O livro “Pecados à flor da pele” é um percurso pela biografia do antigo Hospital do Desterro, uma unidade de saúde que, fruto das doenças venéreas que ali se tratavam, sempre foi olhada como um local especial. O edifício, que se encontra em quase ruína, deverá ser reconvertido num pólo criativo, a abrir em 2016.

 

Texto: Rui Lagartinho           Fotografias: Rosa Reis

 

“Tenho imensas saudades desta enfermaria”. A confissão é feita por uma médica a uma colega, que replica à sua interlocutora, acenando em concordância. A enfermaria de que falam pertencia à unidade de urologia do Hospital de Desterro, que funcionou até 2007, quando este hospital situado na Colina de Santana, e junto à Avenida Almirante Reis, fechou portas.

 

É um final de tarde nostálgico para todos aqueles que voltaram, por momentos, a um hospital quase-ruína. Vieram assistir ao lançamento do livro “Pecados à flor da pele”, que, coordenado por Célia Pilão, evoca um dos hospitais mais emblemáticos dos últimos 120 anos, por estar desde sempre associado à venereologia – desde que foi ali criada, em 1897, por iniciativa de Thomaz de Mello Breyner, a primeira consulta desta especialidade, designada então por “Moléstias Syphiliticas e Venéreas.”

 

O avô da poeta Sophia era o médico pessoal do Rei Dom Carlos, um privilégio que lhe valeu o consentimento para adquirir, à altura, um sofisticado microscópio para o hospital. O mesmo médico que, tratando uma prostituta espanhola que aqui convalescia, se lembra de trazer de Espanha morangos de Aranjuez, algo com que a doente sonhava, saudosa da sua terra.

 

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Vários textos evocam esta Lisboa das mulheres “matriculadas” e da boémia dos bairros como a Mouraria ou o glamour do Chiado, onde se vestiam as cocotes – mulheres elegantes e cosmopolitas – que enchiam os cabarets do eixo Avenida da Liberdade – Parque Mayer e os salões onde recebiam clientes.

 

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O livro evoca ainda os principais médicos que por aqui passaram, com destaque para Luís de Sá Penella, que criou o Museu de Dermatologia Portuguesa, constituído por dezenas de moldes em cera e que reproduzem várias doenças venéreas – que hoje está guardado no Hospital dos Capuchos. Evoca-se ainda João Carlos Fernandes Rodrigues, que salvou este espólio, quando o hospital se preparava para encerrar.

 

“Pelas histórias que encerra e por ser um espaço cuja história reflecte a evolução social da vida na cidade, o Desterro é o hospital mais singular da Colina de Santana”, garante ao Corvo Célia Pilão, que se empenha, há muito, na defesa do património edificado e nas memórias dos espaços médicos desta área da cidade.

 

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Graficamente, o livro alinha as ilustrações de Sandra Tacão, que insufla um imaginário visual a todas estas histórias, e as fotografias de Rosa Reis, que, após o encerramento do hospital, entrou várias vezes no edifício deixado ao abandono e à ruína. Um cenário que se mantém até hoje. Detido pelo Estado, através da empresa ESTAMO, o hospital alberga actualmente um parque de estacionamento.

 

Para o primeiro trimestre de 2016, está prevista a reabertura do espaço pela Mainside, empresa responsável pela LX-Factory, que aqui protocolou com a Câmara Municipal de Lisboa e com o Estado a abertura de um espaço multidisciplinar de intervenção criativa e urbanística.

 

Mas a última visita de O Corvo ao espaço, a propósito deste livro, parece indicar, pelo estado do estaleiro, que as previsões de abertura do espaço serão demasiado optimistas.

 

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