Encerramento iminente de farmácia angustia a população (sobretudo) idosa do bairro lisboeta de Santa Engrácia

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

DR

Fotografia

VIDA NA CIDADE

São Vicente

4 Abril, 2019

A notícia do fecho do estabelecimento foi conhecida no final do ano passado e logo motivou apreensão entre os residentes daquela parte da freguesia de São Vicente. Maioritariamente idosos, habituaram-se a ver a Costa Ferreira, há mais de oito décadas na esquina das ruas Fernão de Magalhães e Washington, como algo mais que uma simples farmácia. Misto de posto de primeiros socorros e centro social, o seu encerramento “representará um grande transtorno, mais até do que se fosse a junta de freguesia”, ouve-se por ali. O alvará do estabelecimento terá sido trespassado, o que levará ao fecho ainda este mês. Depois disso, quem quiser ir a uma farmácia terá de se deslocar a Santa Apolónia, Sapadores ou Vale de Santo António. Mas as ruas inclinadas de Santa Engrácia desincentivarão muitos a lá irem. Retrato de uma comunidade envelhecida e em sentimento de orfandade.

No ambiente normalmente multifacetado de um bairro de uma grande cidade, poucas vezes se encontra tamanha unanimidade sobre um determinado assunto. Mas isso vai acontecendo, por estes dias, na tranquila encosta virada ao Tejo que outrora coincidiu com o território da extinta freguesia de Santa Engrácia. O anunciado encerramento, para breve, da farmácia Costa Ferreira, a funcionar há cerca de oito décadas, na esquina das ruas Fernão de Magalhães e Washington, está a sobressaltar a população daquela parte da freguesia de São Vicente. E a apreensão é tanto maior quanto a idade avançada da grande maioria dos residentes daquela comunidade. “Isto apanhou-nos de surpresa. Estamos a falar de uma população maioritariamente muito idosa, que tem dificuldades em deslocar-se, ainda para mais aqui as ruas são todas inclinadas”, diz Maria Ferreira, 77 anos, a viver há meio-século mesmo em frente ao estabelecimento que deverá fechar portas dentro de poucos dias e do qual sempre foi cliente. Agora, se precisar de algum medicamento, terá de se deslocar às farmácias de Santa Apolónia, Sapadores ou Vale de Santo António.

O notícia do fecho da Costa Ferreira chegou em Dezembro passado e, ante a incredulidade geral, rapidamente levou a uma mobilização dos residentes para tentar inverter tal desfecho. A transferência do alvará pertencente aquele estabelecimento para um outro a abrir Sacavém (Loures), pelos proprietários do negócio, será a razão por detrás do encerramento. Mas as razões comerciais da casa cuja direcção técnica é assegurada por Catarina Isabel Ferreira Filipe pouco dirão à generalidade das pessoas que se habituaram a ver naquela farmácia um porto seguro. Por isso, nos últimos dias do ano passado, foi lançada uma petição tentando reverter tal decisão. O documento, que recolheu 424 assinaturas e deu recentemente entrada na Assembleia Municipal de Lisboa (AML), contesta a decisão, lembrando que a farmácia “serviu a população local (..) sempre com zelo e dedicação, nunca foi um simples posto de venda de medicamentos, mas sim um local de aconselhamento, onde as pessoas eram acolhidas com simpatia e esclarecidas nas suas dúvidas”.

ocorvo04042019santaengracia2

A inclinação das ruas de Santa Engrácia é obstáculo de monta para muitos idosos se deslocarem a outras farmácias

Referindo a grande apreensão trazida pela má-nova, o texto apela à intervenção da Câmara de Lisboa para que ajude a manter o estabelecimento onde sempre esteve, “numa perspectiva de melhor prestação de cuidados de saúde”. Pretende-se assim que o poder político interfira nas decisões de um negócio privado, mesmo que de forma indirecta, “na defesa dos interesses dos seus eleitores” – por, precisamente, se entender que este tipo de estabelecimento tem características muito específicas. “Uma farmácia não é uma frutaria ou drogaria, sem desprimor para estas. Tem um alcance social muito mais amplo e profundo”, lê-se na petição, ecoando assim o sentimento generalizado entre uma parte substancial dos moradores. “É das farmácias mais antigas da zona, que é uma colina íngreme e tem muitas pessoas de idade avançada. Para elas, isto é mais do que uma farmácia, é um serviço social. O encerramento representará um grande transtorno, mais até do que se fosse a junta de freguesia”, diz Graciano Ferreira, 64 anos, dono da mercearia situada na Rua Fernão de Magalhães há quase quatro décadas, e umas das pessoas responsáveis pela recolha de assinaturas.


Uma opinião comungada pelos clientes de Graciano que O Corvo encontrou, ao fazerem as suas compras, a meio da manhã desta terça-feira (2 de Abril). “Não deviam fechar, pois fará muita falta, sobretudo aos mais velhos. Estamos numa área com ruas muito inclinadas”, diz Raul Sousa, 68, enquanto escolhe fruta que vai colocando num pequeno saco de plástico. “A farmácia sempre existiu aqui desde que me lembro e eu vivo aqui desde que nasci”, relata Maria Cunha, 67, encostada ao balcão da mercearia. Maria não encontra razões para o fecho da Costa Ferreira, até porque clientela nunca lhe terá faltado, diz. “Cheguei a ir lá várias vezes e a espera para ser atendida era tal que tive de ir embora”, conta. Ao entrar na mercearia e apercebendo-se do tema da conversa, José Ferreira, 73 anos e a viver naquela zona desde os seus vinte, revela-se peremptório: “Isto é um grande erro. Faz mais falta aqui a farmácia do que muitos restaurantes”, assevera.

 

O dono do café-restaurante Paquito, do outro lado da rua, até poderá não concordar inteiramente com tal juízo, mas é categórico na defesa da manutenção do estabelecimento de que por ali todos parecem sentir falta. “É um incómodo muito grande para a população. Estamos a falar de uma zona com pessoas com muita idade e que são utilizadoras da farmácia como se de um posto de primeiros socorros se tratasse”, refere António Alves, 60 anos e com negócio ali aberto há 18, explicando que muita gente se socorre da farmácia para ir medir os diabetes e a tensão arterial. “Tudo isso se vai perder”, lamenta. A sua cliente Maria Toscano, 79, também lamenta o encerramento. “Se fechar, olhe, terei de passar a ir à farmácia do Vale de Santo António”, resigna-se, enquanto come uma sopa ao balcão. “Como vê, a opinião é unânime. Para mim, não fará grande diferença, que posso andar bem e a minha mulher até é enfermeira, mas para todos estas pessoas idosas será mau”, diz Valter Onofre, 43.

 

 

À porta da Costa Ferreira, o vai-e-vém da clientela é constante. Maria Alves, 60, sai segurando um saco com medicamentos. “Isto é um disparate autêntico. Esta farmácia está sempre cheia. Existe uma grande proximidade com as pessoas. Até há gente que vem de longe”, conta a moradora, destacando em particular a relação de grande confiança e afectuosidade entre os clientes e a “funcionária Cristina, que está aqui há muitos anos”. A farmacêutica querida pela comunidade será, afinal, transferida para o estabelecimento da mesma firma existente em Santo Apolónia, não fincando assim tão longe de onde tem trabalhado. Uma mudança que, ainda assim, dadas as características íngremes da zona, será suficiente para desencorajar alguns a lá ir. “Tenho problemas de desequilíbrio e tonturas. Se não for com o meu marido, não irei”, diz Maria Alves. O mesmo sucederá com Gracinda Guedes, 82, que tem o marido hospitalizado. “Vai fazer-nos muita falta”.

 

A presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, Natalina Moura (PS), em declarações a O Corvo, concorda que será uma transtorno para a comunidade – “vai fazer falta a uma grande parte da população, que é muito idosa” -, mas acaba por relativizar os efeitos da mudança. “A funcionária com quem muita gente tem uma relação simpática vai, afinal, ficar na zona, porque será transferida para a farmácia que a mesma empresa tem em Santa Apolónia. Não é fácil para muita gente, mas acaba por não ser o pior cenário”, considera a autarca, embora admita que a proximidade da Costa Ferreira ao posto de atendimento médico da junta existente ao fundo da Rua Fernão de Magalhães seja um cenário que se deveria manter. Ainda assim, Natalina Moura avalia que muitos dos idosos podem ir até Santo Apolónia de autocarro, “aproveitando os novos passes”. “Irá, certamente, minimizar o transtorno”.

 

A O Corvo, a proprietária do grupo de farmácias do qual a Costa Ferreira faz parte explica que a decisão de encerrar o estabelecimento tem que ver com a legítima opção de um negócio privado, estando totalmente enquadrada na lei. Mas, apesar disso, garantiu estar a tomar medidas para minimizar o impacto da alteração. “A facturação daquele estabelecimento é baixa. Além disso, há uma farmácia próximo, no Vale de Santo António, a menos de 350 metros desta”, cumprindo-se assim o exigido pela lei relativamente à transferência do alvará para outro sítio, explica Salomé Amaral. A responsável diz que a funcionária Cristina, com quem a poupulação tem uma relação especial, será transferida para a farmácia de Santa Apolónia, mantendo-se assim próxima desta área. Além disso, a empresa passará a garantir a entrega de medicamentos ao domicílio para os mais idosos. “Não o fazemos apenas numa perspectiva de negócio. Estamos seníveis à situação das pessoas”, afirma.

 

Nota editorial: Texto editado às 17h20 de 5 de Abril. Acrescenta posição da proprietária da farmácia. 

MAIS REPORTAGEM

COMENTÁRIOS

  • Ernesto Amaral
    Responder

    As leis devem ser respeitadas. Quando não estão bem devem ser revogadas. Neste caso concreto o alvará em questão foi vendido a uma empresa do ramo farmacêutico que o negociou e pagou de boa fé, sabendo que tudo estava a ser feito dentro dos parâmetros legais. A referida empresa alugou um espaço em Sacavém estando a pagar renda há muitos meses e estando a promover as obras de adaptação conforme regulamento do Infarmed. As referidas obras de adaptação têm um valor superior a E200.000,00. A farmácia irá fechar brevemente, mal as obras estejam concluidas e vistoriadas pelas entidades responsáveis sendo a principal o Infarmed. O processo é completamente irreversível sendo que a Câmara Municipal de Lisboa não poderá inverter de modo nenhum a situação.

  • Jorge
    Responder

    Pode não haver nada a apontar do ponto de vista formal, mas o impacto no bairro de Santa Engrácia será grande.
    Se vos disser que a farmácia mais próxima (na Rua Vale de Sto. António) fica a apenas 240 metros da que vai fechar, todos acharão isto um exagero… mas são 240 metros com um declive de 30 metros, que incluem as escadinhas do Bairro América que são um perigo para qualquer idoso. É o equivalente a subirmos e descermos um prédio de 10 andares para se ir à farmácia, o que é obra quando se tem 70 anos ou mais.
    Resta a alternativa da farmácia do Largo de Sapadores, que fica a 550 metros e 29 metros acima, uma subida mais suave.
    Depois dos CTT tirarem o único marco de correio da zona, só faltava esta.
    A Junta de Freguesia talvez possa fazer alguma coisa nos casos mais extremos, porque nada impede que um funcionário da junta faça recados a cidadãos com necessidades especiais.

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografias & Fotografia

Paula Ferreira
Fotografía

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Send this to a friend