Crónica – Lisboa Ida e Volta

Desde o Algarve, recém-conquistado aos mouros, até Lisboa, dois corvos acompanharam uma barca carregando o corpo de um santo. Já depois de S. Vicente ter sido colocado, seguro, na Sé Catedral de Lisboa, os corvos continuaram a guardá-lo. Naquele tempo, se as derrotas eram inteiramente humanas, as vitórias quase sempre eram divinas, e, por isso, D. Afonso Henriques tinha mandado construir a catedral sobre uma mesquita.

Dos primeiros corvos descenderam outros corvos e desses, outros corvos, numa linhagem única com uma memória natural do tempo dos heróis e um espírito de missão. Sempre que desço a rua lateral da Sé – com as  laranjeiras baixas ordenadas na calçada, é um dos lugares mais perfeitos de Lisboa – espero encontrar um corvo.

Um corvo não é um pássaro bonito. Os olhos negros e o bico grande dão-lhe um ar ora perplexo ora malicioso. São demasiado pequenos para inspirarem o respeito que impõe uma ave de rapina e demasiado grandes para terem a graça de um melro ou até de um pardal. Ligeiramente gordos, um pouco desajeitados, não têm um voo rápido ou acrobático como o de uma gaivota. Não cantam. Têm uma linguagem, segundo os cientistas, bastante complexa, mas não se aproximam da fala dos homens, como fazem os papagaios (a não ser no poema de Edgar Allan Poe). Durante os anos em que vivi em Londres nem uma vez visitei a Torre de Londres, onde também os corvos se confundem com o destino da cidade, mas não me cansava de observar os bandos de corvos que sempre se encontravam nas idas ao parque e que as crianças gostavam de alimentar. Havia-os em qualquer parque, do fino Oeste ao multicultural Este, caminhando lentamente em cortejos desorganizados. Via-os aproximarem-se bicando a relva por comida e parecia-me que, de certa maneira, a banalidade daqueles corvos era desejável.Os corvos de Lisboa, apesar de invisíveis, ou sobretudo por serem invisíveis, são extraordinários. Podem ser protectores, podem ser oráculos, podem ser mensageiros. Podem dar sorte ou azar. Podem mesmo trazer com eles a morte. Navegam o céu mas não demasiado longe do mar, do rio, do porto seguro. Como Ulisses, são fundadores de sonhos. São tão obsessivos quanto Dom Sebastião. Como Ulisses e Dom Sebastião, continuam a figurar no nosso pensamento mágico, que tanto precisamos agora, que cada vez somos menos divinos e quer as vitórias quer as derrotas são só, tão só, nossas. Mas, ao contrário de Ulisses e de Dom Sebastião, se é verdade que os corvos partiram, eles podem realmente regressar a qualquer momento. Talvez eles nos façam pousar os pés na calçada.

 Susana Moreira Marques
Susana Moreira Marques
Ilustração: Sofia Bártolo

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