ser contra”, afirmou.

Sem ser dos novos, António Arruda, do Movimento Partido da Terra (MPT), também não está diferente. Terça-feira mostrou continuar aguerrido ao criticar o modo como foram constituídos os gabinetes dos vários grupos municipais. “Desta negociata ficou claramente a beneficiar o PSD”, por manter o mesmo número de colaboradores que tinha no anterior mandato quando agora só tem 16 deputados. “Algo está podre, muito podre, e não é só no Reino da Dinamarca!”, rematou.

 

Texto e fotografia: Francisco Neves

 

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