Texto e fotografia: Rita Dantas

 

Hoje, quando descia as escadas do prédio, cruzei-me com obras em dois apartamentos. Nada de estranho, Alfama neste momento parece-se francamente com Berlim no início dos anos 2000, obras e andaimes por todo o lado (também temos um restinho de muro muralha e centenas de estrangeiros diferentes todos os dias).

À partida, isto são boas notícias, havia e há muitas casas em más condições e prédios lindíssimos a cair literalmente aos bocados. Mas assustam-me, por um lado, os riscos sociais da gentrificação (quantos dos actuais moradores de Alfama poderão pagar as novas rendas destas casas restauradas, quantos dos seus filhos conseguirão ficar no bairro? Alfama sem a população residente ainda era Alfama?) e, por outro lado, um risco ainda maior: o da airbnbzação.

O ano passado, por curiosidade, fui ver por quanto dinheiro estava a ser alugada à noite uma casa em Alfama com vista de Tejo no Airbnb, o mais popular de uma série de sites que alugam apartamentos nos centros das cidades, permitindo aos turistas ficarem em apartamentos em zonas residenciais, poupando dinheiro e conseguindo uma experiência mais próxima vida dos “locais” – locais esses que arrendariam as suas casas por uns dias, conseguindo assim também algum dinheiro extra.

Na altura, fiquei espantada com a quantidade de casas que encontrei, parecia que metade de Alfama estava disponível para short-time rentals. Mas depois fui percebendo o que estava a acontecer: não eram locais a alugar as suas casas ou um ou dois quartos por algumas noites. Eram investidores a comprar casas, umas atrás das outras, para as alugar a turistas.

Para terem uma dimensão aproximada do fenómeno: o meu prédio tem oito apartamentos. Quatro, entre os quais os dois que estavam a ser remodelados hoje de manhã, são arrendados a turistas. Quatro de oito. Quatro, por acaso, é também o número de folhetos de agências imobiliárias a perguntar se queria vender a “minha” casa, que já encontrei na caixa do correio. Também há agências que preferem deixar um molhinho nas escadas. Parece mesmo um ataque concertado.

Ora eu até gosto de estrangeiros, por princípio gosto de gente e de gente diferente, e até gosto de que os estrangeiros gostem de Lisboa, embora não possa ter escapado a ninguém que more no centro histórico que o crescimento do número de turistas em Lisboa está a acontecer de forma algo descontrolada (a Baixa, por exemplo, qualquer dia é constituída apenas por hotéis) e que um crescimento deste tipo não tem só consequências positivas, como o demonstram as experiências de outras cidades.

Mas preocupo-me. Preocupo-me porque, com excepção da Mouraria, onde o projecto de renovação se preocupa igualmente com a fixação das populações residentes, arriscamo-nos a reservar a Lisboa Histórica aos turistas, para seu usufruto exclusivo, como se fosse um parque temático e não uma cidade viva. O que é mau para a cidade, porque uma cidade equilibrada não é fragmentada, não devia ter zonas de trabalho, zonas de moradores e zonas turísticas separadas umas das outras (*), nem é estratificada, não devia expulsar as populações mais pobres para guetos nas periferias – duas tendências que já eram problemáticas em Lisboa e que estão a agravar-se com este desenvolvimento.

Mas, para além disso, é mau para o turismo – cada vez mais os turistas se interessam pela vida local, pelos bairros, restaurantes e cafés. Ainda existe o turismo “maratona de monumentos”, e ainda tem expressão em Lisboa mais que não seja pela quantidade de navios de cruzeiro que chegam regularmente, mas estas pessoas que procuram apartamentos locais claramente vêm à procura de uma experiência diferente.

E essa experiência está ameaçada, pelo menos em Alfama: metade das lojas, restaurantes e cafés foram pensadas exclusivamente para turistas, bifinhos aux champignons (nas mais diversas grafias) por meia fortuna acompanhados de um fado manhoso, recuerdos, tapas e petiscos gourmet, recuerdos, galões pelo quádruplo do preço normal, recuerdos, sardinhas de Janeiro, recuerdos, recuerdos, recuerdos. As velhinhas, cansadas de ver passar excursões, estão a ficar com menos vontade de aparecer nos feeds de Instagram dos outros. Metade do meu prédio já é habitado, de forma irregular, por turistas, muitos outros estarão em situação semelhante.

E os senhorios, ou me engano muito, ou não vão sequer usar a lei das rendas para trocar a população de Alfama por uma outra economicamente mais capaz: porque é que alguém há-de alugar uma casa por quatrocentos, quinhentos ou seiscentos euros por mês, com obrigatoriedade de passar recibos, quando pode alugar a mesma casa por 100€ por noite, fugindo aos impostos, e até pode subcontratar a coisa a uma agência que tem o trabalho todo por ele?

Resultado: um dia destes, os turistas chegam a Alfama, ou à Baixa de Lisboa, e percebem que estão ali a olhar uns para os outros. E, às tantas, depois, vão-se embora.

E com isto volto à comparação com Berlim, uma cidade com um mercado de arrendamento vital que o viu repentinamente muito reduzido e significativamente encarecido. O que fizeram? Regularam fortemente o Airbnb e amigos. Como aliás também Paris e Nova Iorque. E nós? Nós também ainda vamos a tempo, se formos rápidos.

 

(texto publicado originalmente no blog http://infernocheio.blogspot.pt)

 

(*aliás, devia estudar-se, já e antes que seja tarde de mais, os efeitos da retirada dos ministérios do Terreiro do Paço. Claro que fez sentido abrir esplanadas no andar de baixo, mas dizer que ter pessoas a trabalhar naqueles edifícios é “um desperdício” é para mim muito típico de uma lógica muito pobrezinha, muito saloia, muito “roupa de domingo”, em que o melhor da cidade tem de ser para os outros, e para aqueles de entre os outros que os possam pagar. O comércio da Baixa, a vida da Baixa, a restauração da Baixa, depende da existência de pessoas que lá vivam e lá trabalham – e a esse respeito, pelo menos, a Baixa está claramente moribunda. E a mim parece-me que a lei das rendas não explica tudo)

  • Ana Águas
    Responder

    As cidades não são para as elites! Da “airbnbização” de Alfama http://t.co/YkC4veRUGE

  • Ana Rita Vozone
    Responder

    não acho que o corvo seja o blog mais coerente. o artigo do mês passado é um exemplo do tipo de gentifricação / metamorfose para “bairro cool” que agrada a este blog e que, na minha opinião, representa muito mais a ameaça de gentifricação desenfreada que se verificou em berlim (e londres, e NY etc). gentifricação essa que ameaça subir almirante reis acima e descaracterizar o que ainda resta de uma lisboa não-playground. mas estou totalmente de acordo com este artigo em concreto. deviam denunciar as agências imobiliárias que recorrem às tácticas de marketing agressivo referidas no texto.

  • Vanessa Marques
    Responder

    Da “airbnbização” de Alfama http://t.co/2RPKpFWqCt

  • andreia m. pereira
    Responder

    de lisboa ao porto – vamos ser centros históricos para turista (vi)ver? http://t.co/lvGZm97zq4

  • Jose Amaro
    Responder

    Ora estamos insatisfeitos porque não reabilitamos, ora estamos insatisfeitos por estão a reabilitar… Lá diz o ditado aquela gente nem se governa, nem se deixa governar!!!

  • Alexandre Nunes
    Responder

    O ponto não é a reabilitação mas a ausência de gestão estratégica (leia-se equilibrada) da cidade que está próxima de se tornar num parque temático e, logo, ainda menos sustentável. Não será por acaso que se fala de aumentos de impostos para 2015 apesar das cascatas de turistas. Enquanto Lisboa não for boa para viver e trabalhar corremos o risco de ser boa para coisa alguma. Moro em Alfama e subscrevo o retrato. No meu prédio, com 8 apartamentos tens 2 para aluguer a estrangeiros… É melhor que estarem vazios mas há barulho e confusão que perturba os residentes.

  • nuno
    Responder

    Não concordo com o texto. Se não fosse o investimento, Muito provavelmente, e sem estrangeiros a gastar dinheiro nas tascas, não havia casa que resistisse.

  • Joāo Ribeiro
    Responder

    Excelente ponto em zoom out! Este pensamento estratégico faz falta e não é de todo bairrismo ou provincianismo, faz todo o sentido este artigo! Devemos pensar a curto e a longo prazo, e procurar uma forma de “airbnbzar” de forma sustentável, por exemplo, revertendo parte dos ganhos deste tipo de sistema para a fixacao de residentes: senhorio aluga via airbnb, senhorio paga imposto, imposto reverte para bairro e residencia permanente, repeat! E bom para todos, senao qualquer dia ha um mega crash de imobiliario em alfama.

  • Andre G. Mendes
    Responder
  • Sofia
    Responder

    A história de amor entre Lisboa, tapumes e andaimes tem muitas décadas. Só quem nunca viveu em Alfama tem a impressão que estes elementos são novidade. Há muito tempo que a população de Alfama não é apenas local e ainda bem, porque é um bairro com tendências de gueto brutais. A mim o que me chateia é já não poder apanhar o eléctrico 28 como um simples transporte público desde que se tornou o maior carrocel da península. Em relação às casas, não tenho que me preocupar com o dinheiro que os outros fazem, eu nem tenho casa própria…e se tivésse aproveitaria a oportunidade de ter um rendimento extra livre dos impostos que nos cobram este bando de chulos governamentais!

    • André
      Responder

      Aplaudo o seu comentário!

  • Rita Agualuza
    Responder

    O artigo tem o seu ponto de vista o qual deveríamos reflectir ainda assim não quero deixar de referir que antes da “airbnbizacao” Alfama começou a ser ocupada por Brasileiros (talvez por os apartamentos serem baratos pela sua degradação) onde as festas de Santo Antônio passaram a ter música brasileira em vez da música típica dos Santos Populares…, Alfama começou a ser ocupada também por indianos que montaram os seus negócios como mini mercados (não entendo como este tipo de negócios faz sentido para os Indianos e não para os Portugueses que fecharam as sua mercearias).
    A desertificacao de Lisboa não e de agora já vem de há muitos anos, por se ter tornado numa cidade com poucas condições para se viver com qualidade, menos mal que o aumento de turismo veio não só despertar um negócio que está a lavar a cara da nossa cidade como também veio renascer zonas da nossa cidades que estavam atiradas ao abandono, como a Baixa por exemplo. Todos nós sabemos que Lisboa tem centenas de prédios degradados e centenas de prédios devolutos e sinceramente não sei onde íamos parar se não fossem os turistas a despertar os Lisboetas para voltarem a acreditar na nossa cidade que pessoalmente considero uma das mais bonitas do mundo.
    Todos os negócios tem os seus ponto positivos e negativos acredito que os negócios relacionados com o turismo deveriam ser regulamentados para o mercado se ajustar naturalmente ainda assim não acredito que vai ser esta situação que vai trazer portugueses a viver na nossa cidade pois existe muito a fazer nessa área.
    Ps. Folhetos de agências imobiliárias a solicitar para vender o meu apartamento também eu tenho na minha caixa de correio e eu vivo numa zona 100% residencial! parece-me que e mais uma moda…

    • José Branco
      Responder

      A culpa é sempre dos “outros” nesta curta visão xenófoba contra indianos e brasileiros. Não será então “culpa” dos ricos proprietários portugueses que, como qualquer outro no mundo, vendem ou arrendam seus imóveis a quem pagar mais? A Lisboa pós 74 já não era a mesma do fim da monarquia, basta lermos sobre a “evolução” urbanística da cidade para ver que estes fenómenos são cíclicos e mesmo inevitáveis.

  • António A.Coutinho
    Responder

    Aliás e sobre este crescimento descontrolado deste tipo de turismo é por de mais evidente que a Câmara municipal não está preparada nem tem capacidade de resposta, no que diz respeito a limpeza e recolha de lixos na via pública. Em todos os bairros históricos, nos moradores acordamos com a cidadezinha nojenta, lixo aglomerado, caixotes espalados pelas ruas e um cheiro insuportável a urina…Lisboa deixou de ser prioridade para António Costa, que ” não fode nem saí de cima” deixando um vazio na gestão da cidade. Diz o povo “pela boca morre o peixe” e assim, o turistas na mesma rapidez que cheram, partem se voltar e lá se vai esta galinha…

  • LeoLeo
    Responder

    Da “airbnbização” de #Alfama #gentrificação #Lisboa http://t.co/RdWJ2RBIiF

  • Paulo Albuquerque
    Responder

    Lisboa precisa da renovação urbana… desesperadamente! Em Alfama repete-se o paradigma clássico de muitos prédios em Lisboa, o edifício em ruínas, onde vivem escassos inquilinos a pagar rendas congeladas no tempo. Infelizmente se calhar essas pessoas vão ter dificuldade em encontrar um sítio para ficar, mas o problema não tem nada a ver com o “airbnb” tem a ver com a falta de poder de compra de uma fatia importante da população. Cada vez mais os jovens estão a escolher viver no centro da cidade, e isso é extremamente positivo. Que existam espaços comerciais, óptimo! Se calhar o Samuel que escreveu o artigo prefere os prédios em ruínas e as lojas de chineses? Que se mude para os subúrbios onde os turistas não o vão incomodar.

    • Samuel Alemão
      Responder

      Bom dia. O texto está assinado. E não foi por um “Samuel”, que foi quem o colocou online. O texto é de Rita Dantas, como se percebe logo no início do texto. Se ler com atenção, pode reparar nisso. Obrigado. Samuel

  • Carmen Correia
    Responder

    #Lisboa #centrohistórico #problemas? http://t.co/D0NdxoRlUv

  • Menina Limão
    Responder

    Da “airbnbização” de Alfama (ou como a Rita Dantas é uma senhora): http://t.co/ybkluSvgox (cc @majoliv)

  • jose relvas
    Responder

    Alfama: o grande negócio. http://t.co/2EhgbkXqN4

  • Sérgio Gaspar
    Responder

    Há 8 anos comprei uma casa na Costa do castelo. Na altura 8 apartamentos com vizinhos que ali viviam. Foram saindo aos poucos e aos poucos compradas as casas por estrangeiros que as adquiriram para fazer negócio. Hoje dos 8 apartamentos, 5 estão alugados a turistas. O nosso prédio é um edifício sem vida própria, com problemas de ruído fora de horas e a dias de semana quando menos de metade do prédio tem que acordar cedo para ir trabalhar. Todas as semanas há malas que sobem e descem, riscos nas paredes, portas que batem às 5 da manhã aos Domingos para apanhar aviões e aspiradores a limpar às 7 da manhã porque há novo checkin às 9h! Podia aqui enumerar dezenas de episódios pouco simpáticos sobre o que é viver numa Pensão. Vamos em breve ter uma reunião de condomínio exatamente devido ao estado a que se chegou. Eu, pessoalmente já não me apetece viver aqui. É este o caminho que as coisas tomam.

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