Onde antes ecoava o barulho dos motores dos automóveis, ouve-se agora música de câmara. Quem da rua veja o Espaço Garagem não imagina o que lá dentro possa estar a acontecer. E menos ainda que, na Rua Infante Dom Pedro, 10D, junto à Avenida de Roma, onde se situa, funcione agora como espaço cultural e de entretenimento, onde duas quartas-feiras por mês há concertos de música de câmara, com entrada livre.

 

Foi o que sucedeu esta quarta-feira, dia 4 de Março, com o concerto dado pelo Aether Quarteto, uma formação constituída por alunos finalistas do Conservatório Nacional, que ali interpretaram obras de Haydn, Dvorak e Beethoven, para satisfação de quantos os ouviram.

 

Não foram ainda muitas as pessoas a escutá-los, tendo em conta a qualidade dos músicos participantes. A plateia contava com cerca de duas dezenas de pessoas. O Espaço Garagem tem uma vida curta – inaugurou no dia 22 de Outubro de 2014 – e ainda não está suficientemente divulgado junto do público do bairro, a que se destina em particular, como é objectivo da sua proprietária.

 

Mas este concerto teve um gosto especial, conhecidas que são as dificuldades que atravessam presentemente os estudantes da Escola de Música do Conservatório Nacional, que não dispõem de salas em condições para ter aulas e ensaiar.

 

A ideia de transformar o que antes era uma garagem num espaço que agora possibilita a realização de diversas actividades partiu de Maria do Rosário Olaio, neta do antigo proprietário da Fábrica de Móveis Olaio.

 

“Isto era uma garagem que herdei do meu avô e à qual eu tinha, por essa razão, uma ligação particular. Quis dar-lhe outro uso e a minha ideia inicial, de a transformar num espaço aberto a várias actividades, surgiu quando percebi que os alunos do Conservatório tinham dificuldade em encontrar salas para ensaiar e para se prepararem para os concursos de música nacionais e internacionais, como acontecia com a minha filha, que toca violeta”, contou ao Corvo Rosário Olaio.

 

As obras não foram muitas, incluíram a pintura das paredes e a colocação de um estrado de madeira que se transformou num palco. À estrutura, Rosário acrescentou alguns móveis Olaio que ainda detém e que deram ao espaço um toque vintage. Um piano, que herdara de uma tia e que está ainda em boas condições – tanto que já foi utlizado em concerto por uma pianista profissional -, faz também parte da decoração do Espaço Garagem, onde Rosário criou ainda dois pequenos vestiários e uma casa de banho.

 

“A minha ideia, além de permitir os ensaios dos alunos de música, confesso que era também a de rentabilizar este espaço, com 170 metros quadrados, para a realização de festas, workshops, feiras de artesanato, palestras ou exposições. Mas cedo percebi que a ocupação não iria ser constante. E pensei então em proporcionar aqui não só ensaios, mas também concertos, abertos à população, em particular aos moradores do bairro, até porque não existe aqui nenhum outro espaço com estas características”.

 

Para a inauguração, Rosário convidou dois professores da Escola de Música do Conservatório, Ricardo Mateus (viola) e Luís Gomes (clarinete), e foi a partir de aí que se estabeleceram as colaborações e se criou uma programação que todos os meses possibilita a realização de dois concertos.

 

“São sempre na primeira e na terceira quarta-feira de cada mês, às 19h00, têm a duração de uma hora e são de entrada livre. Depois, quem quiser pode deixar uma contribuição que se destina manter o espaço e a apoiar a vinda dos miúdos”, como se refere Rosário aos alunos de música que ali vão tocar.

 

Os aplausos, ao concerto e à iniciativa, foram muitos na passada quarta-feira. Ricardo Mateus, professor dos alunos que constituem o Aether Quarteto – do qual fazem parte Joana Weffort (primeiro violino), Beatriz Costa (segundo violino), Lucas Gomes (viola) e Mariana Taipa (violoncelo) -, foi uma das pessoas a aplaudir a iniciativa.

 

“Trago cá os meus alunos, o que comprova o meu apoio e penso que estes concertos proporcionam também uma nova vivência no bairro”, disse ao Corvo Ricardo Mateus, um professor que não se conforma com a situação de degradação a que o governo e o Estado deixaram chegar o Conservatório Nacional.

 

2015-03-04 19.06.27

 

 

“Temos um quinto das salas de aula fechadas. Os alunos deste quarteto, por acaso, ontem até conseguiram ter aula, mas o sistema é de rotatividade e quando uns têm, outros não. Estamos a tentar fazer omeletes sem ovos”, disse.

 

Os problemas já vêm de há décadas, acrescenta. “Quando eu era aluno do Conservatório, os problemas que hoje existem já se sentiam. As protecções de barras que foram colocadas há 20 anos nos varandins do salão ainda lá estão, provisoriamente. E as obras que se estão agora a pedir é mais para tapar buracos, não resolvem por completo. O ministro da Educação disse a um canal de televisão que, desde Novembro, aguardava que nós enviássemos um orçamento, mas isso não é verdade. Porque só em Janeiro começámos a enviar cartas para o ministério”.

 

E, mesmo sem salas em condições, como salienta Ricardo Mateus, o Conservatório pratica um ensino de música de muita qualidade. A prová-lo está a relativa facilidade com que seguem carreira no estrangeiro. “Muitos alunos vão para fora, porque conseguem ter bolsas no estrangeiro, o que demostra que o nosso ensino é forte. As nossas vagas são conseguidas por prova artística”, sublinha Ricardo Mateus.

 

Em Lisboa, os alunos do Conservatório e Orquestra da Metropolitana podem também ser escutados na sala de espectáculos informal que é o Espaço Garagem. Dia 18 de Março haverá novo concerto de música clássica, com o trio de piano, violoncelo e flauta da Academia Superior de Orquestra.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

 

  • herman
    Responder

    RT @tuga_news: [O Corvo] Espaço Garagem, onde o barulho dos carros deu lugar à música clássica http://t.co/93k1CVo2Yf

  • mbbl
    Responder

    Espaço Garagem, onde o barulho dos carros deu lugar à música clássica http://t.co/Bn9QnE8mj7

  • Alan Merwin
    Responder

    What a wonderful idea – Rosario – Thank you for the music

  • teresa cardoso
    Responder

    ESTIVE LÁ. FOI MUITO BONITO. Aqueles quatro jovens músicos que são referidos são muito talentosos e generosos no seu trabalho, continuam hoje – 9 de Julho de 2018 – entregues ao seu trabalho com paixão : Castelo Branco, Colónia, Londres. Os professores que dinamizaram a iniciativa da senhora Olaio , bem como outros professores, sabem transmitir e cultivar a sua própria dedicação nos alunos. Pena não haver divulgação suficiente para esta e outras iniciativas, que ficam restritas a um espaço de público injustamente exíguo.

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