Mais de sete mil pessoas trabalham nos seis estabelecimentos de saúde do Centro Hospitalar de Lisboa Central, a maioria construções antigas e situadas em zonas de grande vulnerabilidade sísmica. Foi, por isso, muito participada a sessão evocativa dos 260 anos do terramoto de 1755, realizada no Hospital Dona Estefânia. Mas houve uma questão importante que ficou sem resposta. “Estão os nossos hospitais preparados para um sismo de grande magnitude?”.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

 

Houve sala cheia e quase uma centena de profissionais de saúde, a trabalhar nos seis hospitais que fazem parte do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), participou na sessão evocativa dos 260 anos do terramoto de 1755, na passada sexta-feira ( 19 de Junho), no Hospital Dona Estefânia, onde se falou do risco sísmico, da prevenção e dos comportamentos a adoptar em caso de um tremor de terra.

 

Antes mesmo de a sessão começar, Álvaro Santos, responsável da Unidade de Segurança contra Incêndios e Gabinete de Gestão de Risco do CHLC, em declarações ao Corvo, destacou a dimensão deste universo hospitalar. “Somos o maior centro hospitalar da Península Ibérica, com seis hospitais: São José, Santo António dos Capuchos, Santa Marta, Dona Estefânia, Curry Cabral e Maternidade Alfredo da Costa. Neles, trabalham 6.800 pessoas, não contando com os prestadores de serviços, o que eleva o número para 7.200, sem contar com os doentes, que são milhares. Para nós, é muito importante realizar acções de sensibilização como esta”, destacou.

 

“Os hospitais têm de estar preparados e saber como proceder em caso de um sismo. Têm de saber como fazer a evacuação dos doentes, se, por terem sido atingidos, tal se revelar necessário. Mas também têm de estar preparados para, caso resistam ao sismo, receber subitamente muitas pessoas a precisar de cuidados”, destacou aquele responsável.

 

Coube à investigadora Paula Teves Costa, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explicar à audiência, de forma clara, como e porquê se registam sismos e falar de casos que fizeram história, quando as dinâmicas das placas tectónicas provocam sismos como o de Tohoku, no Japão, a 11 de Março de 2011, que ocorreu numa zona de fronteira de placas. Ou de outros mais mortíferos ainda, como o do Haiti, em 2010.

 

O de 1755, em Portugal, foi obviamente referido, não só pela evocação, mas também porque é sobre este sismo de grande magnitude que recaem diversos estudos. Desde 2000 que se fazem estudos à procura da fonte do sismo de 1755.

 

Durante muito tempo, pensou-se que ela estaria no Banco de Goringe, hipótese que actualmente já não é admitida, frisou Paula Teves Costa. Outras fontes possíveis foram estudadas e detectadas, como as falhas do Marquês de Pombal e a falha Pereira de Sousa. “Embora não se tenha conseguido encontrar uma estrutura única responsável pelo sismo de 1755, o mais provável”, disse a investigadora, “é que ele tenha sido causado por um conjunto de estruturas e não apenas uma”.

 

Imagens do sismo de 1988 na ilha do Faial, Açores, foram igualmente mostradas, para demonstrar que a fraca qualidade de construção pode determinar uma maior vulnerabilidade sísmica. “Evitar a perigosidade não é possível, mas pode-se diminuir o risco”, salientou a investigadora, o que passa por tomar medidas de reforço das estruturas, mas também pela informação da população.

 

Essa é uma tarefa confiada em grande parte à protecção civil, que regularmente realiza acções de sensibilização e de preparação da população para um sismo, seja nas escolas ou nas empresas.

 

Neste caso, o dos hospitais, esperar-se-ia que a acção de prevenção e preparação fosse especificamente direcionada para os profissionais de saúde presentes, a quem caberá um dia enfrentar a situação de ter não só de salvar a sua pele como saber encaminhar os doentes, garantindo a sua segurança.

 

Paulo Henriques, geólogo do Serviço Municipal de Protecção Civil, referiu o facto de muitos dos hospitais de Lisboa serem construções antigas e menos resistentes em caso de sismo e apresentou até um mapa das áreas sensíveis da cidade, onde se tornava patente que os hospitais do Centro Hospitalar de Lisboa Central estão, na maioria, situados em zonas de grande vulnerabilidade sísmica.

 

Mas os conselhos dados pelo geólogo acabaram por ser os mesmos dados nas sessões levadas a cabo nas escolas, ou as dirigidas a qualquer cidadão. E quando a assistência teve a oportunidade de colocar questões, várias ficaram por responder.

 

“Gostava de saber o que se passaria no Hospital de São José, em matéria de acessibilidades, que, como é conhecido, são complicadas. Em caso de um sismo, ficaríamos bloqueados, não?”, questionou uma profissional de saúde.

 

Não houve uma resposta directa. O Hospital de São José, como os restantes, tem um plano de emergência. “É preciso ver nas plantas dos respectivos planos de catástrofe” como se deve proceder e por onde se deve circular, disse a enfermeira do Gabinete de Gestão de Risco do Centro Hospitalar Lisboa Central.

 

O Centro Hospitalar de Lisboa Central tem planos de catástrofe e contingência aprovados pela Protecção Civil”, salientou também um membro do conselho de administração do CHLC, em resposta a um profissional que questionara se, para evitar riscos, têm sido feitas obras de reforço das estruturas de hospitais tão antigos como o Dona Estefânia ou o São José. “Não foi feito nada de reforço na parte sísmica. Mas nós defendemos que o que é preciso é um hospital novo”, disse a mesma representante do conselho de administração.

 

Já quase no final da sessão, um profissional colocou a questão mais importante.“Estão os nossos hospitais preparados?”. Mas a pergunta ficou no ar, sem que ninguém lhe desse resposta, até porque a organização lhe cortou a palavra. “Há outras pessoas que querem colocar questões e daqui a pouco vamos ter de abandonar a sala para que se possa realizar outro evento”, alegou. A sala, que estava cheia de pessoas, esvaziou. Os problemas ali levantados ficaram a pairar.

 

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