“Eu estou aqui!”

CRÓNICA
Isabel Braga

Texto

Selima

Imagens

VIDA NA CIDADE

Beato

27 Fevereiro, 2017


A Rua da Escola Politécnica, onde uma multidão de gente circula dia e noite, a pé e de automóvel, atraída pelas novas lojas, cada vez mais sofisticadas, que abrem todos os dias, e pelos restaurantes de “chefs” conhecidos ou de gastronomias exóticas que, a preços algo exorbitantes, vieram substituir velhas tascas tradicionais, está a ser abandonada por muitos dos antigos moradores.

Pressionados pelos senhorios, ansiosos pela oportunidade de negócio que lhes é proporcionada pelo extraordinário aumento de preços dos seus andares – nesta zona da cidade, o metro quadrado atinge os cinco mil euros, os preços mais altos de Lisboa, segundo a Remax -, idosos de saúde frágil abandonam as suas casas, aliciados às vezes pelas somas que lhes são oferecidas, muito baixas mas avultadas, para quem vive de reformas mínimas.

Foi o que aconteceu a uma mulher de noventa anos, a quem todos conhecem no bairro por “Avó Maria”, a cujo drama fui assistindo, relatado por ela, na cabeleireira de bairro que ambas frequentamos. O final não foi feliz.

A filha da Avó Maria, que depois de alguns desaires familiares, decidira voltar a viver com ela, acabou por convencer a mãe a aceitar os vinte e cinco mil euros que o senhorio lhe oferecia, se aceitasse sair da sua casa. A velha senhora resistiu quanto pôde, e chegou a pedir à cabeleireira para lhe arranjar um advogado que a ajudasse a opôr-se ao exílio forçado. Mas as circunstâncias estavam contra ela: já não conseguia viver sozinha, precisava do apoio da filha, e se o desejo desta era aceitar a oferta do senhorio, resignou-se a mudar para uma casa de renda barata, em Benfica.

Todos os meses, a Avó Maria, que continua muito lúcida, se mete num transporte público e ruma ao cabeleireiro, na Rua da Escola Politécnica, para arranjar o cabelo, carpir as suas mágoas e matar saudades da rua onde sempre viveu: “Aquilo lá é uma tristeza, não conheço ninguém e só vejo cimento à minha volta. Aqui, via o Tejo da minha cozinha. Tenho muitas saudades do rio, dos vizinhos, da minha casinha”, confidencia ela à cabeleireira que lhe penteia os caracóis brancos.

Crónica Isabel Braga

As histórias de gente expulsa de sua casa nesta zona da cidade multiplicam-se, ao ritmo dos prédios em obras, do avolumar do trânsito, da proliferação de novos comércios. Mas há quem não tenha abandonado o bairro. Um deles é um sem abrigo, que há vários anos passa o seu tempo na mesma soleira de porta. Louro, de olhos claros e estatura muito elevada, sem parecer fisicamente degradado, o homem poderia passar por um turista nórdico, um dos muitos que se passeiam agora pela Rua da Escola Politécnica, se não fosse usar o mesmo anorak castanho informe no Verão ou no Inverno, façam trinta graus ou menos cinco.

No chão, ao seu lado, um velho boné voltado ao contrário recolhe as moedas dos passantes, que ele não se dá sequer ao trabalho de interpelar, uma vez que passa o tempo deitado a olhar para o ar, por vezes entregue a um solilóquio incompreensível, entredentes.

Habituei-me a apreciar a postura discreta deste homem, que se limita a estar no mesmo sítio ano após ano, não pedindo nada, não tendo comportamentos excêntricos, nem acumulando sujidades à sua volta. Mas, há pouco tempo, o seu comportamento mudou. Continua indiferente ao fluxo interminável de trânsito humano e automóvel, continua deitado no mesmo sítio, mas o silêncio discreto em que se mantinha começou agora a ser interrompido de vez em quando, por um grito: “Eu estou aqui”.

Parei na rua, da primeira vez que o ouvi, sentindo o coração apertado, com pena do homem. Atravessei a rua para lhe dar uma moeda, que ele agradeceu com um discreto aceno de cabeça, continuei a andar e, ainda ouvi outra vez o seu grito vibrante: “Eu estou aqui!”

Não será aquele grito o protesto de quem não se resigna a que o ignorem, a que passem por ele como se ele não tivesse existência, como acontece cada vez mais, numa rua onde o anonimato substituiu as solidariedades de vizinhança? Pareceu-me que sim, e também que nessa afirmação da sua pessoa, o sem abrigo mostra mais orgulho próprio e capacidade de resistência do que muitos dos velhos habitantes da Rua da Escola Politécnica, incapazes de gritar aos ouvidos dos senhorios: “Eu estou aqui”. Mesmo que tenham nascido ali, como a Avó Maria, há noventa anos.

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