“Já se chegou ao ponto de se dizer que Lisboa terá sempre cheias. Ah sim? E já se olhou para o que fizeram em Barcelona para as resolver?”, pergunta Fernando Nunes da Silva, que critica a valorização de “interesses mediáticos e políticos” em detrimento de questões técnicas e científicas. Há obras infraestruturais na rede de drenagem que podem começar já a ser feitas, garante.

 

Texto: Samuel Alemão

 

Fernando Nunes da Silva, que foi vereador da Mobilidade e Infra-Estruturas, até Outubro de 2013, no anterior executivo liderado por António Costa, acha que ele teve declarações infelizes no final da segunda enxurrada a paralisar a capital em três semanas. E isso acontece, diz, porque se está “mais preocupado com a imagem projectada nos media e em colocar a política à frente das decisões fundamentadas de forma técnica”.

 

O actual deputado municipal, eleito por uma lista independente, não gostou de ver o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) a desvalorizar publicamente, na terça-feira, a falta da implementação do Plano Geral de Drenagem da cidade como uma das razões das cheias. “O Plano de Drenagem não faz desaparecer estas situações. A solução não existe”, disse Costa.

 

Falando, na quinta-feira à noite, no encerramento da conferência Planeamento e Gestão Sustentável do Espaço Público –  a última a ser realizada no âmbito do 2º Encontro de Urbanismo da CML, em Picoas -, Nunes da Silva lamentou que os decisores políticos, muitas vezes, optem por colocar outros interesses à frente do bem público. “A decisão política deve ser sempre fundamentada na escolha entre soluções cientificamente validadas. E não o contrário, como acontece com frequência. Já se chegou ao ponto de se dizer que Lisboa terá sempre cheias. Ah sim? E já se olhou para o que fizeram em Barcelona para as resolver?”, questionou.

 

O professor universitário, especialista em transportes do Instituto Superior Técnico, disse, de seguida: “É claro que lá também existem cheias e que obedecem a ciclos, mas foram tomadas soluções ao nível das infra-estruturas para as minimizar”. Sem referir explicitamente o seu nome, Nunes da Silva considera que António Costa colocou “os interesses mediáticos e políticos” à frente de uma análise técnica e científica do problema.

 

“Quando uma pessoa só aplica receitas, é evidente que isso falha”, criticou, nas instalações do Centro de Informação Urbana de Lisboa (CIUL), ante uma audiência em que estavam presentes alguns elementos da actual equipa de Costa – entre eles o moderador do debate, Tiago Farias, director municipal de Mobilidade e Transportes.

 

No final da conferência, e questionado pelo Corvo, Nunes da Silva reiterou as críticas, mas preferiu centrar os reparos a Costa no que ele devia ter dito e não disse. “Foi um erro sugerir que pouco se pode fazer para evitar as cheias, porque elas existirão sempre, como também é errado começar logo a dizer que o problema é a falta de limpeza, como alguns fizeram”, afirma o ex-vereador.

 

Para Nunes da Silva, António Costa ficou mal na fotografia, e deveria antes ter dito aos jornalistas o seguinte: “As soluções para fazer face a este tipo de situações existem, mas envolvem soluções que demoram muito tempo e cuja realização não está ao alcance financeiro da câmara. Por isso, requerem esse tempo e uma articulação com a administração central”.

 

O professor e membro da Assembleia Municipal de Lisboa discorda da ideia de “tudo ou nada” em relação à execução do tão falado Plano Geral de Drenagem, aprovado já em 2008 e com um custo previsto de 153 milhões de euros. Apesar de referir que o mesmo precisa de “ser actualizado” em virtude das “boas decisões de criar grandes áreas verdes”, que absorvem as águas pluviais, Nunes da Silva defende que “é possível começar a fazer algumas intervenções para minimizar os efeitos de grandes intensidades de chuva”.

 

E aponta como prioridades a construção de bacias de retenção – grandes reservatórios subterrâneos onde se acumulam as águas das chuvas, para depois serem despejados em alturas mais propícias – no eixos das avenidas da Liberdade e de Almirante Reis, bem como de um colector em túnel na zona de Santa Apolónia. Este género de soluções foi o adoptado em Barcelona, diz o antigo vereador.

 

Na última reunião da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada na terça-feira – à porta da qual proferiu as tais declarações sobre a alegada não existência de uma solução para as cheias -, António Costa anunciou que a autarquia vai preparar, em breve, uma candidatura a financiamento comunitário, através do Fundo de Coesão, para a implementação do plano geral de drenagem da cidade.

  • Antonio Ferreira de Lemos
    Responder

    Sr Presidente Há mar e mar há ir e voltar como poderia ser viva uma vida desafogada. Como já tive oportunidade de salientar a inevitabilidade das inundações e falsa e a minimização dos seus efeitos e possível realista e viável .Não e obra mt visível para render votos e na atual situação de transição para novas fi«unçoes quem ficar que pelo menos tenha menos votos para que Ant Costa seja sempre vencedor e recordista Coitado do Seguro

  • Antonio Ferreira de Lemos
    Responder

    Lisboa quando não esta submersa esta melhor que há 6 anos

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