Este chão que nos separa

REPORTAGEM
João Pedro Pincha

Texto

URBANISMO

Beato

13 Março, 2014

A limitação da calçada portuguesa às zonas turísticas da cidade é a medida mais sonante do Plano de Acessibilidade Pedonal, aprovado há menos de um mês. Foi anunciada em Setembro passado, por António Costa, em plena campanha eleitoral. O debate apaixonado entre apoiantes e opositores da medida começou logo. E veio para ficar.

Ao balcão da Pastelaria Ceuta, na Avenida da República, a discussão está instalada. Manuel Costa, empregado do estabelecimento, é de opinião que se deve “levantar toda a calçada e pôr blocos” de outro pavimento o mais depressa possível. Maria, cliente, interrompe o café e o queque da tarde, para discordar. “Para mim, ficava a calçada”, diz, logo apoiada por outra cliente, Maria Alves, que desconhecia as intenções da Câmara Municipal de Lisboa (CML) de substituir a calçada portuguesa por outros materiais, em certas zonas da cidade. “A pedra lioz é mais escorregadia, mais insegura”, comenta.

Inserida no Plano de Acessibilidade Pedonal, aprovado por unanimidade a 18 de Fevereiro pela Assembleia Municipal, a substituição da calçada portuguesa foi uma ideia lançada por António Costa durante a campanha para as autárquicas que teve reacções imediatas. Desde logo, o lançamento de duas petições on-line contra a medida. Uma delas, promovida pelo Fórum Cidadania LX, alcançou já mais de 4600 assinaturas, tendo os seus signatários requerido à Presidente da Assembleia da República (AR), Assunção Esteves, uma audiência com o objectivo de entregarem o abaixo-assinado aos deputados.

Semelhante estratégia está a seguir a Associação de Defesa do Património de Lisboa (ADPLx), cuja presidente, Aline de Beuvink, garante que vai “falar com os grupos parlamentares da AR para sensibilizá-los para a incompetência da Câmara”. Porque, para a ADPLx, é isso que está em causa. “Quando dizem que querem tirar a calçada por causa da mobilidade, não resolvem o problema em si: a incúria da CML, que não se preocupa. É mais fácil para a Câmara colocar betão”, acusa Aline, que lembra ainda que “os outros pavimentos também podem ter buracos”.

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Luís Neves Filipe não concorda. Para o investigador do Instituto Superior Técnico e um dos fundadores do projecto LX Amanhã, “a primeira coisa que se deve perguntar é para que é que o pavimento serve e se [a calçada] serve esse propósito”. Serve para assegurar as “melhores condições de acessibilidade” aos peões lisboetas, nas palavras do vereador dos Direitos Sociais, João Afonso. E responde Luís Filipe: “A calçada não cumpre o fim para que está destinada e é extremamente cara. É um pavimento que se deforma rapidamente e o assentamento é mais caro do que pôr placas de cimento”.

O argumento é refutado por Aline de Beuvink, que não acredita “que saia mais barato” retirar a actual calçada e colocar um novo pavimento. A questão monetária foi, aliás, levantada na sessão da Assembleia Municipal aquando da aprovação do Plano de Acessibilidade Pedonal, com alguns deputados, entre eles Ana Páscoa, do PCP, a considerarem “muito reduzido” o orçamento previsto para a concretização do Plano – cerca de 3% das verbas camarárias para este ano.

Calçada às três pancadas

O início da calçada remonta a 1842, quando a parada do Batalhão de Caçadores 5, no Castelo de São Jorge, foi calcetada por homens presos no aquartelamento. Daí rapidamente se alastrou a muitas outras zonas da cidade, do país e do estrangeiro, estando presente em sítios tão distintos como algumas cidades do Brasil, Espanha e Angola, Macau, Bruxelas e até mesmo Nova Iorque, no memorial a John Lennon do Central Park.

Aline de Beuvink acusa a Câmara de “não ter visão”, uma vez que a calçada “podia ser um produto a ser exportado, como o fado e o pastel de nata.” Por isso, acha “inacreditável que sejam os estrangeiros a dar valor”, enquanto em Lisboa se discute a retirada de um pavimento que classifica de “património histórico”. Luís Filipe põe em causa esta visão. “A calçada não é tão histórica quanto isso”, diz, escudando-se no facto de a primeira colocação deste tipo de pavimento ter ocorrido há 172 anos. “Aquele pavimento no Terreiro do Paço [em lioz, debaixo das arcadas] é que é tradicional”, defende, salvaguardando, contudo, que a questão da calçada portuguesa tem sido discutida com “uma base emocional muito grande”, o que não tem permitido um debate técnico e pragmático sério.

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De parte a parte, a favor ou contra a calçada, surge, no entanto, uma crítica comum: os passeios de Lisboa carecem de manutenção. “Isto anda tudo uma bandalheira”, comenta Manuel Costa, na Pastelaria Ceuta. Ali, conta, “basta cair um bocadinho de chuva dos algerozes para a pedra começar logo a saltar”. Maria, a cliente, crê que “o verdadeiro problema é mesmo a falta de manutenção” e sugere que se passe a colocar cimento entre as pedras para que os buracos não se sucedam.

Ao retirar a calçada, “estão a tratar os sintomas do doente e não a doença”, refere Aline, para quem os automóveis estacionados em cima dos passeios ou em segunda fila são problemas de mobilidade mais graves. “A calçada, se for bem colocada e tiver manutenção, não tem problemas. Não pode é ser colocada às três pancadas e ter carros estacionados em cima”, conclui.

A cidade das pessoas

De acordo com o Dinheiro Vivo, que cita uma fonte da CML, são 29 os locais onde a calçada portuguesa com motivos artísticos não sofrerá alterações. A grande maioria dos espaços situa-se no centro da cidade, em Belém e no Parque das Nações, mas há igualmente locais, como a Avenida Conde de Valbom ou a Avenida Almirante Reis, fora da zona habitualmente considerada turística – que a Câmara prometeu preservar.

Uma rua do centro histórico que, contudo, já não tem calçada portuguesa é a Rua da Vitória, em plena Baixa, onde se colocou pedra lioz polida. Tal tem motivado protestos de comerciantes e peões, especialmente em dias de chuva, já que se trata de um pavimento escorregadio. “Sinceramente, não gosto”, comenta Fernanda Araújo, comerciante da rua. “Este pavimento não é prático. As pedras estão todas a saltar e escorrega-se”, refere, contando que já assistiu a escorregadelas e quedas de transeuntes. Aline de Beuvink também já escorregou ali e diz que “nunca escorrega na calçada”. Por seu turno, Manuel Costa e Luís Filipe relatam que já ambos torceram o pé em pavimento de calçada portuguesa.

“Eu amo o chão de Lisboa”, declara Fernanda Araújo, que teme que Lisboa não venha a ser mais aquilo que é – e até propõe que a Rua da Vitória seja coberta e ocupada por comércio, à semelhança do que acontece nas Galerias Vittorio Emanuele, em Milão. Sobre as queixas de quedas, escorregadelas e impossibilidade de andar de saltos altos na calçada, é peremptória: “As pessoas têm de se adaptar àquilo que existe”.

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“A cidade é feita por pessoas. A calçada somos nós que a fazemos”, replica Luís Filipe, que ressalva não ser um “radical” contra este tipo de pavimento. “O Plano foi bem feito e bastante pensado”, mas, na sua opinião, faltam ainda estudos que permitam perceber “o impacto da calçada na deslocação dos idosos, no conforto e em que posição é que a calçada fica em comparação com outros pavimentos”.

Com ou sem esses estudos, a verdade é que a face de alguns passeios lisboetas já está a mudar, com a colocação de pedra lioz ou de misturas betuminosas em cruzamentos e junto a passadeiras. Para a presidente da ADPLx, são formas de “brincar com a cidade que foi capital do império”. Para Luís Neves Filipe, “é muito mais confortável para caminhar”. O debate está lançado e promete continuar a dividir Lisboa.

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COMENTÁRIOS

  • JoãoPedroPincha
    Responder

    Este chão que nos separa http://t.co/jCi866c6ZR

  • Sueli Ventura
    Responder

    já fraturei a rótula na calçada portuguesa: consegui escorregar, tropeçar e cair em sequência e tive uma fratura.

  • Teresa Santos
    Responder

    RT @jpedropincha: Este chão que nos separa http://t.co/jCi866c6ZR

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