Samuel Alemão

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AMBIENTE

Estrela

Misericórdia

9 Julho, 2018

Os sinais de decadência eram por demais confrangedores para algo inaugurado há apenas pouco mais de um ano. Os dois canteiros centrais da reabilitada Avenida 24 de Julho começaram agora a ser recuperados, após um período em que, fruto de incúria na manutenção, sobretudo no troço compreendido entre a sede da EDP e o Largo de Santos, aparentavam um aspecto ressequido e dir-se-ia que a denunciar abandono. Os trabalhos estão, desde a última semana, a ser assegurados por uma empresa contratada pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), que terá prescindido dos serviços da outra firma a quem a tarefa estaria entregue. Mas fica por confirmar a razão exacta para o mau estado daquelas áreas vegetativas, que se vinha evidenciando nas últimas semanas. Por definir está ainda se, finda a operação de revitalização dos debilitados espaços verdes da avenida, os mesmos serão entregues aos cuidados das juntas de freguesia da Misericórdia e da Estrela ou permanecerão sob tutela camarária.

Surgidos com o projecto de reperfilamento da Avenida 24 de Julho – integrado nas obras de requalificação dos largos do Cais do Sodré e do Corpo Santo, no âmbito do programa municipal Uma Praça em Cada Bairro, inauguradas a 18 de Março do ano passado -, os canteiros vieram conferir um aspecto mais desanuviado aquela zona, juntamente com o alargamento do passeio e a construção de uma ciclovia em paralelo. A intervenção no espaço público daquele troço da avenida incluiu a plantação de árvores e a criação de zonas verdes nas quais a restante vegetação foi semeada para ser mantida como se de um prado se tratasse. Opção que tem como objectivo conferir ao canteiro um aspecto mais natural e menos sujeito à intervenção humana, com as espécies (flores, espigas e arbustos) a singrarem sem estarem sujeitas aos habituais condicionalismos da jardinagem convencional. Apesar disso, exigem-se cuidados de manutenção. Algo que, contudo, terá faltado nos últimos meses.

Isso mesmo foi reconhecido pelo vereador da Estrutura Verde, José Sá Fernandes, durante a última reunião pública do executivo municipal, realizada a 27 de Junho. Interpelado por uma activista da Plataforma em Defesa das Árvores sobre os problemas com as árvores plantadas nas recém-remodeladas Avenida Fontes Pereira de Melo e Avenida 24 de Julho, o autarca admitiu que a situação actual dos espaços verdes naqueles locais estaria ainda longe da ideal. Mas também garantiu que, em ambos os casos, as inconformidades detectadas estariam a ser resolvidas em conjunto pelos serviços do município e pelas empresas especializadas contratadas. “Às vezes, corre bem, outras vezes, corre mal. Nesses dois exemplos, houve partes que correram menos bem, mas que esperamos rectificar”, reconheceu o vereador, naquele momento.

 




Antes de assumir os problemas, Sá Fernandes gabara as qualidades do que avaliou como o “extraordinário exemplo de plantação que foi feita no separador central da 24 de Julho”, o qual, informou então, estaria a ser “limpo pela empresa”. “Estamos em cima da empresa”, garantiu, explicando que estariam a ser tomadas providências “para que não aconteça nada de mais grave nesta situação”. O vereador está tão seguro da qualidade da plantação dos prados biodiversos ali realizada, que disse mesmo ser objectivo da câmara “replicar aquele tipo de intervenção” noutros locais da cidade. Algo justificado pelas três vantagens por si elencadas: “Além de ser bonito e de precisar de menos rega, este tipo de plantação tem uma excelente absorção de carbono. Ao contrário do que as pessoas pensam, não são só as árvores que absorvem carbono”, explicou Sá Fernandes, assegurando que a solução tem mostrado resultados muito positivos e “cientificamente provados” nos sítios em que tem sido adoptada. Isto apesar dos problemas existentes na 24 de Julho.

Os quais têm sido, aliás, difíceis de disfarçar. Tanto que a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, Carla Madeira (PS), contactada por O Corvo, diz não ter dúvidas de que o aspecto desleixado dos canteiros resulta da “falta de manutenção, da falta de cuidado humano”. “As árvores não estão secas, têm sido regadas, mas é evidente que tem faltado tratar daquelas ervas. Não se tem visto mão humana ali. Os espaços verdes precisam de manutenção diária, e nós sabemo-lo bem pelo trabalho constante com os que temos a nosso encargo”, afirma a autarca, evitando, porém, atirar responsabilidades para a Câmara de Lisboa. “Pelo que sei, aquela obra ainda não foi dada como entregue em definitivo pela empresa que a concretizou. A seguir à fase de realização de uma obra, há sempre um período consideravelmente longo entre o terminar por completo os trabalhos e o entregá-los ao cliente”, explica.

 

Carla Madeira dá até como exemplo o Jardim Roque Gameiro, no remodelado Largo do Cais do Sodré, tendo aquele espaço verde situado em frente à entrada principal da estação de comboios sido entregue à responsabilidade da Junta de Freguesia da Misericórdia apenas na semana passada – ou seja, mais de um ano e três meses após a inauguração. A autarca explica que, no caso dos canteiros dos dois separadores centrais da 24 de Julho, a Câmara de Lisboa não terá ainda decidido se “assumirá ela a responsabilidade pela sua gestão ou a passa às freguesias”. A presidente da junta já tem, todavia, uma posição definida e acha que “faz mais sentido ser a câmara a tratar desses espaços, por se tratar de um eixo central da cidade e abarcar duas freguesias ”. Carla Madeira explica que, no entanto, a junta “ainda não foi notificada pela câmara”.

O Corvo tentou ouvir sobre esta questão tanto o vereador José Sá Fernandes, como o presidente da Junta de Freguesia da Estrela, Luís Newton (PSD). Não foi possível, no entanto, fazê-lo até ao momento da publicação deste artigo. Foram ainda enviadas duas questões à Câmara Municipal de Lisboa, relativas aos problemas de manutenção dos canteiros: “Qual a razão de tal situação? O que está a CML a fazer para resolver o problema?”. As respostas não chegaram a tempo da publicação do artigo.

COMENTÁRIOS

  • Jorge Simões
    Responder

    Mas não é assim com todos os espaços “verdes” públicos da capital? Não há um único mantido em condições. O Jardim do Torel que foi todo renovado há poucos anos já está todo degradado por falta de manutenção e é assim com todos. Não consigo entender como há milhões para fazer ou refazer estes espaços e depois não há centenas para os manter. Nem a Av. da Liberdade consegue manter-se em condições. Não seria boa ideia acabar com os relvados em Lisboa?

  • Anibal Rodrigues
    Responder

    Esta Camara Municipal de Lisboa faz com os jardims aquilo que ums TóTós de Lisboa fizeram aqui ha ums anos alugaram um terreno 10 000 m2 na Espera perto de T. Vedras e mandaram lavrar e frezar e semearam batatas com a ajuda dum agricultor e voltaram para Lisboa passado 2 meses os TóTós voltaram ao terreno estava transformado num matagal chamaram o agricultor e perguntaram lhe porque é que aquilo estava naquele estado , escusado sera dizer que o homem ljes disse oh amigos sea agricultura fosse assom era facil , mas e preciso sachar tirar as ervas e mais nao disse , resultadoja nao2 havia nada a fazer. Os jardims camararios estão na mesma

  • claudio
    Responder

    pois é uma muito boa e pertinente pergunta. inaugurar é do melhor e este medina é mesmo bom a plantar a 1 arvore e anunciar planos de corredores e hortas verdes e o raio, mas dps a manutençao e que é o caralho. qualquer politico sabe que acima de tudo o que e preciso é obra! é mostrar! nao ha uma equipa de jardinagem da cml é smp tudo a empresas privadas k se estao marimbando para a cidade, querem e receber lucros publicos e dps as freg e cml nao se entendem. classico!

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