Estão a aumentar os furtos em apartamentos de Alojamento Local no centro histórico de Lisboa

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

2 Outubro, 2018

“Da primeira vez, os assaltantes conseguiram abrir a portada da cozinha, a partir de fora, entraram saltando sobre o lava loucas, roubaram os bens que estavam à mão – máquinas fotográficas e dinheiro -, e voltaram a sair pelo mesmo sítio. Da segunda vez, depois de alertarmos os hóspedes seguintes para manterem as janelas fechadas, os assaltantes entraram por uma janela que fica por cima da porta de entrada, rasgaram a rede mosquiteira e conseguiram abrir a janela. Conseguiram descer pelo interior, apoiando-se nos armários, sempre sem fazer barulho, e recolheram os bens, boas máquinas fotográficas, lentes avaliadas no valor de 1000 euros, e dinheiro. Pegaram nas chaves que estavam à vista e saíram pela porta de entrada, levando as chaves consigo”. O relato é feito por Susana Mendes, 40 anos, dona de um apartamento em alojamento local, na zona da Bica, assaltado duas vezes este Verão. E reflecte um fenómeno crescente na cidade de Lisboa, sobretudo nos bairros históricos.

A Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP) reconhece a relevância do problema e tem reunido com a Polícia de Segurança Pública (PSP) para tentar encontrar soluções para o mesmo. “Temos notado, desde há um ano e meio, o crescimento deste fenómeno, que se caracteriza sobretudo por um roubo não violento e de oportunidade. Tem muito que ver com a distracção ou pura negligência em relação a algumas precauções básicas de segurança por parte das pessoas que se instalam nos alojamentos locais”, diz a O Corvo Eduardo Miranda, presidente da associação, dando como exemplo o facto de muitos turistas não trancarem as portas ou fecharem as janelas dos seus apartamentos. Comportamento para o qual também muito contribuirá a percepção de que Portugal é um país seguro e com baixos níveis de criminalidade. “Estamos a falar de crimes de oportunidade, propiciados pelo facilitismo das pessoas. Não aparentam ser crimes altamente organizados”, afirma o dirigente associativo.

O fenómeno é, há algum tempo, conhecido nos bairros históricos, onde vai alimentando as conversas. “Neste bairros, têm-se vindo a multiplicar os relatos de assaltos a casas que estão a arrendadas a turistas, não a moradores. Ouvem-se relatos de casos em que os roubos acontecem, muitas vezes, com as pessoas dentro de casa, quando estão a dormir. Só este verão já soube se 11 assaltos a amigos meus, sempre da mesma forma, sempre em AL de andares baixos, rés-do-chão ou primeiro andar”, conta a O Corvo Elsa Faria, 46 anos, proprietária de diversos apartamentos, na zona da Madragoa e de Belém.


Muitos dos furtos relatados à empresária por amigos e conhecidos acontecerem nos dias mais quentes do Verão, quando muita gente optava por dormir com a porta e as janelas dos aparamento abertas. “Nalguns bairros, consta que são os próprios moradores, pois não há assaltos a habitantes locais. Há casas assaltadas várias vezes, dá ideia de que são pessoas que conhecem as rotinas”, comenta, explicando que tem ouvido falar de diversos casos semelhantes.

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Alfama é um dos bairros onde as queixas de furtos em alojamento local mais têm crescido

Disso mesmo dá conta Eduardo Miranda, o presidente da ALEP. “Sendo um crime de pequena escala, caracterizado pela oportunidade, podemos presumir que são pessoas que são pessoas que conhecem os horários, marcam certos e alvos e actuam, quando as condições se propiciam”, explica, salientando a melhor forma de enfrentar o problema é assumir uma atitude preventiva. “Não vale a pena criar alarmismo, esta é uma realidade concreta, que tem de ser trabalhada, com a colaboração da autoridades, mas sobretudo através da minimização dos riscos”, afirma. Para além dessa atitude, há quem já tenha optado por reforçar os mecanismos de protecção.

 

Como Susana Mendes, que no mesmo dia em que a casa sofreu o segundo furto mudou a fechadura mudada. Dois dias depois, já tinha a janela gradeada e um cadeado no gradeamento da portada da cozinha e, três dias depois, um alarme instalado. “Espero mesmo que estas medidas sejam suficientes para afastar qualquer tentativa de assalto”, diz, sem deixar de admitir que tal aparato “acabará por afastar os turistas e oferecer um péssima experiência a quem vem visitar o nosso país”. E acrescenta: “Não deixa de ser estranho, agora, cada vez que recebemos alguém em casa, ter de os alertar para o perigo iminente dos assaltos em Lisboa e ver as casas nos bairros históricos ganharem novas nuances com as janelas e varandins gradeados. Coisa que era impensável há uns anos, a câmara não permitia este tipo de alterações à fachada dos prédios antigos”.

 

 

Questionada por O Corvo sobre o crescimento deste tipo de criminalidade, e apesar de ainda não possuir “dados sustentados e consolidados” sobre tal realidade, a PSP admite que “exista, de facto, uma tendência de aumento, pela análise empírica dos dados denunciados”. Considerando que isso reflectirá, de “forma proporcional”, o aumento de turistas e de ofertas no âmbito do Alojamento Local (AL) na capital portuguesa, o Comando Metropolitano de Lisboa da PSP assume que as zonas com maior incidência serão “todos os Bairros da Baixa de Lisboa que são mais turísticos”, com especial incidência em Alfama, Encosta do Castelo, Mouraria e Bica.

 

Por causa desta realidade, a polícia e a ALEP têm vindo a trabalhar para, a breve prazo, levarem por diante uma campanha de sensibilização junto dos proprietários de Alojamento Local. O objectivo passa por alertá-los para a necessidade de melhoria das condições de segurança activa e passiva, mas também para o aconselhamento de comportamentos preventivos por parte dos hóspedes. “Tanto pode ser o aconselhar as pessoas a tomarem atitudes básicas como fechar bem as portas e as janelas, sobretudo se forem no rés-do-chão e no primeiro andar, como os alojamentos passarem a disponibilizar um cofre para que os hóspedes possam guardar os seus pertences”, explica Eduardo Madeira a O Corvo. Medida a que a PSP acrescenta o conselho para a colocação de fechaduras de código electrónico, associadas às fechaduras com chave, “com a preocupação de os códigos serem mudados sempre que recebam novos hóspedes”.

 

Eduardo Madeira reconhece que o surto de furtos nos alojamentos locais nos bairros históricos acaba por ser prejudicial não apenas para o sector, como para as comunidades onde ocorre. Cria-se uma má imagem junto dos turistas. “Quando estas coisas acontecem, muitos não acreditam que tenha sido alguém que entrou furtivamente. Acham que foi uma pessoa que tinha a chave do apartamento, até chegam a culpar a senhora da limpeza”, diz. Reflectindo sobre a necessidade de colocar gradeamento nas janelas, Susana Mendes não esconde o desapontamento : “Só de pensar que vivi tantos anos nesta casa na Bica com as janelas abertas, sem nunca nada se ter passado…o perigo estava na rua, mas não dentro de casa”.

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COMENTÁRIOS

  • Jorge
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    “a câmara não permitia este tipo de alterações à fachada dos prédios antigos”.E agora já permite?

  • Hugo Rosado
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    Aqui está, a campanha contra o turismo começou. Este país realmente… temos o que merecemos.

  • Afirma Pereira
    Responder

    Como aumentam os furtos por carteiristas. Seja nos transportes ou na via pública. À vista de toda a gente. Praticados por quem se sente completamente impune.
    Como aumentam as violações a estrangeiras.
    E os assaltos.
    E as agressões gratuitas.
    Aumento da oferta… aumento do crime.
    Estavam à espera de quê?! Um Estado que não tem capacidade para defender os seus cidadãos ia ter capacidade para defender os turistas?
    E quando falo de incapacidade do Estado não me refiro à actuação da Polícia. Mas sim à ridicularia em que se transformaram os tribunais. Já é em em clima de galhofa que os delinquentes lá entram…
    Entretanto vai-se escondendo a realidade com o estribilho do costume: ” A criminalidade desceu”. A acreditar na propaganda estatal a criminalidade está a descer desde… talvez o reinado de D. João V…

  • Cristina Magalhaes
    Responder

    Se for como alguns dos 3 airbnbs do prédio de 4 apartamentos de onde vivo nos Anjos, muitos deixam a porta do prédio e a porta do apartamento totalmente abertas, e vão para a esplanada do café que fica no fundo da rua, outros organizam festas e jantares a meio da semana muitas vezes com pessoas que conheceram pela cidade (já me chegaram a convidar inúmeras vezes sem me conhecerem de lado nenhum), o que dá sempre em alguém a fazer descabes nas escadas. Moro há 18 anos naquele prédio e só nos últimos 3 anos já me tentaram arrombar a porta seis vezes, como moro no ultimo andar, é o mais apetecido, pois não dá tanto nas vistas, depois de meia dúzia de fechaduras estragadas e maçanetas partidas numa porta blindada acabei também por investir num micro sistema de vigilância que me permite controlar via telemóvel. Tenho vindo a captar imagens de quase sempre os mesmos suspeitos que vasculham as escadas a procura de acessos fáceis, como também já apanhei muitos dos airbnbs a virem fumar “oregãos” com esses mesmos suspeitos para a minha porta. A PSP já tem algumas das imagens e eles próprios já admitiram que sabem o que eles fazem, mas nada podem fazer pois o acto não foi cometido.

    • x
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      Sensor de aproximação, balázio nos cornos… se não for filmado, não é em flagrante delito… motivo: defesa da propriedade privada.

  • Campino
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    TOURISTS GO HOME!

  • Angela Menezes
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    Estive ano passado em Portugal, fiquei 24 dias entre Lisboa, Porto e Lagos no Algarve. Hospedada sempre em hotéis. Sempre me senti segura nas ruas, e não presenciei nenhum furto. Devido aos fatos de segurança que estão ocorrendo, espero que a providência seja tomada, pois ano que vem pretendo voltar.

  • Happy Go Days
    Responder

    Bem feita, não à bela sem senão, não querem moradores permanentes aonde as pessoas se conhecem e zelam umas pelas outras, dá nisto.
    E os crimes não devem partir do bom português que tem de viajar dos subúrbios para trabalhar para pôr o pão na mesa, vem da escumalha vinda do continente indiano, eles têm as zonas antigas divididas e entregues a grupos, outros operam como carteiristas, outros andam atrás das estrangeiras ou a fazer de cicerones, ou como protitutos, outros já tomaram conta do negócio da prostituição, e já devem ter montado alguns dormitórios com beliches para alugar no airbnb, eu sei do que falo, até sei aonde fica o escritório do advogado que lhes trata dos papéis e telefona para as repartições oficiais a informar que os seus clientes têm direitos caso não sejam tratados como eles querem, sim a escumalha que veio para Lisboa do continente indiano. Mas o partido socialista chama-lhe de multiculturalismo.

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