Depois de meses vazio, o parque dissuasor da Ameixoeira já tem 192 lugares fixos ocupados

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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MOBILIDADE

Santa Clara

5 Abril, 2018

A construção do parque dissuasor junto à estação de metro da Ameixoeira, o primeiro de sete parques deste género previstos para a cidade, está a dividir opiniões. Há quem considere que estes parques nunca vão esgotar a sua capacidade e que deviam ser construídos fora da cidade, em zonas como Odivelas, Sacavém ou no Jamor. Mas o número de lugares ocupados mostra que o parque está a corresponder às expectativas de quem decidiu instalá-lo ali. O presidente da EMEL, Natal Marques, garante que a utilização tem crescido e acredita que continuará a aumentar no Verão, uma vez que no Inverno as pessoas se sentem mais tentadas a levar o carro para perto do trabalho. Neste momento, o parque tem 192 utilizadores fixos, que vêem ali um lugar assegurado por um acréscimo de dez euros ao valor do seu título de transporte público mensal. “Já há muita movimentação, mas tenho a certeza que vai aumentar. Devia haver em todas as entradas de Lisboa um parque de estacionamento destes. Estou muito satisfeito, antes tinha de andar à procura de lugar”, diz um dos utentes.

“No início, éramos só cinco carros. Como sou das primeiras a chegar, brincava com a pequena quantidade de veículos estacionados num parque tão grande. Quando ficou completa uma fila, até tirei uma fotografia”, conta Susana Almeida, funcionária do café da estação de metro da Ameixoeira, referindo-se ao primeiro parque de estacionamento dissuasor a entrar em funcionamento em Lisboa. O parque, situado na freguesia de Santa Clara, com uma capacidade de 500 lugares, e representando um investimento de 500 mil euros, tem vindo a ser alvo de críticas por parte de várias forças políticas, da direita à esquerda, criticando a sua baixa taxa de ocupação. Mas, segundo o Corvo pôde agora constatar, esta realidade tem vindo a ser invertida. A maioria dos utentes está satisfeita com a obra, considerando que veio melhorar a sua qualidade de vida, ao lhes garantir estacionamento diário por um custo de dez euros mensais.

“Nós, que trabalhamos aqui, sempre fomos dos primeiros a chegar. Chegávamos antes das 7h e já tínhamos muita dificuldade em encontrar estacionamento. Agora, em qualquer dia da semana, sabemos que há sempre um lugar, e já vimos mais em cima da hora”, diz Susana Almeida, para quem o parque de estacionamento não teve muita adesão, nos primeiros meses de funcionamento, porque não foi muito publicitado.

“As pessoas não sabiam que existia, muitas perguntavam-nos, surpreendidas, se havia ali mesmo um parque. Para nós, foi óptimo porque, agora, muitos clientes utilizam o tempo que perdiam à procura de lugar para tomarem aqui o pequeno-almoço”, explica.

O parque da Ameixoeira foi o primeiro a abrir do conjunto de sete novos parques de estacionamento previstos para a cidade. A Rede de Estacionamentos Dissuasores da Câmara Municipal de Lisboa (CML) vai disponibilizar mais de 4000 novos lugares próximos de estações de metro e de grandes vias de transporte. O objectivo é travar a entrada de mais viaturas no centro de Lisboa, diminuindo o tráfego na cidade e os elevados níveis de poluição atmosférica.

O presidente da CML, Fernando Medina, chegou a considerar a hipótese de o parque de estacionamento ser gratuito para os utilizadores dos transportes públicos, mas esta opção acabou por não vingar, tendo sido definido um valor mensal de dez euros. Para quem não utiliza o metro ou os autocarros da Carris, o valor diário é de dois euros.

Luís Oliveira, reformado, ouvido no local por O Corvo, diz não ter dúvidas quanto ao sucesso deste parque. “Já há muita movimentação, mas tenho a certeza que vai aumentar. Devia haver em todas as entradas de Lisboa um parque de estacionamento destes. Estou muito satisfeito, antes tinha de andar à procura de lugar. O valor mensal é muito económico, porque dá menos de um euro por dia”, comenta o morador na freguesia.

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O estacionamento custa 10 euros por mês para quem tem passe dos transportes públicos.

Pedro Costa, 43 anos, trabalha em Sete Rios e reside no Alto do Lumiar. Antes da existência do parque, admite, perdia muito tempo à procura de estacionamento. “Com algumas das requalificações que foram feitas no Lumiar, foram suprimidos alguns lugares e passei a ter de vir estacionar aqui. Agora é muito mais prático e cómodo”, diz. Reconhece, contudo, que esta zona não é das mais críticas para encontrar estacionamento. “Podia-se demorar mais algum tempo a encontrar lugar, mas encontrava-se sempre. Quando começarem a fiscalizar mais esta zona, talvez a utilização do parque aumente”, observa.

 

O proprietário da oficina contígua à estação de metro da Ameixoeira, Vítor Silva, diz que se vê mais gente por ali. “Só não fiz eu o parque porque não pude. Foi, sem dúvida, uma mais-valia. Entra e sai bastante gente. Até é bom para mim, que publicito mais a oficina. Em Janeiro, começaram a colocar os parquímetros e não fazia sentido não haver um parque”, conta.

 

Esta movimentação leva Pedro Costa a prognosticar que o tráfego poderá vir a aumentar naquela zona da cidade. “A única desvantagem que vejo é que pode trazer mais trânsito e tirar alguma qualidade de vida a esta zona, que é muito pacífica, principalmente ao fim de semana”, considera.

 

Em Janeiro passado, a Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL) começou a colocar parquímetros nesta zona residencial da Ameixoeira. O que não está a deixar muitas alternativas a quem procura ali lugar diariamente. Ana Paula Ferreira trabalha no Terreiro do Paço e vive no Bairro dos Sete Céus, na extinta freguesia da Charneca – que, juntamente com a Ameixoeira, deram origem à freguesia de Santa Clara. Lamenta que não lhe seja concedido o dístico de residente. “Sendo eu moradora, não deveria ter de pagar o que pago, mas talvez viva numa zona que sai das fronteiras da freguesia de Santa Clara”, ironiza.

 

“Antes, estacionava na rua. Mas como, agora, já se começa a pagar, acaba por ficar mais barato pagar este valor mensal, apesar de ser sempre um acréscimo ao meu ordenado. Como moro na freguesia, podia pagar menos. Também não concordo que este valor esteja associado ao passe, porque há meses que preciso menos de utilizar o parque, como quando tenho férias”, acrescenta.

 

Neste momento, segundo dados fornecidos a O Corvo pelo presidente da EMEL, Luís Natal Marques, o parque da Ameixoeira tem 192 utilizadores inscritos, que têm ali um lugar assegurado, por um acréscimo de dez euros ao valor do título de transporte público mensal. Já o “estacionamento de rotação” – para quem não utiliza o passe – ronda uma média diária de 15 a 20 veículos diários. “A utilização do parque dissuasor da Ameixoeira tem vindo a crescer e está dentro das expectativas, esperando-se, naturalmente, um acréscimo da sua utilização nos próximos meses, com a chegada das estações mais quentes”, diz em depoimento escrito a O Corvo.

 

“No inverno, com a chuva, por uma questão de comodidade, as pessoas são tentadas a penetrar na cidade com o seu veículo particular, levando-o quanto possível até ao seu destino. De verão, estarão disponíveis a deixar o carro no parque e a seguir de transporte público. Por outro lado, a freguesia da Ameixoeira vai começar a ser tarifada, o que significa que o desordenamento existente no estacionamento nas imediações do parque vai deixar de ser possível”, esclarece.

 

Natal Marques diz que a construção destes parques é muito importante, não só para dissuadir a entrada das viaturas individuais no centro da cidade, “zona já muito congestionada e com pouca qualidade atmosférica do ar”, mas também para promover a utilização do transporte público urbano e para dar uma alternativa mais económica aos automobilistas. “Podem estacionar ao preço de 50 cêntimos diários e, na cidade, em zona verde, das 9h às 19h pagariam oito euros por dia. Na zona amarela são 11,20 euros e, na vermelha, 16 euros, explica.

 

A construção dos parques dissuasores em Lisboa tem, contudo, divido muito opiniões. No início deste ano, ouvidos por O Corvo, alguns moradores de Santa Clara criticavam tal obra numa freguesia que, diziam, tem outras prioridades. “Gastaram imenso dinheiro no parque de estacionamento, não sei para quê. Não tem cabimento nenhum. Não ajuda em nada a nossa vida”, dizia Henrique Mendonça, em Janeiro.

 

Também nessa altura, o vereador do PCP João Ferreira, em declarações O Corvo, condenava a baixa taxa de ocupação do parque e o “vultuoso” investimento ali feito. João Ferreira propunha que estes parques fossem gratuitos para os utilizadores do transporte público.

 

Mas há outros partidos a discordar de tal opção. Diogo Moura, o presidente do grupo municipal do CDS-PP, ouvido agora por O Corvo, diz que, sendo as freguesias do Lumiar e de Santa Clara uma das principais entradas da cidade, constitui “um erro” criar parques dissuasores dentro da cidade. E, neste caso particular, considera, o parque até não esgota a sua capacidade.

 

“Não faz sentido colocarem um parque ali. Os parques dissuasores devem ser criados fora da cidade, como em Odivelas, Sacavém ou no Jamor, ou seja, à entrada de Lisboa, de modo a evitar a entrada de mais viaturas na cidade. Criar soluções dentro da cidade não ajuda a melhorar a redução do tráfego automóvel, o incentivo ao uso do transporte público e à redução dos gases poluentes. O parque não esgota a sua capacidade e falta aferir se as viaturas são de moradores ou condutores oriundos de fora de Lisboa”, comenta.

 

 

Estes parques, diz ainda, devem assegurar as ligações a transportes públicos e às principais zonas de circulação e serviços de Lisboa. “Os parques da Fertagus, nas estações da Margem Sul ou aqueles que se encontram junto às estações de comboio da linha de Sintra, são bons exemplos. Nesta matéria, ainda há muito a fazer e Fernando Medina tem uma responsabilidade acrescida, por administrar a Carris, e pelas suas responsabilidades na área metropolitana”.

 

Na reunião de 27 de Março da Assembleia Municipal de Lisboa, o deputado municipal do PSD Rodrigo Mello Gonçalves questionava a autarquia sobre a que considera ser a morosidade da construção destes parques. “Nos últimos anos, a câmara municipal não se coibiu de fazer anúncios de lugares de estacionamento, mas o trânsito mantêm-se e a mobilidade deteriora-se na cidade. O que é que a câmara prevê concretizar em matéria de parques dissuasores, uma vez que dos vários anunciados apenas abriu um até agora? E, como explica que, passados dez anos de governo socialista, não exista já uma rede de parques em Lisboa?”, perguntava.

 

O vereador da Mobilidade, Miguel Gaspar, admitiu que a EMEL devia estar a comunicar melhor os parques que já estão concluídos, considerando, no entanto, que “já muito está a ser feito”. “Já estamos a fazer o parque da Pontinha, que terá mais de 1900 lugares, o parque do Pingo Doce, em Chelas, e estamos a intervencionar o de Algés”, dizia.

 

Um dos objectivos destes parques será diminuir o tráfego na cidade que, para já, continua a aumentar. “A entrada do transporte individual cresceu 1,6% e a do transporte público 5,6%, no último ano. Há mais emprego na cidade de Lisboa e, por isso, há mais mobilidade”, explicava, ainda.

 

A acrescer a estes três parques, está prevista, ainda, a construção de parques periféricos no Areeiro, com 300 lugares, na zona de Pedrouços, com 150, e ainda parques junto aos estádios de Alvalade e da Luz.

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