Crónica

 

Estava a olhar para o cartaz de “uma tragédia em 4 atos”, que ia ser representada no São Carlos, quando acionaram a gravação: “Proteja os seus bens, esteja especialmente atento à entrada   e à saída do comboio”.

 

Eram onze da manhã, a estação do Metro quase deserta. Cinco pessoas, no total: uma a andar devagar ao longo da plataforma, para trás e para frente; as outras sentadas, à espera. “Proteja os seus bens”, “esteja atento”…

Não aconteceu nada: nem à entrada, nem à saída do comboio. A maioria dos passageiros saiu no Colégio Militar, a caminho do Colombo.

 

Como muita gente, tenho cartão da FNAC, do Continente, da Springfield e de mais algumas marcas. Mas detive-me primeiro no átrio exterior do centro comercial. Gosto daquele espaço, com bancos corridos de metal, bonsais, palmeiras e um repuxo.

 

Ao fim da manhã, o sol bate de frente, por cima dos arcos vermelhos do Estádio da Luz. Sabe bem sentir o regresso do calor, o ar mais leve, anunciando a primavera. “Março, marçagão/Manhãs de inverno, tardes de verão”. O tempo das castanhas assadas está a acabar, vêm aí os gelados.

 

Tirando o som da 2.ª Circular e as centenas de automóveis estacionados em redor, sobra uma praça aberta, com qualquer coisa de mediterrânico. É um local de encontro e um sítio onde se pode fumar. Empregados dos escritórios e das lojas juntam-se ali aos pares e em pequenos grupos. Fumam e conversam. Alguns trazem um copo de cartão com uma bebida. Provavelmente é o único momento do dia em que falam de assuntos não relacionados com o seu trabalho. Há uma espécie de cumplicidade.

 

Pedir lume a uma pessoa desconhecida ainda não é considerado uma forma de assédio. Pode ser até o princípio de um romance. “You can’t start a fire without a spark”, diria Bruce Springsteen.

“Proteja os seus bens”, “esteja atento”…

 

Texto: António Caeiro

 

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