As filas cada vez maiores de turistas à espera para entrarem no elevador de Santa Justa ou no ascensor da Glória são já parte da paisagem de Lisboa. Uma parte substancial dos lisboetas habitou-se a elas, quase como se fossem evidências suplementares da vitalidade turística da capital portuguesa. E talvez alguns nem se lembrem da última vez que ousaram subir uma das colinas da cidade a bordo tanto daquele par, como dos ascensores da Bica e do Lavra – estes dois um pouco menos pressionados pela demanda turística – ou de um dos eléctricos em circulação.

 

E talvez até haja uma boa razão para isso: é que, para quem não tem um passe mensal, as viagens naqueles meios de transporte têm-se vindo a tornar crescentemente incomportáveis. Uma viagem individual no Elevador de Santa Justa custa 5€, uma viagem de eléctrico é 2,85€ e subir a bordo de um dos três ascensores obriga a desembolsar 3,6€. É verdade que, por esses valores, o título de transporte dá sempre direito a duas viagens nos ascensores e no elevador. Mas o preço não baixa por se andar apenas uma vez. Um valor que contrasta com os 1,8€ necessários para realizar um percurso de autocarro.

 

Tanto assim é que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) aprovou, na última reunião de executivo, realizada a 28 de Outubro, uma moção demonstrando a sua preocupação com a política de preços levado a cabo pela Carris na sua frota de eléctricos e ascensores/elevadores. O documento proposto pelos dois vereadores do PCP contou com a aprovação unânime dos vereadores presentes – no momento da votação, o vereador João Gonçalves Pereira (CDS-PP) não estava na sala -, exceptuando no último ponto, relativo à manutenção dos Transportes de Lisboa na esfera pública, que mereceu abstenção do PSD.

 

“A Carris vem procedendo ao aumento da bilhética destes veículos, tentando transformá-los em meros meios de atracção turística, limitando dessa forma o seu uso pelas populações. Não estando munidos de um passe social, as viagens neste modo alcançam para os munícipes valores proibitivos”, considera o documento, depois de lembrar que “o serviço de transporte eléctrico da Carris, sob a forma de viaturas e elevadores, tem sido peça essencial na mobilidade em Lisboa”.

 

Por isso, a moção redigida pelos vereadores comunistas Carlos Moura e João Bernardino – e votada favoravelmente nos seus três primeiros pontos por 16 dos 17 vereadores (PS, PSD e PCP) – delibera “manifestar a sua preocupação em face das decisões relativas à bilhética dos elevadores e eléctricos”, “reafirmar a defesa do direito de mobilidade daqueles que habitam e trabalham na cidade de Lisboa” e “defender a manutenção e alargamento dos sistemas de elevadores e veículos de tracção eléctrica, dentro da rede de transportes urbanos”.

 

Os três eleitos pelo PSD apenas se abstiveram no quarto e último ponto da moção, que delibera “prosseguir, por todas as medidas e meios ao seu alcance, a defesa da manutenção na esfera e no domínio público do serviço público de transportes em Lisboa”. Isto apesar de os vereadores social-democratas nada terem obstado no último ponto das considerações deste documento, quando – e depois de se criticar a imposição “preços proibitivos” – se considera que tais subidas na bilhética “se inserem no âmbito de uma concessão que é, como todas as que têm sido levadas a cabo ou estão anunciadas, lesiva para o interesse público”.

 

Quando, em Junho de 2011, a Carris anunciou a subida para 5 € do preço do bilhete para o elevador de Santa Justa, os responsáveis da empresa justificaram a medida com o facto de aquele meio de transporte ser classificado como Monumento Nacional e existirem sempre enormes filas para o visitar. Mas também salientaram que os utentes munidos de outros títulos de transporte válidos para a rede da empresa – como os passes pré-comprados – poderiam continuar a utilizar livremente o referido elevador.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Tuga News
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    [O Corvo] Estão ascensores e eléctricos da Carris a tornar-se em transportes só de turistas? https://t.co/6ZHe26PZ4h

  • Natália Vilarinho
    Responder

    A própria cidade de Lisboa está a tornar-se só para turistas. Só apetece ir embora.

  • Diogo Dídac
    Responder

    pode ser que assim a carris diminua o tempo de espera. ninguém, a não ser que não tenha força nas pernas, espera 15 ou 20 min para subir a bica ou o lavra. o tempo de espera só pode ser para turistas… se diminuir pode ser q os lisboetas comecem também a usar.

    • Ricardo Serrao
      Responder

      Os lisboetas tem passe, os turistas pagam bilhete… Nao compensa servir bem quem ja pagou….

    • Ana Paula Cardoso
      Responder

      Exactamente o que sinto. O da Glória tentei noutro dia, mas o tempo de espera não compensava e subi a pé!

    • Marie-Thérèse Faidherbe
      Responder

      Nao todos os moradores tem pernas para subir a pé, por isso mesmo fizeram elevador.

  • Sally Pethybridge
    Responder

    Estão ascensores e eléctricos da Carris a tornar-se em transportes só de turistas? https://t.co/0VYaJ77hTU Downside of tourism for locals

  • Filomena Oliveira
    Responder

    o que interessa é fazer dinheiro; a noção de serviço foi-se…

  • Robert Kuzka
    Responder

    Cada vez mais serviços no centro de Lisboa tornam-se só para turistas. Elevadores, elétricos e também supermercados – o Pingo Doce do Cais do Sodré tem metade das estantes ocupadas com sandes, refrigerantes e batatas fritas de pacote porque é isso que os turistas a caminho da praia compram. Faltam outros produtos básicos disponíveis em qualquer Pingo Doce fora das zonas turísticas.

    • Ana Paula Cardoso
      Responder

      Tens um minipreço na praça de São Paulo 😉 Era onde eu ia quando trabalhava para esses lados…

  • Armando Viegas Lopes Lopes
    Responder

    Estamos entregues a bicharada. Agora que sao privados fazem o que querem, tem e de dar lucro.. Nos os tolos papamos tudo.

  • Paulo Ferrero
    Responder

    Yeap 🙁

  • Claudia Tavares E Castro
    Responder

    Já são.

  • Maria João Pereira Neto
    Responder

    Já são, e por exemplo em Campo de Ourique é chocante o que se está a fazer com o 28. Ainda é um bairro residencial e muito mal servido de transportes públicos. Tornou -se impossível andar no 28 que aos fins – de -semana e feriados é o único transporte público que nos resta…a não ser um micro autocarro que faz um trajecto reduzido. A cidade sem habitantes e sem uma efectiva rede de transportes públicos perde a sua condição.

    • Marie-Thérèse Faidherbe
      Responder

      mesma coisa para quem mora na Graça. Estamos sem transporte, principalmente o fim de semana. o mini autocarro (em muito mau estado, a gente sai dele com dores de columna) nao existe o fim de semana.

  • Ines Paulo
    Responder

    SE se pedir o bilhete dentro do eletrico sim é caro, creio que 3.50eur. No entanto quem tem o passe ou bilhetes recarregáveis pode usufruir do serviço como se de outro bus se tratasse.

    • Marie-Thérèse Faidherbe
      Responder

      sim, mas o serviço é muito mau. Para santa justa o domingo tive que esperar um hora antes de poder entrar e no elevador da gloria tivemos que esperar meia-hora antes de poder entrar para uma viagem de 2 minutos, porque nao fazem mais frequentes ? (eu sou residente e estava com amigos estrangeiros de visita)

    • Marie-Thérèse Faidherbe
      Responder

      E deixei de apanhar o 28 quando posso, por ser sempre cheio de turistas que sobem na primeira paragem e fazem o tur completo sentados, quando os moradores da Graça ficamos de pé quando conseguimos subir… (e é o unico transporte entre a Baixa e a Graça )

    • Ines Paulo
      Responder

      Não duvido q assim seja, até porque sp que passo por lá há filas. Tentei juntar-se e fazer uma exposição à câmara atraves da associação de moradores por exemplo.

  • Reinaldo Queiroz
    Responder

    Ao tempo”! E já acabavam com a porcaria do eletrico 28 que só faz é transito, principalmente quando avaria!

  • Sérgio Costa
    Responder

    Sim.

  • Francisco
    Responder

    Na verdade basta comprar antecipadamente um bilhete da carris/metro (1,40€) ou carregar um zapping numa estação de Metro ou comboio para viajar em qualquer destes elevadores e eléctricos pela tarifa standard de 1,25. O problema real não são as tarifas, é o desinvestimento e a instrumentalização do sistema de transportes como um brinquedo para turistas em detrimento das necessidades dos cidadãos. Se houvesse tempos de espera decentes e um esforço real de desimpedir e fiscalizar o percurso dos eléctricos — e por consequência, o centro histórico da cidade—, seriam o melhor transporte do centro de Lisboa.
    Já são o mais ecológico e o mais bonito.
    Mas não vai acontecer.

  • Marie-Thérèse Faidherbe
    Responder

    Ha filas de turistas unicamente porque a frequência de viagens é muito baixa. Os condutores ficam a conversar e depois os turistas que pagaram caro estao de pé e ninguem ve nada pelo quantidade de pessoas em cada viatura. O condutor do elevador da Gloria ficou grosero quando pregunte porque. Bela imagem para os turistas.

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