A demolição de dois edifícios contíguos da Rua Andrade, nos Anjos, onde vai ser construído um novo hotel, começou há cerca de um mês e, por enquanto, ainda estão de pé as fachadas revestidas a azulejo, características de muitos prédios antigos de Lisboa. Mas estes azulejos, mesmo que possam agradar a muitos e até aos turistas que venham a albergar-se no futuro hotel, não têm um futuro garantido. Bem pelo contrário, parecem estar condenados
à destruição.

 

As declarações prestadas ao Corvo por trabalhadores das empresas envolvidas nos trabalhos e pelos donos da obra são contraditórias. Uns referem que o projecto é de demolição integral, outros não vão tão longe.

 

“À partida, a ideia é demolir integralmente os prédios”, disse ao Corvo um trabalhador da Sonangil, empresa a quem foi entregue o projecto da demolição, corroborando o que já antes afirmara uma funcionária do empreiteiro, a empresa Três C, Empreendimentos Imobiliários, que está a executar os trabalhos. “À partida, será para demolir tudo”, disse fonte da Três C.

 

Menos explícito é o dono da obra, Anil Ussene, que é administrador de um outro hotel também existente na Rua Andrade, o Hotel dos Anjos, situado mesmo em frente ao que irá ser construído. “Em princípio, a fachada mantém-se. Há uma parte que já está partida e.. vamos ver. Só se ela já não se aguentar”, disse ao Corvo o dono da obra, salientando que os trabalhos em curso foram todos aprovados pela Câmara Municipal de Lisboa.

 

Esta operação faz-se, para desânimo de todos os que lutam pela preservação do património azulejar de Lisboa, com expressa autorização camarária. “Estas obras [de demolição e construção] foram aprovadas por despacho do Sr. Vereador Manuel Salgado de 15-05-2011”, refere o cartaz de obra afixado num dos edifícios.

 

Rua Andrade 2

 

A empresa encarregue das demolições é a Sonangil que tem em mãos múltiplas empreitadas na cidade de Lisboa, em zonas como os Anjos ou as Avenidas Novas. O Corvo tentou ouvir os responsáveis da Sonangil, que, face ao projecto, saberá dizer se as fachadas de azulejo são ou não para manter, mas sem êxito.

 

De qualquer forma, há zonas já atingidas pelos trabalhos realizados. Além da demolição de parte do miolo de um dos edifícios, nas fachadas há varandas quebradas e azulejos que desapareceram das paredes.

 

Contra a destruição deste património manifestou-se recentemente o Forum Cidadania LX, que, em carta dirigida ao Presidente da Câmara, António Costa, à vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, e ao vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, protestou pela demolição de “mais dois exemplares da arquitectura lisboeta dos finais do século XIX, ambos com fachadas de azulejo, no Bairro Andrade, às portas do gabinete Senhor Presidente da CML”.

 

“Estes dois prédios na Rua Andrade são paradigmáticos da diversidade de revestimento azulejar na arquitectura de Lisboa, na passagem do séc. XIX para o séc. XX. As fachadas, totalmente revestidas de azulejo estampilhado, têm uma aplicação cuidada, com cercaduras. Erguidos entre 1894 e 1907, são exemplos qualificados, únicos e irrepetíveis da história da nossa cidade”, afirmava o Forum  Cidadania LX na carta dirigida aos autarcas.

 

E questionava: “Por que já nem as fachadas de qualidade, como estas, são salvaguardadas como memória da cidade? Voltamos à destruição ignorante que caracterizou as décadas de 60 e 70 do séc. XX? É no mínimo chocante que a CML continue a aprovar a demolição de edifícios com fachada de Azulejo . Para quê falar tanto do Azulejo como elemento identitário da capital, como mais-valia turística, quando depois as políticas urbanísticas denunciam exactamente o oposto?”

 

 

Texto e fotografias: Fernanda Ribeiro

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