Se, por regra, das rotinas pouco mais tiramos que infirmações e tédio, as grandes ou pequenas lições da vida captamo-las do imprevisto, do não planeado. A verdadeira aprendizagem sobre o homem, o seu carácter e a sociedade em geral é como que uma sucessão de traumas. Por muito que nos custe admiti-lo. Depois da revelação, o choque é como que convertido em reiteração. A isso se chama aprender com a vida.

 

À medida que se envelhece, tende-se a ficar de forma progressiva menos atento e, logo, menos disponível. Olha-se à volta e, se não se estiver disposto a baixar a guarda de convicções que com denodo se foi construindo ao longo dos anos, nada nos surpreenderá. Até ao próximo choque. Como me sucedeu há poucos dias, no Chiado. Uma revelação nascida de um dia que prometia ser de rotina.

 

A meio da manhã, saído da cavalgada de subir sem cessar os quatro lanços de escada rolante mais um final de pedra da saída do metro, dirijo-me na direcção do Largo Camões. O vermelho do semáforo detém os peões na estreita Rua Nova da Trindade, onde passantes, taxistas em fila de dimensão sempre incerta e automobilistas fingem sempre não perceber se está vermelho ou verde. E, de repente, algo inesperado.

 

Um daqueles pequenos camiões de cargas e descargas das muitas lojas existentes no centro da cidade bate com uma das esquinas da sua caixa metálica numa carrinha Audi estacionada mesmo junto ao semáforo. Um estalido seco faz-se ouvir. “Ahhhh”, “Ehhhh”, “Ohhh”, espantam-se as vozes. E o motorista também. O espaço não era suficiente, talvez a manobra não tenha sido lá muito bem calculada. Ainda assim, insiste-se. Decisão de contornos catastróficos. A quina metálica risca e amolga, com estrondo e em profundidade, todo o lado direito do automóvel.

 

“Tchiiii!!”, “Eh pá!”, “Chiça!!”. Peões, um motorista de táxi e alguns condutores que seguiam atrás, todos viram. O veículo de mercadorias detém-se logo à frente, junto à estátua do poeta Chiado. Um silêncio de cortar à faca por segundos a parecer minutos. Os olhos comprometidos do motorista no retrovisor confirmam à distância os danos que ele parece ter dificuldade em admitir ser o responsável. Uma primeira bem engrenada e o tempo deixa de estar suspenso. Foi-se embora.

 

Atónito, como os demais, anoto a matrícula do camião. Um taxista e o passageiro de um carro que estava imediatamente atrás do pesado confirmam-na. Por instantes, fiquei indeciso no que fazer, mas depois pensei que o mais lógico seria procurar um qualquer polícia para lhe relatar o que sucedera e, caso fosse útil, me oferecer como testemunha. Se fosse eu o dono do carro, acharia simpática tal atitude, pensei.

 

Olhei à volta. Estamos no coração da cidade, na sua mais nobre área comercial. Não deve ser difícil, julguei. Uns passos para um lado, outros para outro. E nada. Anos de passagem na zona fizeram-me lembrar dos polícias à porta do Governo Civil de Lisboa, ali na Rua Capelo. Lá chegado, lembrei-me de pronto que os governos civis já foram extintos. O edifício apresentava sinais de estar fechado e em obras. Mas ainda lá estava um polícia à porta. Expliquei-lhe ao que vinha e ele, cortês, explicou-me que ali nada podia fazer, mas que “um rapaz nosso da divisão de trânsito anda ali na Rua Garrett”. “Vá lá ter com ele, que ele toma conta da ocorrência”.

 

Caminhados uns metros, lá estava o agente, no fim da Rua Anchieta, no cruzamento com a Garrett. De colete laranja e braçadeira vermelha com um T. Não havia dúvida, era mesmo da divisão de trânsito. Por esta altura, não sei porquê, irrompeu no meu íntimo uma hesitação entre o me ver como um cidadão cooperante ou não passar de um reles bufo. Mas, quando começava a ficar angustiado, já estava demasiado próximo do polícia de trânsito. Tarde de mais. “Diga?”. E eu disse. De novo, contei-lhe o que fazia dirigir-me à autoridade.

 

Depois de me ouvir, o jovem polícia com sotaque “da província” e – notava-o agora, enquanto ele se preparava para me responder – um fardamento a apresentar sinais de clara delapidação aconselhou-me antes a ir a uma esquadra. “É que eu não tenho aqui nada com que apontar, nem caneta, nem papel”, disse. “Como?”, indaguei. “Sim, não posso fazer nada”, respondeu. Atónito, disse-lhe: “Deixe-me dizer-lhe que a polícia portuguesa deixa muito a desejar, se não consegue apontar uma simples ocorrência”.

 

O polícia ficou algo embaraçado e retorquiu que a “a polícia portuguesa tem os meios que tem”. Ainda lhe tentei fazer ver que me estava a oferecer de bandeja como testemunha de uma situação que dela poderia vir a precisar. Nada feito. “Olhe, não tenho argumentos para lhe responder. Bom dia”, disse-lhe, virando as costas.

 

Enquanto subia o troço final da rua cheia de sinais de abundância natalícia e de gente com sacos de compras, tentava encaixar tudo aquilo. Ao passar novamente pelo veículo danificado, reparei que alguém já havia deixado uma folha com um número de telemóvel no para-brisas, oferecendo-se como testemunha. Algo que, afinal, também eu podia ter feito. Óptimo, está resolvido, pensei, enquanto não se me saía da cabeça a palavra “pelintrice”. Após um ligeiro arrepio de frio, ajeitei o casaco e continuei a breve caminhada até à redacção.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Filipe
    Responder

    Nessa mesma rua antes do Natal avisei os policias da venda ambulante em frente à brasileira e dizem-me eles: “pois, não deviam estar ali não. mas o que é que se há de fazer?” Mas esta gente só serve para encher o olho?!

  • fernando
    Responder

    País de bufos, uns por ingénua cidadania outros por falta de espaço (?)

  • Nuno Cândido Vieira
    Responder

    Na reportagem, e não querendo de maneira nenhuma desculpar a displicência gritante das autoridades policiais, não é mencionado uma única vez um “pormenor” que me parece bastante pertinente:
    Tendo em conta o texto e a localização do automóvel, o incidente não foi consequência, em primeiro lugar, do estacionamento ilegal do mesmo assim como a total ausência de cidadania do seu proprietário?

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