Crónica – Lisboa Ida e Volta

1.

Do outro lado do rio, a Lisnave e o Cristo-Rei. Do outro lado do rio, as curvas de uma estrada e as curvas de uma montanha. As janelas do outro lado do rio estão ofuscadas pelo sol, os prédios impenetráveis. A distância é visível, mas raramente percorrida por quem está fechado no seu centro.

 

2.

O cacilheiro lembra-me o barco que apanhei em Istambul para ir da Europa à Ásia. (E lembro-me que em Istambul, nessa travessia, me lembrei do cacilheiro.) Perdi o meu caderno de notas dessa viagem, mas julgo que terei escrito qualquer coisa assim:

– não parece tanto uma viagem como uma morte e logo um ressuscitar

– o hüzün, a melancolia de que fala o escritor Orhan Pamuk, tão inseparável desta cidade como a saudade de Lisboa, deixa de se sentir; não há nas ruas da Ásia vagar para o hüzün.

– deste lado, as pessoas não têm tempo para olhar; só quem não mora neste território, quem não repete uma  viagem intercontinental diariamente, só quem está de passagem, ou mesmo em fuga, pára por momentos, e ainda vira a cabeça para trás, para o azul.

 

3.

O cacilheiro chega. No cais do Ginjal há gansos de aspecto suicidário a caminhar muito perto do rio. As galinhas andam em círculos nos pátios. Os pátios vêem-se pelas portas esquecidas entreabertas e estão sujos. A natureza instalou-se com excesso de oxigénio onde os homens deixaram de respirar. Há “perigo de derrocada”. Na ponta do cais, no restaurante Ponto Final, os namorados estão sentados perigosamente perto do Tejo, beijam-se e entrelaçam as mãos como se de repente tudo se afogasse: até aquela imagem de histórias, notícias, ideais, ambições, lutas, vaidades empilhando-se, que é a cidade de Lisboa levantando-se das águas. Naquela paisagem, num dia de sol, vê-se claramente toda a incerteza de pertencer a um só continente. Mas os namorados partem seguros e felizes, abraçados, os passos acertados, cabendo estreitos e perfeitos na sua própria margem do rio.

 

 Texto: Susana Moreira Marques      Ilustração: Sofia Bártolo

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