Depois da polémica, requalificação do Bairro das Estacas avança com acompanhamento de Ribeiro Telles

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

URBANISMO

Alvalade

4 Junho, 2018

Em Fevereiro passado, a Junta de Freguesia de Alvalade anunciou a intenção de reabilitar o espaço público do Bairro das Estacas, desígnio que não foi visto com bons olhos pela Ordem dos Arquitectos – Secção Regional Sul (OASRS). A ordem sentiu que a junta não se preocupou com os direitos de autoria do projecto do arquitecto Ribeiro Telles, não o consultando. As duas entidades voltaram, por isso, a reunir e há uma novidade: a obra vai ser acompanhada pelo ateliê de Ribeiro Telles. “Dois arquitectos vão arbitrar eventuais conflitos que possam surgir no decorrer das obras. Agora vai correr tudo bem”, diz o vice-presidente da OASRS. Os moradores dizem, contudo, ainda ter dúvidas. Alguns receiam perder os jardins tal como sempre os conheceram, que sejam abatidas árvores, e não concordam com a retirada da vedação do parque infantil, temendo pela segurança das crianças. Já a junta considera que a retirada do gradeamento não põe em risco a segurança dos mais novos, pois não existe tráfego rodoviário nas áreas circundantes. E garante que não vai abater árvores, a não ser que tal se imponha por questões fitossanitárias.

“Nunca se preocuparam com o nosso bairro. Agora, querem destruir o que existe, como tirar as grades à volta do parque infantil. Os avós não ficam descansados”, diz Glória Tavares, 85 anos, a viver no Bairro das Estacas há 55 anos. A moradora refere-se a uma das intervenções previstas na proposta de requalificação do espaço público do Bairro das Estacas, em Alvalade, projectado em 1953 pelo arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. A intenção da Junta de Freguesia de Alvalade em reparar os espaços comuns deste bairro, discutida pela primeira vez no passado mês de Fevereiro, foi alvo de contestação pelos moradores. Mas também pela Ordem dos Arquitectos – Secção Regional Sul (OASRS), que considerou que a junta não se preocupou com os direitos de autoria do projecto, ao não a consultar, e chegou a temer pela integridade do projecto. A 14 de Maio, a OASRS voltou, por isso, à sede da Junta de Freguesia para debater o tema, tendo ficado decidido, desta vez, que as obras passarão a ser acompanhadas pelo atelier do arquitecto Ribeiro Telles. João Sequeira, vice-presidente da OASRS, em declarações a O Corvo, garante que “agora sim, os direitos de autor estão salvaguardados”.

Apesar de ainda não existir um projecto final, a OARS avança ainda que as alterações agora previstas terão um “impacto menor”, uma vez que “o tipo de materiais utilizado também vai ser diferente”. “Inicialmente, a Junta de Freguesia teve uma posição mais defensiva, mas perceberam rapidamente que não queríamos prejudicar ninguém. Dois arquitectos, um da Junta e outro do ateliê de Ribeiro Telles, vão arbitrar eventuais conflitos que possam surgir no decorrer das obras. Acho que agora vai correr tudo bem”, afirma João Sequeira. Mas, enquanto a OASRS, o ateliê de Ribeiro Telles e a Junta de Freguesia alinham ideias, os moradores dizem ainda ter dúvidas.

 

Nos últimos anos, o pavimento dos arruamentos tem vindo a deteriorar-se, havendo problemas de mobilidade pedonal. O edificado está degradado e há infiltrações nos prédios, questões que os habitantes consideram serem prioritárias. Com esta intervenção, alguns receiam perder os jardins como sempre os conheceram. Para os mais idosos, a principal queixa é a retirada das grades à volta do parque infantil.

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A retirada do gradeamento do parque infantil tem vindo a ser contestada

“O parque sempre teve grades e ficávamos descansados em deixar os nossos netos lá. Disseram-me que colocariam o gradeamento novamente se houvesse algum problema, mas andar a tirar e pôr grades é estragar dinheiro, além de colocar em risco a segurança das crianças”, critica Glória Lopes, uma das moradoras mais antigas do bairro, acrescentando que tem mais reparos a fazer. “Nunca fizeram nada para não nos sentirmos sozinhos, como um espaço coberto para estarmos no Inverno. A quantidade de folhas que há aqui entope os telhados e há muitas infiltrações, quando chove”, explica, apontando para as árvores ali plantadas há décadas.

 

Inicialmente, a Junta de Freguesia apresentou duas propostas de requalificação dos espaços verdes do Bairro das Estacas, que foram discutidas em duas reuniões públicas, com os moradores e arquitectos. Na primeira sessão de esclarecimentos ainda se falou na possibilidade de se construir um anfiteatro para espectáculos, uma das intervenções mais criticada pelos moradores, entretanto já excluída do projecto.

 

 

“Não percebi a ideia de construírem um anfiteatro, já temos o teatro Maria de Matos. As autarquias têm uma fobia para fazer coisas que não se entende, qualquer dia já não temos os nossos sítios. Não concordo nada com a retirada do gradeamento do parque infantil”, diz Maria Helena Simões, 80 anos, moradora. “Nunca mais terminam o mercado. Se demorarem o mesmo tempo nesta intervenção, estamos tramados”, diz ainda, referindo-se ao atraso na obra do novo mercado localizado na Rua Bolhão Pato.

 

Ricardo Pinto, na casa dos 30 anos, também está preocupado. “Este bairro é emblemático, estragarem-no é uma parvoíce. Podiam construir lugares de estacionamento nas traseiras do edifício da junta, há muito mais espaço”, diz o morador, ansioso por conhecer o projecto final. Jorge Pacheco, a passear o cão, é mais radical. “Não deviam alterar nada, não concordo nada com as ideias previstas”, diz.

 

Além da remoção de alguns elementos que foram sendo introduzidos ao longo dos anos no espaço público daquele bairro, a Junta de Freguesia de Alvalade prevê a melhoria dos acessos pedonais, dos espaços verdes e do mobiliário urbano, que será mantido, preservando-se elementos “distintivos” de um dos logradouros, como o jogo da macaca e as pedras de calcário. O projecto contempla, ainda, “um aumento de 14% da permeabilidade do solo”, através da ampliação dos espaços verdes e da substituição de pavimentos, e a plantação de mais de quatro mil exemplares arbustivos e herbáceos. Os caminhos principais vão ser revestidos a betão poroso, os trilhos secundários a calçada e os caminhos terciários a placas de calcário. Outra das intervenções será a criação de 27 lugares de estacionamento na via pública.

 


 

Quanto à retirada das vedações em redor dos parques infantis, a junta diz, em depoimento escrito a O Corvo, que estas “devem ser instaladas quando existe proximidade de tráfego rodoviário”, uma situação que considera não se verificar neste caso. “Está prevista a criação de um novo parque infantil. A ideia é que este seja um espaço aberto, no qual será privilegiada a utilização de materiais naturais. Caso se verifique a necessidade de instalação de vedação, a mesma será instalada de imediato”, garante.

 

Quanto ao receio dos moradores de perderem espaços verdes com a construção de lugares de estacionamento, a junta explica que a maioria desses lugares resultará do aproveitamento do espaço no topo da Rua Antero de Figueiredo, que está actualmente ocupado pelo Mercado de Levante, não sendo feita por isso uma intervenção nos jardins. “A construção (em curso) do novo mercado – que adoptará a designação de Mercado Jardim – permitirá a libertação do espaço acima mencionado e a consequente reorganização do espaço público. Essa operação não implicará o abate de qualquer árvore”, assegura.  “Só abateremos árvores quando tal se impuser por questões fitossanitárias”, acrescenta, ainda.

 

No caso do Bairro das Estacas, os exemplares existentes foram sujeitos a uma avaliação fitossanitária pelo Laboratório de Patologia Vegetal Veríssimo de Almeida (LPVVA), do Instituto Superior de Agronomia. O projecto de reabilitação do espaço público vai ainda ser sujeito a parecer da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) e da Câmara Municipal de Lisboa (CML). A Junta de Freguesia de Alvalade garante também que “o respeito pelo projecto de Gonçalo Ribeiro Telles é uma das pedras basilares desta proposta de requalificação dos logradouros elaborada pela Junta”, não violando o património arquitectónico e paisagístico daquele bairro projectado há 65 anos.

 

* Nota: texto rectificado às 23h de 4 de Junho. Clarifica que o projecto de reabilitação será acompanhado por arquitectos da Junta de Freguesia de Alvalade e do ateliê de Gonçalo Ribeiro Telles.

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COMENTÁRIOS

  • Rosa
    Responder

    Quem são os “Dois arquitectos vão arbitrar eventuais conflitos que possam surgir no decorrer das obras.”?

  • André
    Responder

    Ora que pena, espero que se lembrem de colocar um qualquer sistema para prender bicicletas. Porque a grade do parque infantil é impecável para isso, e não estorva ninguém. Mas claro que sou sensível (e sinceramente prefiro) a ideia de que as crianças se possam mover livremente por aquele espaço, sem outras barreiras que não a da vigilância dos avós.

  • Dina Almeida
    Responder

    Parece-me que um parque infantil deve estar de acordo com a faixa etária dos utilizadores. O pequeno parque do Bairro das Estacas, foi nítidamente projectado pensando nos mais pequenos, a primeira infância.
    Nesta fase encontram-se duas situações : os bebés OU os andadores, saltadores , amadores das “escondidas” por vezes sem destino.
    Com frequência são acompanhados por irmãos ou outrem, muito jovens, ou por avós, alguns já com dificuldades motoras.

    Certo ?
    Assim se justifica um recinto pequeno, vedado , para que não haja fugas e em que também os cuidadores usufruam de algum descanso.
    Permite também seleccionar A entrada de animais indesejáveis.
    Sou moradora no Bairro e Frequentei este parque com cada um dos meus 9 netos ; apercebi-me ainda de um pormenor…. o prazer que cada criança sente quando já é capaz de abrir e fechar o pequeno portão ou de trepar o gradeamento para o exterior.

    Sugestão: Instalar ali uma fonte que sirva para higiene e como Bebedouro
    Os meus melhores cumprimentos

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