Entre maquetas, desenhos técnicos, plantas, esboços, são quase duzentas peças. Foram resgatadas aos arquivos, o municipal e o do Museu de Lisboa. Contam a história de uma cidade que, ao longo dos séculos, perseguiu um sonho de uma certa monumentalidade, aqui e ali projectada, mas quase sempre abandonada. “A Lisboa que teria sido” pode ser vista, até 25 de junho, no Palácio Pimenta, ao Campo Grande.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

No meio de tantos traços a duas dimensões, é difícil não reparar numa enorme caixa de vidro e madeira nobre que expõe a maquete de 1922 do futuro Parque da Liberdade. Um projecto ganho, em 1887, pelo francês Henri Lusseau, que imaginou um parque romântico para substituir o Passeio Público, entretanto transformado em Avenida da Liberdade.

 

Seria ainda preciso esperar pelo final dos anos quarenta do século seguinte para que se concretizassem as obras daquele que conhecemos como Parque Eduardo VII – o espaço foi assim baptizado ainda antes de existir, em 1903, por ocasião da visita a Lisboa do monarca britânico. Reconhecemos as duas torres do arquitecto Keil do Amaral, coroadas de arcos de louros e as alamedas verdes que partem do Marquês, mas a estátua de Santo Condestável, essa, foi parar à porta do Mosteiro da Batalha.

 

“É que, mesmo um regime nacionalista, às vezes, tinha um certo pudor de não exagerar”, explica ao Corvo António Miranda, um dos comissários desta exposição. “Já as alamedas verdes, rectilíneas, mostram que tudo, talvez, fosse reversível, prevenindo uma futura avenida de carros” que conduzissem ao monumental palácio da cidade, glória sonhada do Estado Novo, projectada para o local onde agora está o Jardim Amália Rodrigues.

 

O eixo central que parte do Rossio e termina na Penitenciária de Lisboa foi, durante todo o século XX, um laboratório de ideias, futuristas, modernistas, megalómanas, estimuladas por concursos que hoje chamaríamos de ideias quase todas abandonadas – “que, na realidade, nem precisavam de ser tomadas muito a sério. A falta crónica de dinheiro acabava por deixar as obras no papel.”

 

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À entrada da exposição, é distribuído um pequeno jornal recuperando notícias sobre urbanismo em Lisboa. Ao Diário Popular de 1 de Setembro de 1971, o então presidente da Câmara de Lisboa, engenheiro Santos e Castro, garante: “não vou hipotecar a cidade para construir o prolongamento da Avenida da Liberdade”. Este curioso jornal gratuito, repositório da forma como a imprensa ia dando fé das mudanças pensadas para mudar a cidade – e que, por si só, já justificava a visita a esta exposição -, fecha com a notícia do Diário de Notícias de 31 de Outubro de 2003 garantindo que “Siza avança com as Torres.”

 

A construção em altura, com o seu cemitério de torres imaginadas, é outro núcleo da exposição, bem como os projectos de travessia do Tejo, outros de construção na chamada frente ribeirinha, o eterno estaleiro Martim Moniz, ou as sempre sonhadas melhorias nas portas da cidade, sejam elas no Lumiar ou em Benfica. “Só a entrada pela Ponte 25 de Abril nos faz suspirar pela cidade que vamos encontrar. As outras vias de entrada são um caos, nunca nos deram as boas vindas e são um problema urbanístico nunca solucionado”, considera António Miranda.

 

“Optámos por esta justaposição de projectos, muito em estiradores, para lhe darmos o charme de uma exposição de arquitectura, que também corresponde à ideia romântica de atelier” explica o comissário. Esta é também uma oportunidade de revisitarmos nomes clássicos do modernismo português, como Carlos Ramos, que imaginou, em 1934, um Rossio monumental, Cassiano Branco e os Resturadores, Keil do Amaral, Cotinelli Telmo, Cristino da Silva e outros projectos de ilustres desconhecidos.

 

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Detemo-nos frente ao projecto de F. Guerra (ninguém sabe o nome de quem assina este projecto que os arquivos guardam) para a construção de um Hotel Hilton, pensado para a praça à entrada da estação de Santa Apolónia, na década de sessenta do século XX. No desenho, o Museu Militar perde escala, fica apequenado face à gigantesca torre. É um projecto obviamente abandonado, mas quando o contrapomos ao caos que ali temos hoje – um parque de estacionamento improvisado e esplanadas mal amanhadas -, vacilamos.

 

“Nesta exposição, não nos pronunciamos nem contra nem a favor do que não foi construído. O visitante tirará as suas conclusões, umas óbvias, outras, se calhar, nem tanto. Mas, a verdade, é que a Lisboa de que hoje gostamos seria bem diferente, se muito do que aqui está tivesse sido construído”, conclui António Miranda.

 

A Lisboa que teria sido

Museu de Lisboa/Palácio Pimenta – Pavilhão Preto

Campo Grande, 245

Até 25 de Junho

Mais informações: www.museudelisboa.pt

 

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