O que pode levar um homem perfeitamente saudável, tanto de corpo como de cabeça, lançar-se a um projecto tão megalómano como o de “correr todas as linhas de transportes públicos do mundo”? Isso mesmo, de todo o planeta. A começar pelas 78 que compõem a lisboeta rede da Carris. Tudo tem um início. E o melhor será fazê-lo pelo que temos mais à mão, pensou. Bom, as respostas até poderão variar consoante o grau de cinismo de cada um, mas o facto de alguém se propor a fazer tal coisa evidencia em si mesmo um sintoma de bom humor e irrisão ante uma óbvia impossibilidade. Mas nem por isso o número dos que o acompanham tem deixado de aumentar, desde que, com o projecto Corredor do Bus, fez o primeiro percurso, a 12 de Abril.

É daqueles casos em que, mais que o objectivo proposto, se revela de maior importância a atitude. Correr, sempre em frente, sem desmoralizar. Dez percursos já foram realizados, entre carreiras de autocarro, de eléctrico e um que incluiu as linhas dos ascensores da Glória e do Lavra. Ainda faltam 68 linhas e a próxima é já na sexta-feira, dia de Santo António, quando fizer a carreira 758, entre Cais do Sodré e Portas de Benfica – partida logo às 9 horas da manhã, sem tempo para curar ressacas. “É uma forma de levar as pessoas a fazerem desporto, contribuindo para o seu bem-estar e, ao mesmo tempo, promover a utilização dos transportes públicos”, diz João Campos, o homem que, no inicío do ano (a 30 de Janeiro), se lançou em tamanha empreitada, criando o projecto.

Aos 41 anos, o programador informático de discurso impaciente e sorriso a denotar um optimismo mesclado de ironia fala do seu projecto com a mesma convição que o levou, durante anos, a entregar-se à guitarra e ao baixo eléctrico em vários grupos de pop-rock. Não que a ligação emotiva à música se tenha evadido. Nada disso. Acontece que João descobriu há pouco tempo os prazeres da corrida. Tanto numa coisa, como noutra, a entrega é semelhante. Mergulha-se de cabeça e nem se pensa muito sobre o assunto. E quando se olha à volta, é a vida vista por outro prisma. Tal como com um músico no auge de uma trip instrumental, um corredor deixa-se levar, imerso num fluxo contínuo.

O começo da improvável vida de atleta de João foi mesmo como que um baixar de guarda. Uma cedência ao impulso para correr e puxar pelo corpo, num indivíduo cujo quotidiano era, até há pouco tempo, guiado pela saudável rotina de fumo compulsivo, utilização permanente do automóvel e neuroses associadas à condução do mesmo. “Era daqueles que, para ir ali ao lado, pegava no carro. Ia de carro sozinho para o trabalho, a fumar e a roer as unhas”, recorda, como numa admissão de pecados aparentemente remotos. “Nunca fui muito desportista, não estava para aí virado”, diz. Até que algo mudou.

Na verdade, a viragem até nem foi súbita. Aconteceu, aos poucos, mas de forma muito rápida e sequencial. Primeiro, começou a caminhar. Cada vez mais. Até se iniciar na corrida. Cada vez mais e mais longe. E depois deixou de fumar. Uma grande ajuda, tanto que os pulmões se foram libertando do peso de anos de nicotina e de outras substâncias. Mas também, e sobretudo, de um prolongado sedentarismo, que se acentuara e era quase inevitável para quem tem como profissão a programação informática. Era preciso, portanto, aproveitar da melhor forma todo o outro tempo que não estava sentado frente ao computador. Quando deu por ele, já estava a correr a maratona.

Como muita gente, João aproveitou o primeiro dia do ano para tentar começar uma nova etapa, cumprindo uma daquelas resoluções que sempre se fazem nestas alturas – e, bastantes vezes, se abandonam pouco depois. A 1 de Janeiro de 2012, desafiado pela companheira, decidiu fazer uma caminhada, desde a sua casa, na zona de Sapadores, até à Praça do Chile. Nada de muito extenso, é bom que se diga. “Chegámos mortos”, recorda, com um sorriso a denotar, mais que embaraço, um inegável orgulho por ver tal figura ser já parte de um passado que dificilmente lhe seria agora atribuível. Começava desta forma o dinamitar de uma vida repleta das coisas geralmente constantes nas listas de “más práticas”.

João pôs-se à estrada. Com a vontade de melhorar os desempenhos pessoais a servir como guia, começou a levar a coisa a sério. E quando ficou, por algum tempo, desempregado, ganhou um motivo suplementar para se lhe entregar. Aproveitando o embalo, a 1 de Novembro desse ano, deixou de fumar. E, poucas semanas depois, estava a fazer a maratona de Lisboa. Em 4 horas e seis minutos…Não interessa, estava feita. A partir de então, foi sempre a subir. Começou a treinar três vezes por semana e arranjou um treinador. A presença em provas começou a ser regular.

Mas antes desta viragem, João já havia tido uma espécie de epifania. Em 2005, quando vivia e trabalhava em Cascais, foi supreendido pelo desafio de um amigo com excesso de peso para correr no paredão junto à linha de costa. Ele precisava de companhia na tarefa de perder uns quilos. Na altura, apesar de o conceito de fazer alguma coisa que fosse remotamente parecida com exercício físico se lhe apresentasse como algo mais próximo do alienígena, João Campos acabou por aceitar. Umas vezes em corrida, outras vezes acompanhando de bicicleta. Fê-lo, é certo, mas sem se deixar conquistar pelos eventuais benefícios de tais práticas. O cinzeiro do carro ainda se continuaria a encher por uns anos. Até transbordar.

E essas mazelas continuam a fazer-se sentir. Tanto que o novo apóstolo da corrida urbana sente que ainda tem um longo caminho pela frente. “Tenho muitos anos de sedentarismo, tabaco e má alimentação acumulados para, por exemplo, poder pensar em ser um bom corredor de montanha”, considera, já com os olhos no horizonte. O grau de exigência vai aumentando. “A maioria do pessoal vai treinar à beira Tejo, mas isso não vai permitir-lhes melhorar a performance. Para tal, tens de fazer subidas”, prescreve. O argumento necessário, pois, para convencer os mais cépticos a deixarem-se levar pelo projecto Corredor do Bus.

Afinal, Lisboa é mesmo uma cidade de colinas, pelo que seria difícil que os percursos da Carris não se manifestassem frequentemente acidentados. Estava criada uma boa justificação para encetar esta aventura. Além dos motivos associados ao bem-estar pessoal – “desde que comecei a correr metodicamente, passei a estar muito tempo sozinho, e a desenvolver uma espécie de componente espiritual, pois não gosto de falar durante a corrida” -, outros surgiram, ligados à cidadania. Além da promoção das linhas de transportes públicos, João Campos faz também o levantamento fotográfico “das partes da cidade que estão esquecidas e marginalizdas”. A pé, a proximidade às coisas e às pessoas é bem maior. Mesmo sem abrir a boca.

 

Texto: Samuel Alemão

Comentários
  • sandra
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    Boa João…… e assim a Vida gosta de Modelos…… e os modelos são os que no inicio pareciam os menos prováveis…… Assim és um Ser com Mundo….. :)” pq aqueles que são loucos o suficiente para achar que podem mudar o Mundo, são os que o fazem.” bjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj

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