As suas células olfativas são capazes distinguir um odor entre milhões. Esta é uma das capacidades de “Zeus”, um cão treinado para detetar as fezes do lobo ibérico, que irá ajudar a monitorizar a espécie em Portugal, no âmbito do projeto LIFE MED-WOLF – Boas Práticas para a Conservação do Lobo em Regiões Mediterrânicas.

 

Estando o seu nome associado ao deus dos relâmpagos na mitologia grega, “Zeus” é um cão vulgarmente designado por rafeiro com cerca de 3 anos, que, encontrado em Benfica junto aos Pupilos do Exército por membros da associação de proteção dos animais Focinhos & Bigodes, veio a ser recuperado para este projeto pioneiro no  país.

 

O cão de raça indeterminada foi quinta-feira formalmente entregue ao Grupo Lobo, no relvado da Faculdade de Ciências de Lisboa. Ao chegar ali, com seu treinador norte-americano, reconheceu logo a associada da Focinhos & Bigodes que o encontrou na rua.

 

“O cão não foi treinado para perseguir a vida selvagem”, explicou o biólogo Duarte Cadete, que irá nos próximos meses, juntamente com “Zeus”, realizar um recenseamento dos lobos nos distritos da Guarda e Castelo Branco, apoiado pelo Grupo Lobo, que há vários anos luta pela preservação desta espécie, a única especificamente protegida em Portugal – através da Lei do Lobo (Lei nº 90/88).

 

O primeiro recenseamento do lobo ibérico foi realizado em 1997, revelando e existência de dois grupos populacionais desta subespécie de lobo (“Canis lupus”): um a norte do rio Douro e o outro a sul deste rio.

 

Com um particular apetite pela brincadeira, “Zeus” treinou durante quatro semanas nos arredores de Lisboa a deteção do odor das fezes do maior canídeo selvagem.

 

O técnico Healt Smith, do centro “Conservation Canines”, da Universidade de Washinghton, explicou a O Corvo que a técnica utilizada no treino é semelhante à empregue para os cães do combate ao tráfico de drogas. Aqui a variável é a utilização dos dejectos do lobo: “É a única diferença”.

 

Francisco Petrucci-Fonseca, presidente do Grupo Lobo, disse que concretizou uma ideia que nasceu em 1980, lembrando que hoje os cães já são utilizados para “conhecer a presença de outras espécies”, nomeadamente  répteis, animais marinhos, aves ou mamíferos.

 

“Não queremos nenhum impacto na fauna onde trabalhamos”, adiantou Petrucci-Fonseca, sendo esta a fórmula mais direta de abordagem na investigação científica sem causar danos colaterais na espécie classificada como “vulnerável” – e por isso na Lista Vermelha de União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

 

Na realidade,  “Zeus” é um animal pacífico que apenas procura o odor deixado pelo lobo. Durante a atividade de busca transporta um guizo para que a sua presença seja notada e que, quando pára, torna-se sinal da identificação do excremento. O animal está preparado para detetar a presença do lobo numa área superior a 6000 quilómetros quadrados.

 

Duarte Cadete referiu ainda que “Zeus” distingue perfeitamente outros odores que não sejam o do lobo, como a raposa. “Ele não vai andar atrás do lobo como se fosse para caçar. Nada disso. O ‘Zeus’ vais apenas atrás do seu odor nada mais”. A área de intervenção nesta fase do projeto é a sul do Douro.

 

“A perseguição ao lobo, como forma de retaliação pelos prejuízos que causa no gado, verifica-se em toda a área de distribuição do predador”, indica uma nota do projeto, que recebe o apoio financeiro do programa comunitário LIFE, acrescentando: “Este é o principal problema que se coloca à expansão do lobo e ao seu estabelecimento nas duas áreas de intervenção”.

 

Minimizar o conflito entre as atividades humanas nas zonas de presença do lobo é um dos objetivos do projeto. “Estamos a trabalhar com os criadores de gado para a instalação de cercas elétricas e para terem cães guardadores”, adiantou o presidente do Grupo Lobo.

 

O projeto LIFE MED-WOLF pretende atualizar o recenseamento do animal e, em simultâneo, reduzir o montante de prejuízos no gado em pelo mesmo 20 por cento, através de vedações elétricas, de bons cães de proteção e do maneio correto do gado para reduzir o risco de ataques do lobo.

 

“A coexistência entre o homem e o lobo na região raiana pode ser mais harmoniosa e proveitosa”, defendem os responsáveis deste projecto, que visa apoiar a população da resolução dos conflitos com um predador com “um importante lugar na nossa história, na nossa cultura e também na preservação de um equilíbrio ecológico, fundamental para muitas atividades económicas.

 

”

No Censo Nacional 2002/2003 à população de Lobos em Portugal, realizado pelo então Instituto da Conservação da Natureza – hoje Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas –, foram referenciadas 63 alcateias das quais 51 confirmadas e 12 prováveis. Destas, 54 estavam a norte do rio Douro e 9 a sul do curso de água.

 

Texto e fotografias: Mário de Carvalho

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