“Já comecei a encher uns caixotes. Ainda pago mais uma renda e depois espero que o tribunal me dê ordem de despejo”. São estes os planos de Acácio Pina Coelho, escultor popular e construtor de maquetas, para pôr termo a 50 anos de trabalho no seu atafulhado atelier no bairro da Bica.

 
Acácio, nascido em 1933, paga um renda de 73 euros pelo seu armazém na Rua dos Cordoeiros, mas a senhoria exigiu-lhe, em Fevereiro, três vezes mais. “Mandei-lhe uma carta a dizer que não pagava e a contra-propor uma renda de cem euros, mas ela não aceitou. É que não tenho rendimento para tanto. Em Fevereiro e Março, não vendi dez euros de material. Tenho aqui um Lenine para entregar e mais nada”, diz, mostrando a figura em gesso dourado do antigo dirigente soviético.

Nem sempre foi assim. “Trabalhei com os melhores arquitectos de Lisboa e para a Câmara Municipal fazendo maquetas. Para a CML fiz, por exemplo, maquetas das piscinas do Areeiro e do Campo Grande. Também fiz umas maquetas do santuário de Fátima, fiz até uma grande de dois por três metros. Mas o padre que me fez a encomenda ainda hoje me está a dever dois contos! Era um trabalho de sete contos e só me deu cinco. As maquetas eram necessárias, por exemplo, para acompanhar os projectos de construção entregues na câmara. Mas nos anos 70 [do século XX], as maquetas começaram a ser feitas por computador. Por isso, as encomendas diminuiram e virei-me para as miniaturas, que aprendi há 50 anos. Ainda cheguei a ter aqui cinco ou seis colaboradores”, recorda.

 

Hoje não seria possível. O atelier de Acácio Coelho é uma gruta escura, vagamente iluminada pela claridade azulada da televisão, onde se acumulam milhares de peças de gesso. Bustos, anjos bochechudos, nossas senhoras, sousas martins, flores, animais, tudo e mais alguma coisa –  até lenines… Neste amontoado, conseguiu fazer um carreiro, onde só passa uma pessoa de cada vez, e que vai até aos fundos para aí apontar o negrume de um buraco no tecto por onde passaria uma pessoa. “Está ali há 20 anos. Nunca mo arranjaram”.

 
Natural do distrito da Guarda, o escultor foi durante décadas um amigo da Bica. Recorda que ajudou em equipamento e deslocações a colectividade desportiva Zip-zip, cuja equipa de futebol chegou a levar à sua terra natal.

 

O artista é atacado em duas frentes. Na casa onde mora há muito, na Rua Possidónio da Silva, também lhe exigem subir a renda, mas um despejo será aqui mais complicado em virtude da sua idade. De qualquer modo, o destino está traçado: “Tenho pena. Sempre foram cinquenta anos que passei na Bica. Quando estiver pra ser despejado, é só preparar a camioneta e vou-me embora para Aguiar da Beira. Tenho lá casa e gostava de montar lá uma escola. Eu vou jogando no Totoloto, mas só me saem prémios pequenos….Vamos a ver”.

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São muitos anos, são muitas memórias. Em breve, a Bica vê-las-á partir.

Texto: Francisco Neves    Fotografia: Luísa Ferreira

  • Jorge
    Responder

    É uma boa notícia. Uma capital não vive só de nostalgia. Comerciantes como este viveram durante décadas à custa dos senhorios, mantendo negócios obsoletos que não ajudam a dinamizar a cidade ou a reabilitar o centro histórico. Que venham rendas justas para todos, incluindo finalmente para os senhorios, e que Lisboa pare de cair de podre devido a casos de negócios como este.

  • Fátima Tomé
    Responder

    Conheço este senhor e lamento muito que isto lhe esteja a acontecer – é uma vergonha! Não há direito…..

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