O nível das águas do Tejo está a diminuir, deixando apreensivos os arqueólogos. Temem pela preservação de vestígios tão importantes como aqueles que formam o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros (NARC), transformado, há vinte anos, num museu subterrâneo visitável na sede do Millennium BCP.

 

Texto: Isabel Braga

 

 

O abaixamento do nível freático na baixa pombalina, ou seja, a profundidade a que se encontra, naquela zona da cidade, o lençol de água subterrâneo, foi a principal preocupação manifestada pelos arqueólogos presentes numa conferência realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, na semana passada.

 

Os arqueólogos Jacinta Bogalhão e Clementino Amaro falavam uma conferência que tinha como tema os problemas que se colocam à preservação do conjunto de estruturas de várias civilizações postas a descoberto na cave de um prédio pombalino da Rua Augusta – o que aconteceu quando das obras ali realizadas para instalação da sede do Banco Millenium BCP. Essa descoberta deu origem ao Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros (NARC), musealizado há vinte anos.

 

Enquanto técnicos do antigo Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAAR), os dois arqueólogos participaram na escavação e estudo do NARC, do qual fazem parte vestígios que remontam à Idade do Ferro. Mas é ao período romano que pertencem as estruturas mais importantes, entre elas os restos de uma fábrica de conserva de peixe que funcionou entre o século I e o século V, uma instalação termal, um chão de mosaicos e o que resta de uma necrópole.

 

Clementino Amaro referiu-se à estacaria pombalina, de pinho verde, apoiada nas estruturas romanas, visíveis no NARC, cuja preservação depende do grau de humidade a que estão sujeitas. “As obras na vizinhança [do NARC] secaram a estacaria, que precisa de um certo nível de água”, afirmou o arqueólogo. “Sempre que abre ao público o Criptopórtico , é preciso bombear a água constantemente, e essa intervenção reflecte-se no nível freático”, explicou.

 

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De cada vez que as galerias romanas abrem ao público, tem que ser bombeada a água.

 

Jacinta Bogalhão lembrou, por sua vez, que “as obras do metro no Terreiro do Paço” levaram a um “abaixamento preocupante” desse nível. Se esse abaixamento ocorrer “de forma consistente, será mesmo muito preocupante”, sublinhou.

 

Na opinião desta arqueóloga, seria fundamental para a preservação do NARC – e dos outros vestígios arqueológicos ainda por descobrir no subsolo da baixa de Lisboa – que “existisse em funcionamento um sistema de acompanhamento do nível freático”. “Aparentemente, parece verificar-se algum abaixamento do nível da água no Tejo, sem que se saiba bem porquê”, acrescentou.

 

Celestino Amaro referiu que a impermeabilização dos solos é responsável pelo abaixamento do nível freático. “As linhas de água cada vez têm menos água. As águas das chuvas não penetram nos solos, vão de enxurrada pelas estradas. Veja-se o que acontece na Rua das Pretas, sempre que chove muito, os carros ficam a boiar. O arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles está farto de alertar para este problema da impermeabilização dos solos, para a necessidade de levantar o alcatrão e repôr jardins e calçadas, mas ninguém o ouve. Nas Avenidas Novas, os quintais e jardins continuam a ser destruídos para construir garagens”, afirmou.

 

O principal orador no colóquio foi Pedro Braga, responsável pela equipa de conservação e restauro da ERA -Arqueologia, empresa contratada pelo Fundação Millennium BCB para monitorizar e conservar as estruturas musealizadas que formam o NARC.

 

Para ele, um dos principais problemas de preservação deste núcleo tem a ver com o sal diluído na água, que cristaliza nas superfícies, formando placas que é preciso remover. Isso verifica-se nas zonas de mosaicos e também na zona do forno, cuja estrutura está a ser destruída pela cristalização dos sais.

 

No final, Jacinta Bogalhão voltou a pedir a palavra, para fazer uma recomendação: “Este museu tem que ter uma gestão profissional. Estamos a falar de estruturas milenares, que deveriam durar outros mil anos. Há muita intervenção a fazer ainda. A Fundação Millennium não tem profissionais de museologia, técnicos de conservação e restauro. O passo que resta dar é criar uma gestão profissional para um conjunto que foi classificado como monumento nacional, à semelhança do que acontece com o núcleo museológico da muralha de D. Dinis”.

 

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