O executivo da Câmara Municipal de Lisboa (CML) aprovou, nesta quarta-feira (28 de Outubro), por unanimidade, a declaração de utilidade pública da expropriação, com carácter de urgência, dos direitos de arrendamento de um prédio que detém na Rua da Palma e a utilidade pública da expropriação dos direitos de propriedade, também urgente, de três prédios situados na Rua do Benformoso, para assim permitir a sua demolição e a construção de uma nova praça pública e de uma nova mesquita.

 

A Praça da Mouraria, assim se chamará o arruamento, e a nova mesquita da comunidade muçulmana do Bangladesh em Lisboa surgirão no espaço ocupado pelos referidos imóveis – mais concretamente, os números 248 a 264 da Rua da Palma e os 137 a 151 da Rua do Benformoso. Além de garantir a libertação dos prédios, a câmara municipal custeará os 1,5 milhões de euros necessários às obras de construção do templo, que deverão arrancar nos próximos meses.

 

“Esta é uma das propostas que mais orgulha este executivo e que já vem do mandato anterior. Trata-se de um sinal de tolerância, de abertura e de respeito por todos. Queremos, com esta obra, dizer que todos são bem-vindos à nossa cidade”, disse Fernando Medina, o presidente da autarquia, antes da votação, que mereceu o pleno dos votos favoráveis dos 17 vereadores do executivo municipal.

 

Medina salientou a importância deste projecto para a cidade e, mais ainda, para aquela zona. “Antes de mais, queremos a honrar a história do espaço. A Mouraria tem aquele nome por uma razão. Mas, depois, e como segunda razão, também desejamos passar a ideia de que Lisboa é mesmo o espaço de todos”, afirmou o autarca.

 

As expropriações com carácter de urgência agora decididas, do prédio municipal e dos três particulares, são fundamentadas com a necessidade de fazer cumprir a construção, aprovada pelo executivo anterior do município, da Praça da Mouraria e da mesquita – que estavam já previstas no Plano de Urbanização do Núcleo Histórico da Mouraria (PUNHM).

 

“É um projecto muito importante porque vai resolver um problema urbano, ao facilitar o acesso à Mouraria e assim dar mais segurança aquela zona”, explicou Manuel Salgado, vereador do Urbanismo, ao apresentar a proposta.

 

O autarca salientou que cabe à CML garantir a disponibilidade dos terrenos, conseguida com as expropriações, bem como pagar os 1,5 milhões de euros da obra. Salgado disse que à comunidade muçulmana “paquistanesa” (sic) caberá pagar o projecto de arquitectura – concebido por Inês Lobo e aprovado por unanimidade pelo anterior executivo camarário, já em 25 de Janeiro de 2012 -, bem como assegurar os acabamentos interiores.

 

O vereador, que destacou também a importância do projecto como forma de assegurar a “coesão” e o “multiculturalismo” da capital portuguesa, garantiu a entrada em breve do mesmo na sua fase de execução. A aprovação das expropriações dos referidos edifícios deverá então desbloquear uma situação de impasse que já durava há muito.

 

Em Janeiro passado, quando O Corvo deu conta das dificuldades sentidas pela câmara municipal para libertar os terrenos onde nascerá o projecto – que “prevê a criação de um espaço público e a construção de três blocos para instalação de atividades que permitam a sua fruição pública, com funções polivalentes, e a transferência de um espaço de culto – mesquita – já existente na Mouraria” -, existia apreensão por parte dos responsáveis da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD) face ao seu futuro. Isto porque a CPCCRD ocupa o 248 da Rua da Palma, que também vai abaixo, juntamente com uma grande garagem situada ao lado. A câmara já garantiu, entretanto, o realojamento da confederação noutra zona da cidade.

 

Na discussão tida antes da votação ocorrida na reunião de câmara desta quarta-feira, e apesar da aprovação unânime, o vereador João Gonçalves Pereira (CDS-PP) levantou algumas reticências em relação ao projecto. “Tenho algumas dúvidas em relação ao princípio que estamos aqui a adoptar. O que é que o município vai fazer no caso de outras confissões religiosas quererem também elas construir outras igrejas?”, disse, sugerindo que se poderá estar assim a abrir um precedente.

 

Mas o único vereador centrista também destacou a aparente incongruência de a autarquia estar a financiar um templo religioso quando, há alguns meses, o seu partido viu recusado a aprovação do financiamento para a realização de uma missa “em honra das vítimas do 25 de Abril e do 25 de Novembro”, com o argumento por parte da maioria socialista de que “o Estado é laico”. “Se assim é, se o Estado é laico e agora estamos a gastar 1,5 milhões de euros na construção de um templo, há aqui qualquer coisa que não bate certo”, fez notar João Gonçalves Pereira.

 

O projecto foi, no entanto, muito elogiado por outros quadrantes da oposição. “Verifico com satisfação que o município dá um sinal claro e inequívoco de que não é indiferente à vida das comunidades da cidade”, afirmou António Prôa (PSD), que considerou o avanço da obra como um “exemplo de tolerância” e “um sinal de abertura a confissões que não são dominantes na nossa comunidade”. Uma apreciação replicada pelo vereador João Bernardino (PCP), para quem a construção da mesquita “vai ao encontro de um conceito de cidade multicultural”. Algo, disse, especialmente importante “numa época como a que vivemos”.

 

Texto: Samuel Alemão

 

 

  • Ricardo Cabrita
    Responder

    Quantas mais vão abrir em Lisboa?
    Necessitamos de 2 mesquitas em Lisboa?
    Quanto recebeu a CML da comunidade islâmica para a construção desta obra?
    Porquê o gasto de dinheiros públicos nestas obras?Perguntem se é aceitável a construção de uma igreja em Dacca que vão a ver a resposta…Ingenuidade típica Lusa!!!

  • Ricardo Cabrita
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    Entretanto numa Europa desenvolvida, democrática e atenta….

    • José João Leiria-Ralha
      Responder

      Percebeu mal o artigo e o exemplo da Europa desenvolvida. O que na Noruega não querem é que as mesquitas sejam financiadas pelo Estado saudita ou pelos milionários sauditas, para que elas não sejam radicalizáveis. O que defendeu no comentário anterior foi precisamente que elas usassem essa espécie de financiamento.

    • Ricardo Cabrita
      Responder

      Até aí entendi “it would be ‘a paradox and unnatural to approve funding from sources in a country which is not open to religious freedom.”…Sejam eles(investimentos) privados ou públicos o que está em causa é a tolerância ou a falta dela…por parte de uma religião em relação a outros credos .Só para concluir!!

      http://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT76702

    • Ricardo Serrao
      Responder

      O Jose Joao é que percebeu mal, e ainda teve a infelicidade de tentar corrigir outra pessoa.

      O texto em ingles é claro a dizer que o ministro esta a rejeitar o uso de dinheiros publicos neste tipo de projectos, mas tambem reforça que é um paradoxo subsidiar projectos vindos de paises onde nao ha uma liberdade religiosa.

      E ele reforça que podia apenas ter dito nao, mas faz questao de manter claro que a falta de liberdade religiosa na Arabia Saudita por si so ja seria razao para rejeitar a proposta.
      Assim como outro projecto semelhante, de um homem de negocios saudita, tambem sera rejeitado.

      Nao esta tanto em causa a origem do dinheiro, embora essa pudesse ser uma terceira razao para a rejeicao… Lol

    • Ricardo Cabrita
      Responder

      Uma sugestão à câmara municipal de Lisboa. Em Cascais está em votação vários projectos de interesse público o chamado “orçamento participativo. Esta votação esta acessível à população.Os residentes terão oportunidade de votar sim ou não nos diversos projectos existentes… Isto sim!
      É exemplo de democracia,prioridade e aplicação de dinheiros públicos ao serviço dos munícipes .A maioria da população Portuguesa anda adormecida,apática, mas convém relembrar que existe “os outros”,os informados. Enquanto os outros põe limites,nós cá não os pomos….

      • Pedro Monteiro
        Responder

        “Os outros, os informados…”
        A sério?

    • Ricardo Cabrita
      Responder

      Obrigado pela informação Rodrigo Teixeira,faz -me pesquisar ainda mais num contexto mais alargado a nível nacional.

    • Rodrigo Teixeira
      Responder
  • Gerardo Lima
    Responder

    Acho muito bem que se valorizem as tradições culturais, que tanto caracterizam essa zona, como também são parte fundamental da própria história da cidade. Nisso a Câmara de Lisboa está de parabéns: sou absolutamente fã do trabalho que tem sido feito nas áreas do Martim Moniz e Intendente!

    Mas os esforços de integração não se deviam ficar por aqui: há uma componente difícil em segmentos específicos da sociedade, mas que por isso mesmo deve ser abordada, que é garantir a participação das mulheres. Gosto muito de passar pela rua do Bem Formoso e ver gente de tantas origens a conviverem numa grande harmonia, mas estranha-me andar na cidade e não ver mulheres, senão as prostitutas.

    Pra mim, isto é motivo de preocupação e gostaria de ver ações mais afirmativas na promoção de uma sociedade mais igualitária e a garantia dos direitos das mulheres.

    • Vasco
      Responder

      Sim, sim promove o Islao que irás ter muitos direitos das mulheres. LOL

  • André Vilela
    Responder

    Bernardo Trancoso

  • Valentina Toscano
    Responder

    Elisa Sininho Sartor

  • Ana Filgueiras
    Responder

    Assim nos orgulhamos dos que dirigem esta nossa bela cidade!!!

  • A. Brito Guterres
    Responder

    o do CDS ficou fodido pela CML financiar mesquita e n missa “em honra das vítimas do 25 Abril e do 25 Novembro” https://t.co/pnnLGJedUl

  • Jorge Parente Baptista
    Responder

    Andou o Afonso Henriques a combater os mouros..agora fazemos-lhes mesquitas…

  • Manuel Berrucho
    Responder

    PELOS VISTOS AINDA POR CA FICARAM ALGUNS,..???

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