Opinião

 

Texto: Pedro Nunes *

 

Não há escape. A tendência é para, no espaço de alguns anos, a iluminação pública nas ruas das cidades passar inteiramente da tradicional, confortável e quente, para uma mais moderna, áspera e fria, mas mais eficiente. Falamos, claro, de LEDs: por todo o lado, esta tecnologia desperta paixões exacerbadas e é a grande coqueluche dos pelouros de energia. Lisboa não é excepção: a Câmara pretende instalar LEDs em todos os 60 mil candeeiros da capital, haja apoios comunitários que o financiem.

 

Mas isso não é bom? Vamos por partes. A boa: os LEDs usam cerca de 60% menos energia que as lâmpadas tradicionais de vapor de sódio e duram mais tempo, alegadamente bastante mais tempo. Por outro lado, iluminam instantaneamente após serem ligados e podem ser controlados por sensores, iluminando só quando há trânsito ou pedestres, por exemplo. Reduzem, portanto, as contas de electricidade e de manutenção de equipamentos das autarquias.

 

A parte neutra: diz-se que a iluminação LED reduz a criminalidade, mas não é factual, pois parece que é só uma questão de percepção, já que os estudos não encontraram essa correlação.

 

A parte menos boa dos LEDs: a sua instalação é cara, porque a tecnologia ainda é cara e obriga, por vezes, a substituir o candeeiro todo. Isto implica que o período de retorno do investimento seja frequentemente de cinco ou mais anos, até porque as lâmpadas de vapor de sódio são, já de si, bastante económicas. Nos casos em que os postes têm de ser mudados, o retorno pode dar-se só em 10-20 anos. Por outro lado, as lâmpadas LED, frequentemente, duram menos tempo do que o apregoado, por falha não dos LEDs, mas da electrónica que os suporta.

 

Em resumo, os LEDs proporcionam grandes poupanças de energia, mas constituem um investimento que demora a ser rentabilizado, embora eventualmente justificado. Até aqui, nada que não seja sobejamente discutido.

 

O que é menos falado são as razões que levam, em alguns locais, a haver movimentos de cidadãos que se opõem à iluminação LED, pelo menos como ela é instalada. No Reino Unido, em Llandough, foi lançada uma petição para a autarquia remover os LEDs e reinstalar a iluminação original; em Bath, a autarquia, após as primeiras instalações de LEDs, lançou uma consulta pública à população no seguimento das reclamações recebidas; em Manchester, um grupo de cidadãos ameaçou processar a autarquia se esta prosseguisse os seus planos de instalação de LEDs. Nos Estados Unidos da América, houve movimentos semelhantes em várias partes, como em Brooklyn, Nova Iorque e em Seattle.

 

A razão disto tem a ver com factores interligados entre si, fisiológicos e de conforto visual. Os fisiológicos: a luz natural, a do Sol, é composta por uma combinação de todas as cores, do vermelho ao azul. No caso dos LEDs, tipicamente apresentam uma forte componente azul, o que dá o tom branco-azulado e deslavado à luz. Trata-se de luz muito energética, disruptiva do sono porque suprime a produção da hormona que o regula, a melatonina, que é segregada no organismo humano à noite. Uma exposição nocturna elevada a luz deste tipo leva a perturbações no sono, tal como os estudos mostram. Perturbações semelhantes afectam os animais, nomeadamente aves nocturnas.

 

A iluminação tradicional, por seu lado, é predominantemente composta da cor amarela, pouco energética e não perturbadora do ritmo circadiano. É por este motivo que, normalmente, nos espaços de trabalho se usa luz branca, que tem uma forte componente azul estimulante, e nos espaços de conforto se usa luz amarela, que não tem esse efeito. E, por isso, a luz amarela é mais repousante e, portanto, mais confortável. E acabamos assim no factor conforto visual.

 

Mas se os LEDs, no início da implantação da tecnologia, apenas proporcionavam uma luz branca-azulada, hoje em dia há-os em tonalidades mais aprazíveis. O amadurecimento da tecnologia proporcionou-o, embora os mais baratos continuem a apresentar esse tipo de luz branco-azulada.

 

Além de custarem menos, estes LEDs são um pouco mais eficientes, em 10-15%, que os seus pares de tom amarelo. Estes dois factores constituem motivo para as autarquias, por norma, os escolherem em detrimento dos mais amarelos, que, não obstante, são igualmente bastante frugais energeticamente. Numa nota mais técnica, mandam as boas práticas que a iluminação pública LED não exceda 3000K de cor, e a que vemos é, muitas vezes, de 4000K ou superior.

 

Em suma, na pressa de abraçar novas tecnologias “amigas” do ambiente, existem nuances para as quais os técnicos não estão preparados, porque envolvem aspectos relativos à fisiologia humana e ao conforto visual. Em avenidas com mais carros, onde mais luz e mais branca pode trazer vantagens para a visibilidade na circulação automóvel, os LEDs intensos e brancos podem fazer sentido; já em pacatos bairros residenciais, onde se deseja uma luz mais cómoda e compatível com o ritmo circadiano humano e dos animais, não fazem. Além disso, uma luz branca deslavada prejudica a estética urbana nocturna, em particular das zonas mais antigas. Está na hora de as autarquias ouvirem a opinião dos munícipes sobre o assunto e de estes começarem a pensar nele e fazerem ouvir a sua voz.

 

Investigador em energia e sustentabilidade da Universidade de Lisboa.

 

  • Tuga News
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    [O Corvo] E fez-se luz: queremos mesmo estes LEDs em todas as ruas da cidade de Lisboa? https://t.co/KvvqKkb3qs #lisboa

  • Rui
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    A luz LED branca é um horror!

    Certas ruas de Lisboa estão transformadas em autênticas câmaras frigoríficas! Instalem isso fora do centro histórico, sffv!

  • Vítor Carvalho
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    Vá lá ser-se prior nesta freguesia: se é, é porque é; se não é… é porque não é!…

  • Manuel Nery Nina
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    O investigador esquece-se de referir um dos pontos mais vantajosos da iluminação LED: a redução brutal de iluminação secundária (“glare”, poluição) que é enviada não para o solo (iluminação útil), mas sim para o céu, o que causa a “aura” de luz característica das cidades, e que impede a observação do céu noturno, além de interferir no ritmo circadiano dos seres humanos e dos animais.

    Ao voar sobre cidades como Londres ou Helsínquia, que já converteram bairros inteiros aos LED, pode-se facilmente comprovar o menor “glare”. Isto permite, por exemplo, que a iluminação publica não ilumine directamente os prédios, e as casas particulares.

    Também os LED, quando acoplados a um sistema inteligente de gestão de iluminação publica, não ficam limitados a “sensores de presença”, mas podem ser regulados para reduzirem ou aumentarem gradualmente a sua iluminação (“dimming”), e podem ser ligados a sofisticados sistemas de proteção civil (iluminação mais forte numa rua onde ocorra um sinistro, iluminação de caminhos para centros de emergência, etc.)

  • Paulo Ferreira
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    Um bom artigo a deixar um importante alerta para futuras instalações.

  • Ana Parra
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    E fez-se luz: queremos mesmo estes LEDs em todas as ruas da cidade de Lisboa? | O Corvo | sítio… https://t.co/J0LE5jHaKK

  • jose daniel ferreira
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    São horríveis. Lisboa sem a luz amarelada não é a mesma. Perde romantismo, mistério. Já há LEDs amarelos. . Praça da Flores está horrível agora. Parece que entrámos numa pastelaria de bairro. Azulejos e luz branca…

  • Raquel Fernandes
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    verdade,aluz branca é horrivel e fria , infelizmente Muito comum em portugal também em restaurantes e pastelarias e nem são led!

  • Pedro Rainha
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    Os LED´s brancos ou de cor fria são muitos desagradaveis para o olho humano e retira todo o “glamour” que a nossa cidade tem à noite.
    Existem inumeras opções de LED´s com uma cor mais quente, mais agradavel e não são mais caros por esse motivo.
    Também sou da opinião que se deve trocar os já existentes e começar a instalar os de cor mais agradavel ou seja cor quente.
    Posso fazer proposta se pretenderem 🙂

    • Jozhe
      Responder

      Acho boa ideia fazer a proposta. Também acho boa ideia não lhe chamar cor quente, mas 3000Kelvins. Há um problema as lâmpadas de 3000K não têm o fluxo luminoso de lâmpadas com temperaturas de cor superiores.

  • César Avó
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    E fez-se luz: queremos estes LED em todas as ruas da cidade de Lisboa? https://t.co/dDGImhef9m

  • Antonio Duarte Afonso
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    Mas atensao ha aí no mercado muitas lâmpadas de Led a fazer estragos nas redes de telecomunicações pois fazem interferem nas tevês e radio amadores , ainda ontem fui trocar algumas pois metiam interferência na rede NOS

  • Nuno Cândido Vieira
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    Não obstante a anunciada durabilidade da iluminação LED suscitar por vezes duvidas (já levei a cabo vários testes onde a componente electrónica que os suporta, e não o LED em si, falha muito antes do anunciado pelo fabricante), o seu consumo, na esmagadora maioria das situações, não suscita quaisquer duvidas. Relativamente à cor, esta reportagem levanta uma falsa questão: A temperatura de cor, pode ser facilmente modelada com a adição de fósforo, permitindo que sejam atingidas as tonalidades mais quentes (entre os 2700 e os 3000k.). Perde-se alguma eficiência energética, correcto, mas no caso de iluminação com consumos manifestamente baixos, não é algo muito relevante. Relativamente à actual iluminação das ruas lisboetas, a expressão “quente e amarelada”, referida por alguns intervenientes assim como no texto da reportagem, nunca me ocorreu. O cenário que podemos observar em Lisboa à muitos anos, não é acolhedor, mas sim doentio, cortesia da tonalidade alaranjada com um péssimo índice de restituição de cores (CR). Cabe à câmara municipal ter técnicos responsáveis que se certifiquem que o equipamento que é adquirido recorrendo ao erário público, é de qualidade, possuindo as características técnicas necessárias: Boa dissipação de calor (fundamental para a durabilidade dos LED’s), adaptação aos candeeiros preexistentes (com particular relevância em locais históricos), possibilidade de substituição apenas da lâmpada ou do integrado, não do candeeiro todo e, temperatura de cor quente e acolhedora. As falhas que podemos observar nestes sistemas (e de outros a que o público aparentemente já se habituou…) devem-se à aquisição de equipamento desadequado, à sua deficiente colocação, desconhecimento técnico, displicência ou, simplesmente, corrupção na celebração dos contratos com os fornecedores.

  • Kris Haamer
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    E fez-se luz: queremos LEDs em todas as ruas da cidade de Lisboa? https://t.co/eBC4i7a7Cs @ocorvo_noticias https://t.co/2QW3MqfrWJ

  • Atlas Lisboa
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