Estátuas de Lisboa regressam à vida

ACTUALIDADE
Isabel Braga

Texto

Fernando Faria

Fotografia

CULTURA

Santa Maria Maior

4 Novembro, 2013


A Casa dos Gessos, uma dependência do Museu Militar de Lisboa, situada perto do Panteão Nacional, é um lugar único: uma enorme sala quadrangular com um pé direito da altura de um edifício de dois andares, no centro da qual está guardado o molde em gesso da estátua equestre de D. José, que ornamenta o Terreiro do Paço.

A visão próxima da peça da autoria de Machado de Castro é impressionante pelas enormes proporções e impressionante brancura. A parte de cima da escultura fica demasiado alta para poder ser vista a partir do piso térreo, pelo que, para a admirar, há que subir as escadas de acesso à galeria que corre a meia altura das quatro paredes da sala, iluminadas por janelas de guilhotina. Vista ao pé, a estátua é de uma surpreendente e majestosa beleza.

A estátua equestre de Dom José foi encomendada, em 1770, a Joaquim Machado de Castro, que se deparou com algumas dificuldades na sua execução, designadamente pelo facto de o rei se ter recusado a posar para ele. O escultor socorreu-se de retratos do monarca, mas, mesmo assim, viu-se na necessidade de desviar as atenções do seu rosto, dando excepcional relevo ao capacete real emplumado.

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A obra de Machado de Castro representando Dom José a cavalo foi a primeira estátua equestre realizada em Portugal e um dos primeiros conjuntos escultóricos representando uma pessoa viva colocado na via pública. A inauguração do monumento, a 6 de Junho de 1775, serviu para comemorar o 61º aniversário do rei, que, nessa ocasião, participou pela última vez numa cerimónia pública, segundo o historiador Joaquim Veríssimo Serrão.

A estátua foi fundida, entre 1771 e 1774, na antiga fundição militar, denominada Fundição de Cima, nas imediações do Largo de Santa Clara, em cujas instalações está localizada não apenas a Casa dos Gessos, mas ainda alguns espaços museológicos militares, incluindo o antigo Museu de Artilharia.

Na parte de baixo da Casa dos Gessos, alinham-se, encostados às paredes, os moldes de outras estátuas igualmente fundidas na antiga fundição militar, que ornamentam praças e ruas de Lisboa e outras cidades do país: os das esculturas aladas “O Génio da Independência”, de Alberto Nunes, e “O Génio da Vitória”, de José Simões de Almeida, que fazem parte do Monumento dos Restauradores, na praça do mesmo nome; das estátuas de Sousa Martins, situada no Campo dos Mártires da Pátria, e da de Afonso de Albuquerque, que se ergue na Praça do Império, ambas da autoria do escultor Costa Mota. Na Casa dos Gessos estão ainda os moldes da estátua do Marquês de Sá da Bandeira, de Manuel Fernandes Tomás, que está em Santarém, e da “Victória”, que faz parte do monumento ao Duque de Saldanha, em Lisboa.

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A Casa dos Gessos não está habitualmente aberta ao público, sendo apenas visitável mediante uma requisição dirigida ao Museu Militar. Mas, desde o princípio de Outubro e até 6 de Janeiro, o acesso é livre, de terça a sexta-feira, da parte da tarde, entre as 14h e as 17h, uma vez que dois artistas, Miguel Proença e Maria Tomás, escolheram o local para realizarem duas intervenções distintas: o primeiro apresenta uma fotografia – única – das figuras em gessos ali guardadas; a segunda montou uma instalação que dá maior realce às esculturas, aplicando nas paredes ao longo das quais se alinham um material – fabricado pela Cordoaria Nacional e usado no ‘black out’ de Lisboa durante a II Guerra Mundial  – que lhes permite destacarem-se daquelas com uma nova luz.

Nota Redactorial: texto corrigido às 21h30, de 17 de Novembro.

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