Desgastados pelo passar do tempo e pelo uso intensivo a que têm sido sujeitos, alguns dos mais emblemáticos jardins do Parque das Nações, construídos aquando da Expo 98, serão alvo, nos próximos meses, de grandes obras de reabilitação, garante ao Corvo o presidente da junta de freguesia. Jardins Garcia d’Orta, Jardins das Ondas, Jardins da Água e Jardim da Música estão já a ser, ou serão em breve, sujeitos a intervenções significativas. Uma certeza que surge acompanhada pela incerteza quanto aos custos da operação e, sobretudo, pelas fortes críticas de grupos de moradores ao que consideram ser uma clara incapacidade da autarquia neste campo.

 

Os trabalhos decorrerão faseadamente e de forma autónoma, já que cada um daqueles espaços verdes tem a sua especificidade e necessita de soluções diferenciadas. “São obras complexas, demoradas e muito onerosas. Os fundos não são ilimitados e, por isso, vamos fazendo as coisas por fases e na sua natural sequência”, diz José Moreno, escusando-se, porém, a avançar com um valor global dos custos a suportar pela Junta de Freguesia do Parque das Nações (JFPN). Isto porque, salienta, algumas das intervenções serão realizadas em coordenação com a Câmara Municipal de Lisboa, que “ainda tem responsabilidades sobre 75% dos espaços verdes da freguesia”.

 

O autarca, que dirige a única freguesia da capital tutelada por um executivo independente – embora tenha recentemente estabelecido um acordo de convergência de posições com o PS -, dá o exemplo do Jardim da Água. Neste espaço icónico, situado junto ao Oceanário de Lisboa e conhecido pela cascata de água (agora desactivada) , haverá necessidade de fazer a mais vultuosa e complexa das obras, em colaboração com a câmara, já que é a ela que cabe a gestão do principal problema ali detectado: “o lago tem uma ruptura, que não permite a acumulação de água”.

 

Isto obrigará a que esse equipamento seja integralmente desmantelado, se proceda a uma impermeabilização do sítio onde se encontra implantado e volte a ser montado. “Trata-se de uma obra complicada e exigente, que será realizada em articulação com a Câmara de Lisboa. Estamos a estudar com eles a forma de fazer a obra. Todo esse trabalho nunca durará menos que quatro a cinco meses”, explica José Moreno, tentando assim afastar quaisquer suspeitas de que este ou outros espaços verdes do antigo recinto da exposição universal realizada em 1998 venham a ser desmantelados.

 

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Uma informação que tem sido disseminada e discutida, nos últimos dias, através das redes sociais e de blogues, onde estão também a ser feitas contundentes críticas ao desmantelamento do Jardim da Música e ao estado de conservação dos Jardins Garcia d’Orta. Em endereços como Vigilantes do Parque das Nações e Transparência na Gestão do Parque das Nações, tem sido atacada a forma como a mais recente junta de freguesia da cidade – surgida da agregação de parcelas das freguesias dos Olivais (Lisboa) e Moscavide e Sacavém (Loures) – tem lidado com a gestão dos espaços verdes. Entre as informações avançadas está a do “fim do Jardim da Água”. Algo que, garante a JFPN, não acontecerá.

 

Outro dos alvos das críticas dos grupos de cidadãos tem sido a desactivação do Jardim da Música. Várias peças terão dali sido retiradas, recentemente. A operação é justificada pela junta com “razões de segurança” e com “custos de manutenção”. “A segurança e o bem-estar dos cidadãos obrigou-nos a retirar parte dos equipamentos. O que ali estava constituía um perigo para as pessoas”, explica José Moreno, justificando esta decisão, que garante ter sido “difícil e ponderada”, com o facto de “nos últimos anos, aquele espaço ter sido alvo de actos de vandalismo frequentes”.

 

Numa nota de imprensa também ontem enviada ao Corvo, a junta explica que “a prática demonstrou que qualquer tentativa de reposição dos equipamentos degradados sobrevivia a novos ataques no máximo 48 horas”. “As peças partidas do xilofone ou do piano de chão, roubadas (o gongo) ou arrancadas dão origem a situações de perigo público para os utilizadores do espaço, na sua maioria famílias com crianças”, informa a mesma nota sobre os equipamentos que foram criados para o Pavilhão da Swatch na Expo 98 e, mais tarde, colocados no espaço público.

 

Situação que será inadequada, uma vez que o mesmos “não estão concebidos para instalação em espaços públicos”. O que explicará o estado a que se chegou. O mesmo texto tenta prová-lo com números: “A substituição dos equipamentos custa dezenas de milhares de euros ao erário público”. E avança com exemplos. “Só a substituição do piano de chão está orçamentada em 22 mil euros, sem qualquer garantia de que o equipamento esteja intacto no dia seguinte”, refere-se. “Os gongos, avaliados em 3000 euros cada, têm uma extraordinária mobilidade. Não chegam a durar 24 horas no local”, esclarece.

 

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Por tudo isto, a junta entendeu que o melhor seria desmontar os equipamentos. “Estamos a ponderar de forma séria o futuro do Jardim da Música e, enquanto o fazemos, entendemos que as razões de segurança eram fortes o suficiente para fazer o que fizemos. Há alternativas para aquele espaço e estamos a estudar como resolver o problema”, afirma José Moreno, alegando que as decisões da junta serão sempre tomadas para a melhor defesa dos interesses dos residentes daquela zona da capital.

 

Já em relação aos Jardins Garcia d’Orta, o presidente da JFPN garante estar em contacto com as empresas que conceberam o espaço verde para também ali “tentar encontrar a melhor solução”. “Queremos mantê-los”, diz ao Corvo o edil sobre o espaço que vem apresentando claros sinais de decadência. “A Parque Expo há muito que não fazia ali qualquer intervenção”, afirma. Razão pela qual a junta terá agora de despender ali valores elevados. Só na primeira fase da intervenção, a autarquia estima ter de gastar cerca de 100 mil euros.

 

José Moreno garante ainda que também o Jardim das Ondas, uma criação original da artista Fernanda Fragateiro e a evidenciar igualmente sinais de degradação, “é para manter”. O autarca desmente, por isso, todos os rumores sobre eventuais planos de intenções da JFPN para acabar com qualquer dos jardins por si herdados da Parque Expo. “Encaro essas informações como parte da pré-campanha eleitoral , para talvez atingir algum candidato”, diz.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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