Fecha no fim do mês a Tabacaria Martins, aberta desde 1872 no Largo do Calhariz

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Samuel Alemão

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VIDA NA CIDADE

Misericórdia

5 Janeiro, 2017


A vontade do senhorio acabou por se revelar mais forte, embora a gerente da loja até admita “algum alívio” pelo fim da incerteza e “sentimentos contraditórios”. A Tabacaria Martins, de porta aberta no número 4 do Largo do Calhariz desde 1872, vai fechar no final do mês de janeiro. “O senhorio não quis renovar o contrato, por isso, não posso fazer nada”, diz ao Corvo Ana Martins, 61 anos, neta de Manoel Francisco Nunes Martins, fundador deste estabelecimento incluído no restrito conjunto de 63 a quem a Câmara Municipal de Lisboa decidiu atribuir a classificação de “Lojas com História”. Distinção insuficiente para garantir a manutenção do negócio centenário, apanhado pela revolução em curso no mercado imobiliário da capital. O prédio será convertido num conjunto habitacional de luxo e a gerente e três funcionários ficam desempregados.

O desfecho apenas se confirmou na manhã desta quarta-feira (4 de janeiro), quando se deu por encerrado o diálogo mantido entre Ana Martins e os novos donos do imóvel, adquirido por um fundo imobiliário inglês, em junho do ano passado – um mês antes da inclusão do estabelecimento na lista das “Lojas com História”. As intenções dos representantes dos investidores britânicos – que compraram o edifício a um antigo administrador do Grupo Espírito Santo – ficaram claras logo desde o primeiro contacto. A tabacaria teria de fechar, apesar de a gerente manifestar claro interesse em continuar. Os apelos a uma mudança de posição foram infrutíferos. “A resposta foi um não taxativo”, diz Ana, recordando que a nova Lei das Rendas, aprovada em 2012, permite que se ponha assim um ponto final numa das últimas casas comerciais com tais características – na qual se destaca o interior forrado a madeira, herdeiro do ambiente da Lisboa oitocentista.

Fecha no fim do mês a Tabacaria Martins, aberta desde 1872 no Largo do Calhariz

Um desenlace que a empresária apelida de “insólito” e “contraditório”, tendo em conta o facto de o estabelecimento ser parte de vários instrumentos de protecção, como o Inventário Municipal de Património, anexo ao Plano Director Municipal (PDM), estar inserida no conjunto de Interesse Público da Lisboa Pombalina, mas sobretudo o muito publicitado programa camarário “Lojas com História”. “Ganhámos a classificação em julho passado e agora acontece isto. Percebe-se que tais instrumentos são apenas bandeiras, sem aplicação prática e que pouco ou nada significam. Nada na lei nos defende de uma situação destas”, critica Ana Martins, que está à frente do negócio familiar desde há 15 anos e vê nesse programa criado pela autarquia pouco mais do que um conjunto de boas intenções.

“O poder político não faz muito neste campo. Ou passa a haver em Lisboa, como noutras cidades europeias, instrumentos para proteger as lojas simbólicas contra tais situações, ou isto vai continuar a acontecer, a descaracterização da cidade”, considera a gerente do estabelecimento conhecido pela qualidade da oferta de produtos de tabaco, da imprensa nacional e estrangeira e dos artigos de papelaria. Mas também dos jogos de sorte e azar, tendo sido das primeiras lojas a aderir a tal negócio, segundo consta da descrição feita no sítio do Círculo Das Lojas De Carácter e Tradição de Lisboa, iniciativa do grupo cívico Fórum Cidadania LX – na qual se refere a data da fundação como sendo 1897, embora a atual gerente garanta que a mesma é 1872.

Fecha no fim do mês a Tabacaria Martins, aberta desde 1872 no Largo do Calhariz

“A Tabacaria Martins é uma das raríssimas tabacarias antigas de Lisboa ainda em actividade, estando praticamente igual ao que era aquando da sua inauguração em finais do século XIX”, refere-se na ficha da loja, antes de se salientar a originalidade da boiserie que a envolve – ou seja, do trabalho de revestimento em madeira -, mandada fazer pelo avô de Ana Martins e “concebida, aliás, como peça única, unindo os armários ao balão encastrado e a própria montra”. Na fachada do edifício, destacam-se duas placas em pedra anunciando: “tabacos nacionaes e estrangeiro – cervejas – águas” e “artigos de papelaria papel selado selos e letras – loterias e jornais”. Elementos que a gerente pensa levar consigo, para preservação da memória. Ainda a tentar racionalizar sobre tal desfecho, em relação ao qual admite “sentimentos contraditórios”, a descendente do fundador diz que sente “algum alívio” pelo fim das incertezas, mas também mágoa. “Isto faz parte da minha vida”, diz.

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