Falhas de comunicação entre a Câmara de Lisboa e a Junta da Penha de França suspendem nova carreira de bairro

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Sofia Cristino

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Penha de França

15 Abril, 2019

A nova carreira de bairro 37B já devia estar a circular, na Penha de França. A Carris anunciou o início do percurso, na quarta-feira passada (10 de Abril), mas naquela zona da cidade não há sinais do novo autocarro. Isto porque a carreira poderá não conseguir passar pela Calçada Poço dos Mouros, onde vários carros estacionam há anos gratuitamente. Segundo a Junta de Freguesia da Penha de França “não houve a necessária articulação” da Câmara Municipal de Lisboa (CML) com quem conhecia melhor o terreno. “Foi tudo muito mal feito e até ficamos surpreendidos”, diz a presidente da junta, Ana Sofia Dias (PS). Por esse motivo, a câmara deverá “repensar tudo” em relação à 37B, podendo até alterar o percurso decidido inicialmente. A Carris diz que “questões técnicas impediram o lançamento da carreira” e que esta deverá estar operacional em breve.

Manuel Oliveira, 76 anos, olha ansioso para a paragem da nova carreira de bairro da Penha de França. Desloca-se com dificuldade, mas percorreu umas dezenas de metros só para experimentar o mini-autocarro. “Estou com muita curiosidade em andar e disseram-me que já estava a funcionar. Vim devagarinho, porque já me custa muito a andar, mas já estou aqui há algum tempo e não aparece. Sou muito curioso e gosto sempre de confirmar as novidades”, diz o morador, enquanto limpa o suor da testa com as costas das mãos e vai espreitando o relógio.

 

Na Calçada Poço dos Mouros, transversal à Morais Soares, não há, porém, sinais da nova carreira 37B. Deveria ter começado a circular na quarta-feira passada (10 de Abril), mas, de acordo com a Junta de Freguesia da Penha de França, “falhas de comunicação” com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) levaram à suspensão da carreira e, agora, o percurso – já definido nas paragens – poderá mesmo de ter de ser alterado.

Os problemas começaram precisamente na Calçada do Poço dos Mouros. João Leitão, 68 anos, a trabalhar numa loja de restauro de móveis há quatro décadas, assistiu a tudo. “Toda a gente estacionava do lado esquerdo da calçada, onde vai passar a nova carreira. Os funcionários da câmara chegaram cá um dia, sem avisarem ninguém, e começaram a pintar as linhas amarelas no chão onde havia espaço”, relata. Naquele arruamento, os carros circulam nos dois sentidos e, segundo o comerciante, a carreira poderá não conseguir passar ali, com os carros estacionados. “O problema é que ninguém veio cá antes tentar perceber se a carreira conseguia circulava ou não. Houve uma grande falta de comunicação e acho que foi por isso que atrasou”, conjectura.

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O conflito com o estacionamento na Calçada do Poço dos Mouros travou o início da 37B

Numa loja mais acima, Mário Carvalho também critica a forma como o município lidou com a situação. “A falha disto foi da câmara. De um dia para o outro, começaram a apagar os lugares de estacionamento e a fazerem novas marcações, numa rua onde não se pagava para parar o carro. Havia muita pressa em pôr a carreira a andar e, agora, é o que se vê”, desabafa o comerciante. Mário conta que a colocação de sinalética e o desenho dos tracejados no chão terão começado há pouco mais de quinze dias, prolongando-se até ao dia para o qual estava anunciada a entrada em circulação da carreira.


 

Na manhã da passada sexta-feira (12 de Abril), Cidália, 82 anos, também esperava pelo novo autocarro, na Praça Paiva Couceiro. “Há subidas inclinadas que já temos muita dificuldade em subir, e a carreira ajudará muito. Estou curiosa também por conhecer zonas do bairro onde nunca fui, como a Quinta do Lavrado. Mas o autocarro teima em não chegar”, lamenta, sentada no banco da paragem. Em pé, alguns moradores também comentam o novo percurso da 37B, afixado há alguns dias na paragem.

 

Contactada por O Corvo, num primeiro momento, na passada sexta-feira, a Junta de Freguesia da Penha de França reconhecia, em informação escrita, que “não houve a necessária articulação com a Junta de Freguesia relativamente à preparação da carreira de bairro”. Por este motivo, explicava a autarquia, “a Junta pediu à câmara de Lisboa para o processo ser reequacionado”. “Não houve colocação de informação nas caixas de correio relativas à intervenção feita no asfalto. Face a isso, quando a CML foi confrontada com a situação, decidiu repensar tudo”, garante a mesma.

 

Pouco depois, em declarações a O Corvo, a presidente da Junta da Penha de França, Ana Sofia Dias (PS), fazia fortes críticas à actuação da CML. “Fomos surpreendidos com uma perda de estacionamento completo que, em momento algum, nos disseram que ia acontecer. Foi tudo muito mal feito e até ficamos surpreendidos, porque a Câmara costuma articular estas situações connosco. Recebemos imensas reclamações dos habitantes”, afirmou a autarca socialista. “A Câmara diz que vai repensar uma solução para aquela calçada ou, eventualmente, uma mudança de percurso e, por isso, é que a carreira ainda não está a funcionar”, informou ainda.

 

 

A nova carreira de bairro da Penha de França, de acordo com o que foi anunciado, deveria funcionar, diariamente, entre as 7h00 e as 21h00, com uma frequência de 35 minutos. O percurso original previa que a 37B partisse da Rua Nélson de Barros, passando pelos seguintes arruamentos: Calçada da Cruz da Pedra, Avenida Mouzinho de Albuquerque, ruas General Themudo Barata, Castelo Branco Saraiva, Eduardo Costa, Francisco Pedro Curado, Avenida General Roçadas, Mestre António Martins, Penha de França, Calçada Poço dos Mouros, Rua Carvalho Araújo, Alameda Dom Afonso Henriques, Rua Cristóvão Falcão, Rotunda das Olaias, Avenida Marechal Francisco da Costa Gomes, Rotunda Vale de Chelas, ruas António Gonçalves e Morais Soares, e Avenida Afonso III. Todos os títulos de transporte da Carris são válidos para este percurso. Quem não os tiver necessitará de adquirir o passe Carreiras de Bairro, pelo valor de dez euros, válido para 30 dias.

 

A 37B faz parte de um total de 21 novas linhas de autocarros de bairro prometidos pelo presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, em Novembro de 2016. As Carreiras de Bairro pretendem reforçar a mobilidade local, aproximando os moradores de infra-estruturas importantes para a vida das freguesias, como escolas, centros de saúde, mercados, e outros meios de transporte público.

 

O Corvo questionou a Carris sobre os motivos do atraso na entrada em circulação da carreira e quando entrará a mesma, afinal, em funcionamento. De acordo com a empresa de transportes, “questões técnicas impediram o lançamento da carreira da Penha de França no dia 10 de Abril”. Apesar de garantir que o mini-autocarro estará “operacional em breve”, a empresa municipal não avança com datas concretas.

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COMENTÁRIOS

  • Teresa Teixeira
    Responder

    AQUILO NÃO É ESTACIONAMENTO!
    não há nenhuma questão técnica a resolver. O estacionamento ilegal foi finalmente removido e impedido. Basta olhar para uma rua dawuelas, com aquela inclinação, com 2 vias, para ver que não pode de maneira nenhuma haver ali estacionamento nem legal nem ilegal.
    Avancem com a carreira e deixem-se de populismos dos anos 90.

  • ana
    Responder

    esperemos que não aconteça o mesmo que aconteceu com a piscina da freguesia que está sem funcionar há anos e onde gastaram dinheiro receberam dinheiro de inscrições para depois não abrirem a dita piscina que faz falta está operacional mas não está ao serviço dos cidadãos.

  • jose manuel
    Responder

    O problema da Calçada do Poço dos Mouros também deve passar por a CML ter oferecido á EMEL (parquímetro instalado) parte da calçada para estacionamento e com a vinda do autocarro acabou-se mais uma fonte de rendimento .

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