Entre os prédios dos Olivais, um solar do século XVIII continua a ser habitado

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

Paula Ferreira

Fotografia

URBANISMO

Olivais

10 Dezembro, 2015

Pode parecer algo inusitado a quem a observe de fora. Mas quando se está no átrio da Quinta da Fonte do Anjo, nos Olivais Sul, e mesmo nunca se perdendo de vista as torres de habitação que a rodeiam, prevalece uma sensação de apaziguamento quase rural. Algo que, aliás, se repete em toda a casa. “Isto apenas começou a ter um trânsito doido, quando fizeram a Expo 98, mas não é nada que nos incomode por aí além”, comenta João Amorim Ferreira, 56 anos, um dos membros da família proprietária, referindo-se ao trânsito da vizinha Avenida de Berlim, situada a dezenas de metros do magnífico jardim das traseiras deste palacete. Pelo meio, há a Rua Cidade de Nova Lisboa, cheia de carros estacionados e da qual nos separa uma simples vedação metálica.

Apesar da crueza do contraste, a família Amorim Ferreira nunca sentiu necessidade de elevar um muro para essa rua – como sucede com muitos palácios e solares existentes em Lisboa. A mudança da paisagem em redor é um dado assimilado desde há várias gerações. Uma inevitabilidade criada pela expansão da cidade de Lisboa ao longo do século passado. A casa senhorial construída no século XVIII – mas cujas raízes remontam ao século XIV – já teve vários tipos de inquilinos, como seria de supor numa propriedade com esta antiguidade, mas continua a ser habitada pela mesma família há cinco gerações. Entre as suas paredes, vivem 13 pessoas, que se sentem confortáveis com os prédios à volta. “Já não fazem confusão. Estamos habituados”, diz João Amorim Ferreira.

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As raízes dos actuais donos neste local remontam pois ao século XIX, quando o trisavô de João, o Conde da Ribeira Grande, recebeu a propriedade como parte do dote resultante do casamento com uma senhora da família Palmela. O matrimónio foi breve, devido à morte da senhora durante o parto. Mas o direito de propriedade passou para a sua filha, a bisavó de João. A partir desse momento, a sucessão da quinta foi sempre estabelecida entre mulheres, seguindo-se a avó e a mãe de João, que é um dos cinco irmãos herdeiros da casa. A matriarca da família faleceu este ano, aos 86, e passaram a ser quatro dos seus filhos – bem com os respectivas cônjuges e filhos – a continuar a tradição de preencher de vida a casa cuja porta de entrada dá para a Rua Cidade de Nova Lisboa.

Estando ali dentro, de fronte para a capela erguida em 1762 em honra de Nossa Senhora da Conceição, em contraste com as grandes torres de habitação dos Olivais, é impossível não sentir vontade de fazer comentários sobre a irredutibilidade deste lugar quase anacrónico. O uso do lugar-comum da “aldeia gaulesa cercada”, pedido emprestado ao imaginário de Astérix, vem à mente. De uma propriedade que teria cerca de 25 hectares, a Quinta da Fonte do Anjo, foi vendo a sua dimensão reduzida, até se resumir hoje ao solar que a tutelava. O grande corte terá sido dado no início da década de 1940, quando os terrenos à volta foram expropriados, para dar seguimento aos planos de expansão urbana desenhados por Duarte Pacheco, o então ministro das Obras Públicas.

Lisboa precisava de espaço para crescer e as terras agrícolas e campos de pasto pertencentes à quinta foram disso vítimas. Nascia Olivais Sul, surgia a Avenida de Berlim. Algo se preservou, porém. “Perderam-se essas terras, mas a minha bisavó, que era quem que estava na altura, fez finca-pé para que não ficássemos sem os jardins”, recorda João Amorim Ferreira, enquanto conduz O Corvo por entre os espaços verdes conferem uma identidade e um aconchego inabaláveis à quinta de 7 mil metros quadrados, classificada como imóvel de interesse público e onde já se rodaram diversos filmes, como a comédia “A mulher do próximo” (1988), de José Fonseca e Costa.

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O interesse pela quinta – constituída pelo núcleo habitacional, edifícios de apoio, a capela e os jardins – não é difícil de entender, dada a elegância arquitectónica evidenciada, e ainda para mais mantida em bom estado de conservação. Há mesmo quem a considere um dos melhores exemplos das casas senhoriais pombalinas, podendo bem o seu interior ser visto como um bom exemplo de um solar novecentista. Por ser uma casa de família, há partes comuns, mas também uma estrita divisão das áreas residenciais dos quatro irmãos que a partilham.

Como em qualquer casa, a privacidade é ali um valor imaculado. Mas, ocasionalmente, as portas da quinta poderão ser franqueadas a alguns visitantes. As demonstrações de interesse, que serão analisadas caso-a-caso, poderão ser efectuadas através do email  joao.ferreira318@gmail.com. A última vez que a quinta abriu as suas portas à comunidade foi nos momentos após o 25 de Abril de 1974, sobretudo durante o Período Revolucionário em Curso (PREC), quando o poço que abastece a casa supriu as necessidades dos moradores daquela zona, deixados em sequeiro pelas falhas de abastecimento da rede pública.

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