A notícia caiu bem na loja estreita do Rossio. A Direção-Geral do Património Cultural iniciou o processo de classificação da Tabacaria Mónaco, a conhecida casa de charutos e revistas estrangeiras do nº 21 da Praça D. Pedro IV, segundo foi publicado em “Diário da República” de Dezembro.

 

A casa abriu em 1875, mas a decoração actual – os balcões e armários de madeira, o fresco do tecto, os painéis de azulejos e as andorinhas pousadas em fios eléctricos, ambos de Rafael Bordallo Pinheiro – data de 1893, contou ao Corvo o gerente e principal sócio (de três), Carlos Oliveira. O reconhecimento da excelência da Mónaco era, de resto, um desejo antigo do dono que, por testamento, lhe passou a casa e afixou à entrada uma placa, hoje ilegível, dizendo “Loja com tradição”.

 

“Temos clientes com mais de 30 anos”, diz Carlos Oliveira, naquele balcão há mais de 40. E gente conhecida? O comerciante saca de um caderno onde apontou os principais: António Lopes Ribeiro, Beatriz Costa, Varela Silva, Jorge Sampaio, Freitas do Amaral, Mário Soares. Deste último recorda-se bem. “Fui uma vez ao carro levar-lhe os jornais e ele saiu para me cumprimentar”.

 

“Antes de terem aparecido as empresas de distribuição, já nós importávamos e vendíamos revistas de Inglaterra e dos Estados Unidos”, refere. Às publicações estrangeiras juntou-se outro pilar do negócio, também ainda hoje patente: a venda de charutos das melhores marcas. É uma tradição que vingou.

 

Monaco 3

 

 

A meio do longo balcão desta loja, que lembra um túnel, ergue-se a figura metálica de uma velha segurando uma candeia com um gato à sua frente. Movendo a cauda do felino, cortava-se a ponta dos charutos que a candeia acendia. As cigarrilhas e os charutos foram uma das marcas da casa, ao ponto de ser “conhecida como a Capela de São João Baptista dos Charutos”, diz o gerente.

 

Por detrás da estatueta, uma pia em pedra evoca um negócio de outros tempos: a venda de água de Caneças e de Sintra, assunto também mencionado nos humorísticos painéis de azulejos que cobrem a parte inferior da parede esquerda deste corredor. Sapos e garças, em poses mais ou menos humanas, participam em fábulas ignoradas em que aparece o rapé e a água da região saloia.

 

Ainda nesta zona central da Mónaco esconde-se outra curiosidade. Onde se vê um grande armário de charutos, “existia uma das primeiras cabines telefónicas públicas de Lisboa”, conta Carlos Oliveira. Daí os “fios telegráficos” carregados de andorinhas que Bordallo montou ao longo de toda a loja.

 

O tecto em abóbada foi pintado por António Ramalho, tal como Bordallo Pinheiro, membro da tertúlia Grupo do Leão, assim chamado por se reunir na Cervejaria Leão de Ouro, na vizinha Rua 1º de Dezembro.

 

Cachimbos e respectiva parafernália, canivetes suiços, baralhos de cartas, postais e selos também se encontram na Mónaco. Numa nesga de armário arruma-se até uma concessão à moda banal de umas pastas de atum sob rótulos “à antiga”. “Aqui ao balcão já fomos quatro…”, recorda o gerente.

 

Texto: Francisco Neves

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  • Rui Barradas Pereira
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