Elevadores da passagem superior pedonal do Bairro Santos estão sempre avariados

REPORTAGEM
Samuel Alemão

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MOBILIDADE

Avenidas Novas

23 Maio, 2016

A ligação entre a zona do Rego e o resto da freguesia das Avenidas Novas é uma dor de cabeça. Isto porque raramente se encontram em funcionamento os dois ascensores da passagem sobre a linha férrea. As avarias são uma constante. Os utilizadores bem reclamam, mas a resolução do problema tem sido adiada. A junta de freguesia diz que a manutenção é responsabilidade da Câmara de Lisboa, mas garante já ter feito diversas reparações na estrutura. E encomendou mesmo um estudo para a construção de uma passagem pedonal com rampa.

“Há um elevador que se constipa com a chuva e outro que se constipa com o sol. Quando não é um, é o outro. Isto, claro, quando não são os dois. É uma vergonha a forma como lidam com isto”, indigna-se Maria (como prefere ser identificada), de 85 anos, moradora no Bairro Santos, na zona do Rego, há já oito décadas. A reformada, que exerce ainda as funções de monitora de tai chi junto da população idosa da área, fala com O Corvo exactamente a meio da passagem superior pedonal que liga o bairro à zona da Avenida de Berna. Por baixo, o movimento de comboios na linha de cintura interna de Lisboa é incessante. “O que isto precisava era de uma marretada, a ver se se acabava, de vez, com o problema e arranjavam uma solução”, prescreve.

A revolta de Maria é comum entre quem utiliza aquela ligação pedonal. As razões são óbvias. Mas mais compreensíveis ainda numa área com tanta gente idosa. Construída no início deste século, a passagem tem apresentado um crónico problema de manutenção, com especial incidência nos dois elevadores, que muitas vezes se encontram inoperacionais. Existe sempre pelo menos um que está fora de serviço, por razões técnicas. A Infraestruturas de Portugal (IP) remete para as autarquias qualquer responsabilidade com a gestão e a manutenção do equipamento. A Junta de Freguesia das Avenidas Novas diz que as mesmas cabem à Câmara Municipal de Lisboa (CML) e, dada a persistência do problema, encomendou um estudo para a edificação de uma nova passagem em rampa.

Basta ficar alguns instantes junto à passagem pedonal, e abordar quem passa, para se perceber que o descontentamento não é pequeno. E, sobretudo, não é recente. “Isto nunca está bem, ora pára um, ora pára o outro. Não se percebe”, diz Diamantino Lourenço, 78 anos, residente no Bairro Santos desde 1959. Antigamente, recorda, o atravessamento da linha férrea era feito através de uma tradicional “passagem de nível”, pela qual também circulavam automóveis. Um cenário que chegou ao fim por volta do ano 2000, quando a actual passagem foi construída, por razões de segurança – seguindo assim a evolução verificada em todo o país, de evitar ou reduzir ao mínimo as possibilidades de as linhas de caminho-de-ferro serem cruzadas por veículos, peões ou animais.

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Olhando agora para essa mudança e tendo em conta o histórico da actual passagem pedonal, todavia, são muitos aqueles que a questionam. Até porque, recordam, como Maria, “na altura, chegou a ser discutida a possibilidade de ser feita uma passagem subterrânea”. Do mesmo se lembra Manuela Câncio, 72 anos, que reside no bairro apenas há cinco anos, mas sempre passou por ali. “Isto está sempre avariado, porque também há muito vandalismo”, diz a utente. Algo de que se queixa também o funcionário da junta encarregue de vigiar a passagem e zelar pelo normal funcionamento do elevador que não está avariado. “Um colega foi assaltado aqui, roubaram-lhe o telemóvel e a carteira”, conta, dando conta do crescente sentimento de insegurança associado à degradação do equipamento.


Se as marcas do vandalismo são evidentes na profusão de graffiti a cobrir a infraestrutura, já o referido sentimento de insegurança é apenas confessado por alguns. É o caso de Armando Fonseca, 69 anos, que aponta a colocação de resguardos metálicos junto às portas dos elevadores, no nível superior, como uma das razões para temer passar por ali, especialmente à noite. “Estes nichos são um perigo, porque diminuem a visibilidade. Há indivíduos que aproveitam para encurralar as pessoas e assaltá-las”, relata o residente, para quem o estado a que chegou a passagem é “um escândalo”.

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Sobre os elevadores, Armando Fonseca diz que “nunca funcionaram bem”, situação que já havia sido, por ele, denunciada à presidente da extinta Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima – que passou a integrar a nova Junta de Freguesia das Avenidas Novas, em 2013, na sequência da reforma administrativa da cidade de Lisboa. “Já nessa altura, a presidente da junta de freguesia me dizia que a única forma de resolver isto teria de passar pela colocação de dois elevadores novos”, recorda, confessando já ter pensado apresentar uma queixa sobre este problema ao Provedor de Justiça.

O Corvo questionou a Infraestruturas de Portugal (IP) a propósito deste assunto. A entidade respondeu informando “que se trata de um atravessamento urbano, pelo que a manutenção dos equipamentos compete à autarquia local”. Por isso, o mesmo foi feito em relação à Junta de Freguesia das Avenidas Novas (PSD), a qual colocou um aviso no local, em que diz aos utentes que a conservação e manutenção dos elevadores não é da sua responsabilidade. Na mesma informação, explica-se que a junta se encontra a “diligenciar, junto das entidades responsáveis, para que os trabalhos necessários se efectuem rapidamente e o elevador seja, de novo, colocado à disposição dos seus utilizadores”.

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Em resposta escrita ao Corvo, a junta diz que a responsabilidade pela gestão e manutenção de toda a infraestrutura “compete exclusivamente à Câmara Municipal de Lisboa”. “Por razões de segurança, um dos dois elevadores está actualmente selado pela OTIS, empresa que mantém um contrato com a CML para a manutenção da infraestrutura, tendo esta empresa já informado a Câmara de Lisboa sobre o que é necessário para repor o elevador em funcionamento”, informa a junta, adiantando que, “por sua iniciativa e suportando os respectivos encargos, já procedeu a várias intervenções na ponte aérea pedonal, com a colocação de protecções acrílicas sobre as catenárias, protecções essas que estavam completamente destruídas e punham em perigo a segurança dos utilizadores da passagem pedonal”.

Na mesma resposta, a autarquia diz que “os elevadores nunca estiveram tanto tempo seguido em funcionamento como acontece desde Outubro de 2013 (antes disso, recorde-se, os elevadores chegavam a estar meses seguidos sem funcionar)”. “Tal só tem sido possível graças ao acompanhamento no local feito pela Junta de Freguesia de Avenidas Novas, embora – repita-se – a responsabilidade pela gestão deste espaço público não seja sua”, assinala-se na referida informação escrita.

Por último, a nota explicativa acrescenta que, “para minimizar os transtornos causados aos fregueses e evitar o isolamento de uma parte da população da freguesia, a Junta de Freguesia encomendou recentemente um estudo para a edificação de uma nova passagem pedonal em rampa que permita ultrapassar os constrangimentos provocados pelo deficiente funcionamento dos elevadores”.

O Corvo questionou a Câmara Municipal de Lisboa sobre esta questão, no dia 17 de maio, mas não obteve resposta até ao momento da publicação deste artigo.

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