Descampados junto à biblioteca de Marvila vão ter jardim e pavilhão em vez de prédios de renda acessível

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Sofia Cristino

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Marvila

11 Março, 2019

Os espaços verdes propostos pelos moradores de Marvila vão avançar. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Fernando Medina, promete criar um jardim “mais extenso” do que o sugerido, até ao limite da linha férrea. E admite alargá-lo ainda mais na direcção nascente. Em frente à biblioteca, surgirá um campo de jogos e, nas traseiras, será também construído um pavilhão desportivo. Marvila prepara-se para receber 363 habitações, no âmbito do Programa Renda Acessível. Na proposta inicial, as casas seriam construídas nos mesmos terrenos para onde os moradores apresentaram a proposta do jardim. Depois de perceberem as intenções do município para aquela zona, os habitantes reclamaram da decisão do executivo camarário, que volta agora atrás. Medina promete desafectar o terreno municipal do programa da renda acessível. O vereador da Mobilidade, Miguel Gaspar, também quer conhecer as ideias dos moradores para a criação de ciclovias, outra das propostas.

No descampado em frente à Biblioteca de Marvila vai nascer um campo de jogos e, nos terrenos contíguos – para onde estiveram previstos prédios de renda acessível – será construído um jardim. O espaço verde, proposto por um grupo de moradores dos bairros Marquês de Abrantes e Quinta dos Alfinetes, no final do ano passado, ao Orçamento Participativo (OP) de Lisboa, não só será criado, como ainda terá uma dimensão superior ao sugerido. A promessa foi deixada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Fernando Medina (PS), na última reunião descentralizada da vereação, realizada na passada quarta-feira (6 de Março). Haverá ainda um pavilhão, “como já tinha sido sugerido, com dimensões para a prática de desporto oficial, na escola, mas também para a comunidade da freguesia de Marvila”, assegura. O centro de saúde previsto para aquela parte da cidade, diz ainda o autarca, fará com que na zona fiquem “muito concentrados” vários equipamentos – jardins, campos de jogos, biblioteca, escola e o centro de saúde.

Ao ser interpelado nessa reunião por uma das moradores que reclamara a construção do espaço verde, o líder do executivo camarário garante que “o que o grupo comunitário propõe vai ser feito”. “Já tivemos a oportunidade de ver o sítio e já tenho um pequeno esquiço de uma proposta que queremos fazer, que é fazê-lo [o jardim] maior e mais extenso do que aquilo que propuseram inicialmente”, promete. O espaço verde, pedido apenas para os terrenos situados nas traseiras da biblioteca, será prolongado até ao limite da linha férrea. A extensão poderá ir ainda na direcção nascente, “passando as traseiras da biblioteca e continuando, porque trata-se de uma área que não vai ser edificada e não necessita de ser edificada, pode ser transformada num espaço verde”, avança.

Os bairros do Marquês de Abrantes, Quinta dos Alfinetes, Salgadas e o Pátio do Picadeiro, em Marvila, preparam-se para receber 363 habitações, no âmbito do Programa Renda Acessível, da Câmara Municipal de Lisboa (CML). O projecto urbanístico foi aprovado em reunião privada do município, no passado dia 21 de Dezembro. Na proposta lia-se que os edifícios surgiriam no descampado em frente à biblioteca e junto à Escola Básica 2,3 de Marvila e ainda nos terrenos localizados entre as ruas João José Cochofel, António Gedeão e Luís de Sttau Monteiro, nas traseiras da Biblioteca de Marvila. Ou seja, precisamente no mesmo sítio para onde os moradores apresentaram a proposta do jardim. Depois de perceberem as intenções do município, os habitantes reclamaram da decisão do executivo camarário. E Medina promete, agora, que o projecto inicial não acontecerá. “É um terreno municipal que hoje não está ocupado e, com facilidade, o desafectamos do programa que estava previsto. Vamos começar a construir em conjunto o projecto que querem”, promete.


 

As promessas surgiram na sequência da intervenção de Cristina Santos, representante dos moradores destes bairros, no início da reunião descentralizada, onde a moradora se deslocou para lembrar a vontade de terem um jardim na freguesia. “Em frente ao apeadeiro de Marvila, existe um terreno que apelidamos de ilha. E sonhamos ver nascer ali um jardim, espaços desportivos e um local de encontro entre crianças, idosos e famílias. Este espaço com árvores de diversas espécies deve ser equipado com áreas floreadas, equipamentos desportivos e de estadia. Propomos a criação de um espaço verde, que fortaleça o corredor verde oriental e que seja um exemplo emblemático de Lisboa enquanto Capital Europeia Verde em 2020”, voltou a pedir.

A proposta dos espaços verdes ao OP foi submetida em Dezembro de 2018 e apresentada publicamente, no passado 22 de Fevereiro, na Biblioteca de Marvila, ao presidente da Câmara de Lisboa. A moradora deslocou-se à reunião para saber quando é que os trabalhos avançarão e as respostas do município não poderiam ter sido mais animadoras. “Disseram-nos tudo o que queríamos ouvir, estamos muito empolgados. Esperemos mesmo que avance o mais rápido possível, é um sonho antigo”, diz Cristina Santos em declarações a O Corvo. A habitante recorda que a freguesia é constituída por muitas zonas abandonadas, “não fazendo sentido não ter pelo menos um jardim”. “Marvila tem doze bairros sociais e muitos descampados. Há muitas zonas para construir, e precisamos de espaços para respirar”, reforça.

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A representante dos moradores volta a frisar não ter nada contra a vinda de mais pessoas para a freguesia, e que estas “são bem-vindas”, mas há prioridades. “Neste momento, vivemos numa selva de pedra e betão autêntica, há um parque infantil destruído pelo tempo e faltam muitos espaços verdes. Todos somos receptivos à vinda de novos moradores, mas deveriam apostar na requalificação das zonas abandonadas, até porque será uma mais-valia para todos, para nós e quem vem”, considera. A moradora pede ainda que se comece a pensar mais na “união da zona mais antiga de Marvila e a requalificada”. “A parte histórica tem muitos prédios devolutos e a ruir, precisa de uma intervenção urgente. Nos nossos bairros também faltam lojas de comércio, serviços e ciclovias”, apela.

O presidente da câmara de Lisboa e o vereador da Mobilidade, Miguel Gaspar (PS), comprometeram-se a reunir com os moradores brevemente, para os ouvirem e avançarem com o jardim “o mais rápido possível”. “Estamos em fase de escolha da equipa de arquitectos, que vão fazer todo o trabalho. Mal esteja escolhida, o projecto será incluído e teremos uma reunião com o grupo comunitário para vos ouvirmos”, promete Medina. A empreitada terá duas fases. “Primeiro, vamos acabar com aquela rua por trás [da biblioteca], que não fará sentido existir na medida em que não existem prédios ali. Aquela rua ficou feita, caso aquela zona fosse urbanizada. Numa segunda fase, queremos fazer a extensão para nascente ao longo da linha do comboio”, promete.

O autarca socialista apelida a proposta de “excelente”, para uma freguesia que tem “um parque habitacional muito grande, mas disperso por vários núcleos”. “Falta-lhe ter núcleos de centralidade e de espaço público de qualidade, onde as pessoas possam fruir e estar, e onde possam levar filhos e netos, possam descansar, fazer a sua ginástica, ter os seus equipamentos, e ter ciclovias a cobrir como vias de mobilidade ao longo da freguesia”, afirma.

 

 

Na reunião descentralizada, os moradores pediram ainda a criação de uma rede de ciclovias que ligue os vários bairros da freguesia, e os principais equipamentos, como escolas, universidades, bibliotecas, centros de saúde e infra-estruturas desportivas. “Queremos uma freguesia mais unida, mais segura e ecológica. E, também nós que somos da cidade, queremos ser parte da capital verde 2020. É uma necessidade submetida por todos”, garante Cristina Santos. O vereador da Mobilidade, Miguel Gaspar, mostrou-se disponível para ouvir as propostas dos moradores. “É uma zona onde ainda não temos estruturadas muitas coisas e temos muito gosto em conhecer as vossas ideias e acelerar a rede circular no vosso bairro”, garantiu.

 

Num inquérito realizado, no ano passado, pela Rede Rés-do-Chão – no âmbito do programa municipal BIP/ZIP -, aos moradores, comerciantes e representantes de entidades locais dos bairros Marquês de Abrantes, Alfinetes e Salgadas, 98% das pessoas sugeriram que as zonas descampadas sejam ocupadas com um jardim, espaços desportivos e equipamentos destinados às crianças. Tal como O Corvo constatou no local, no final de Janeiro, os habitantes anseiam há muito tempo por zonas verdes, mas também espaços de convívio para os idosos. Pediam, ainda, um pavilhão desportivo, para as crianças da EB 2,3 de Marvila, uma vez que estas nem farão desporto quando chovem, por falta de um espaço. As ideias foram ouvidas e deverão, agora, avançar.

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