Tal como há três semanas, a Rua de São José e a Baixa voltaram a ser engolidas pela enxurrada, que causou estragos consideráveis em vários estabelecimentos e no espaço público. Na Rua de São José, transformada num rio, bombeiros, funcionários da junta, da câmara, comerciantes e cidadãos tentavam limpar pavimento, lojas e garagens. Ao lado, na Rua das Pretas, onde um automobilista foi resgatado, havia crateras na calçada.

 

 

Texto e fotografias: Samuel Alemão

 

 

“Sempre que houver chuvas destas e estiver maré cheia, isto vai acontecer”. A frase, em jeito de sentença, era pronunciada por uma mulher de meia-idade e envergando uma bata, para Vasco Morgado, o presidente da Junta de Freguesia de Santo António. O final da tarde desta segunda-feira, 13 de Outubro, foi idêntico ao da segunda-feira de há três semanas, quando o coração de Lisboa foi varrido por uma enxurrada. Desta vez, garante ao Corvo Vasco Morgado, “os estragos são maiores ao nível do espaço público”. De colete laranja fosforescente, o autarca dividia-se entre a coordenação dos trabalhos dos funcionários da sua junta com os bombeiros, a troca de impressões com os munícipes e a conversa com os jornalistas.

 

Em redor de uma tampa de esgoto do final da Rua de São José, o edil tentava fazer contas aos prejuízos de mais um dia de caos na capital causado pela intensa precipitação. Pedras da calçada levantadas, buracos grandes no empedrado, caves, garagens e estabelecimentos comerciais inundados, com mangueiras a bombear água para a rua, e gente munida de baldes, esfregonas e pás davam o tom de anormalidade a um quadro com o seu quê de previsível. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPAM) havia lançado alertas de forte pluviosidade, que se veio a confirmar. E de forma aparatosa, pois houve um automobilista que teve de ser resgatado pelos bombeiros, na Rua das Pretas, mesmo ao lado do local onde o Corvo encontrou Morgado e a sua equipa.

 

“Nasci aqui e lembro-me disto inundar, quando era miúdo. É sempre assim, de cada vez que estas chuvadas coincidem com as marés altas”, explicava o autarca a uma jornalista da RTP, que se preparava para fazer um directo naquele local, dentro de alguns instantes. À volta, era grande a agitação, na rua meio enlameada, meio repositório de paralelepípedos cuspidos ao acaso, cheia de destroços vários e pequenos riachos saídos das mangueiras que bombeiros e particulares faziam chegar ao pavimento, vindas do interior de lojas, armazéns e garagens. Gente de calças arregaçadas, outros de galochas, tudo num corrupio.

 

As bombas de água puxavam para o exterior os caudais acumulados em pisos subterrâneos, enquanto o som metálico das pás dos cantoneiros a raspar o chão faziam uma estridente e inusitada banda sonora. “O problema maior são estes prédios com garagens sem bombas hidráulicas”, diz Vasco Morgado, enquanto os sapadores bombeiros tentam conduzir para fora da garagem uma improvisada caravana automóvel de funcionários de uma empresa. Ao lado, uma grossa mangueira jorrava sem parar.

 

Num antiquário situado mais acima naquela rua, Maria Dulce, 60 anos, metade dos quais a trabalhar no estabelecimento, recorda a força das águas, que não rebentou a montra “porque o vidro é muito resistente”. Mas tanto ela como o marido confessam não perceber a razão de tantos estragos, até porque a chuva, garantem, “foi menos do que há quinze dias”. “Isto ganhou uma força incrível. Desde que aqui estamos, esta é das piores enxurradas que por aqui passaram”. Na garagem em frente, um homem de calças arregaçadas, e que ainda procurava perceber a dimensão dos danos causados ao seu automóvel, dizia que também ele não entendia a razão de tal dano, “com chuvas mais fracas que da outra vez”.

 

Para Vasco Morgado, o problema das cheias na Rua de São José está há muito diagnosticado e pouco se pode fazer de imediato para evitá-lo. Só uma intervenção maior. “O primeiro relatório de obras para esta rua é de 1942 e elas foram feitas em 2010. Reparam-se as fugas nos esgotos e aumentou-se o número de sumidouros. O que pode ser feito, talvez, para minimizar este problema, será a construção de bacias de retenção de águas pluviais na Alta de Lisboa”, afirma o autarca.

 

A lama era também abundante na Rua das Portas de Santo Antão, tal como há quinze dias, varrida por uma onda de água barrenta. Os funcionários do município faziam esforços para limpar à mangueirada esta rua e as traseiras do Teatro Nacional Dona Maria II. No Largo do Rossio, a sapataria instalada onde antes funcionou a loja da Valentim de Carvalho estava fechada, pois a cave ficou inundada. À porta, um carro dos Bombeiros Voluntários da Ajuda bombeava água para o pavimento, enquanto caixas de sapatos empastadas se amontoavam no passeio.

 

* Texto rectificado às 00h15 de 14 de Outubro: corrige data das anteriores cheias de há duas para três semanas.

 

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