A Piedade mora num velhíssimo prédio, estreito, em mau estado, com a pintura a cair, no Largo da Severa. Chega-se lá pela Rua do Capelão, aquela onde a Severa que dá o nome ao largo, Maria Severa Onofriana, morreu aos 26 anos de tuberculose. A Piedade espera-nos ao cimo de um escuro e íngreme lanço de escadas, 88 anos mal equilibrados em duas muletas. Fica contente por ver o Pedro e a Margarida, do CEM (Centro em Movimento), que vão fazer-lhe companhia uma vez por semana. O roupão azul da Piedade não tem nódoas, o cabelo branco está bem penteado e seguro por uma fita, não há nenhuma sujidade à vista nos menos de vinte metros quadrados a que chama casa, apenas um cheiro indefinível a pobreza. Ai filhos, deixei cair o pacote do leite, não sei se consegui limpar tudo, e aquela cortina que caíu, Pedrinho, não vejo a rua, se ma conseguisses arranjar! Pedro, 28 anos, trata a Piedade por tu, é uma amiga, venho aqui porque é minha amiga, Piedade, tens uma chave de parafusos? Não, não é caridadezinha, tenta ele comunicar através da maneira informal e próxima como trata Piedade, que tem os dedos da mão esquerda cortados ao meio e apenas dois dedos inteiros na mão direita, resultado de um acidente de trabalho na fábrica de graxa onde trabalhava. Vê na gaveta dos talheres, diz ela, num suspiro, enquanto se deixa cair no cadeirão sem cor nem forma, percebe-se que é o sítio onde passa o dia sentada, aliás não há mais nada onde uma pessoa possa sentar-se e em frente do cadeirão fica a única janela da casa, atrás está a cama. Mal se senta, Piedade começa a chorar, fala do filho, funcionário administrativo no arquivo do Hospital de Santa Maria, estão a dar com ele em doido, a tirar-lhe o ordenado, a empurrarem-no para fora, agora tem que ir à psicóloga pra ver se lhe dão a reforma, mas a psicóloga ainda o põe pior e é preciso pagar-lhe. O filho de que ela fala ouve o que a mãe conta porque está entreaberta a porta que nos separa do sítio onde ele está deitado, sento-me na soleira dessa porta, não há mais espaço livre. O Pedro pede emprestada uma chave de parafusos a um homem que passa na rua. É o Afonso, um bom rapaz, criado na rua, a mãe, coitadinha, eu também tive um marido que era um traste, vi-me livre dele em 1952, tinha 27 anos e fiquei com dois filhos pra criar, vivemos aqui todos, eu e eles, a minha mãe e as minhas duas irmãs, uma era costureira de calças, e ainda o meu irmão, sete pessoas, morreram todos, que saudades desses tempos. O Pedro conseguiu prender de novo a cortina à parede, a Piedade bate palmas de contente, a vida melhorou um pouco. Ele quer mostrar-me a Piedade quando era nova, dum saco de plástico tira fotos em que ela aparece a rir, à mesa dum restaurante, com as irmãs, estava tão contente a jantar com as irmãs, uma delas casada com um italiano que tinha uma agência de viagens na Avenida da Liberdade. A Piedade pensa que não vai durar mais de três anos, queria muito conhecer um neto que nunca viu, dum filho que nunca mais a visitou. Estão os leitores fartos desta crónica neo-realista? Pensam que esta mulher é um caso isolado? Mas há milhares de Piedades em Lisboa, e não é de neo-realismo que se trata, mas da realidade de antes e de agora, tão velha como a cidade. Entra-se num táxi e ouve-se, na Rádio Amália, os fados que falam de destinos como o dela, resignados e tristes. Escutamos as letras e os ais com um prazer distanciado, mas há dias em que percebemos que essas letras e suspiros falam de gente com a qual nos cruzamos a toda a hora, de vidas ocultas atrás das grossas paredes dos bairros típicos, nas mansardas da baixa, dos prédios das avenidas novas, por toda a parte. É então que sentimos que a envolver Lisboa há um peganhento cheiro de tristeza.

 

Texto: Isabel Braga      Ilustração: Hugo Henriques

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