Da “airbnbização” de Alfama

CRÓNICA
Rita Dantas

Texto & Fotografia

URBANISMO

Cidade de Lisboa

19 Junho, 2014


Hoje, quando descia as escadas do prédio, cruzei-me com obras em dois apartamentos. Nada de estranho, Alfama neste momento parece-se francamente com Berlim no início dos anos 2000, obras e andaimes por todo o lado (também temos um restinho de muromuralha e centenas de estrangeiros diferentes todos os dias).

À partida, isto são boas notícias, havia e há muitas casas em más condições e prédios lindíssimos a cair literalmente aos bocados. Mas assustam-me, por um lado, os riscos sociais da gentrificação (quantos dos actuais moradores de Alfama poderão pagar as novas rendas destas casas restauradas, quantos dos seus filhos conseguirão ficar no bairro? Alfama sem a população residente ainda era Alfama?) e, por outro lado, um risco ainda maior: o da airbnbzação.

O ano passado, por curiosidade, fui ver por quanto dinheiro estava a ser alugada à noite uma casa em Alfama com vista de Tejo no Airbnb, o mais popular de uma série de sites que alugam apartamentos nos centros das cidades, permitindo aos turistas ficarem em apartamentos em zonas residenciais, poupando dinheiro e conseguindo uma experiência mais próxima vida dos “locais” – locais esses que arrendariam as suas casas por uns dias, conseguindo assim também algum dinheiro extra.

Na altura, fiquei espantada com a quantidade de casas que encontrei, parecia que metade de Alfama estava disponível para short-time rentals. Mas depois fui percebendo o que estava a acontecer: não eram locais a alugar as suas casas ou um ou dois quartos por algumas noites. Eram investidores a comprar casas, umas atrás das outras, para as alugar a turistas.

Para terem uma dimensão aproximada do fenómeno: o meu prédio tem oito apartamentos. Quatro, entre os quais os dois que estavam a ser remodelados hoje de manhã, são arrendados a turistas. Quatro de oito. Quatro, por acaso, é também o número de folhetos de agências imobiliárias a perguntar se queria vender a “minha” casa, que já encontrei na caixa do correio. Também há agências que preferem deixar um molhinho nas escadas. Parece mesmo um ataque concertado.

Ora eu até gosto de estrangeiros, por princípio gosto de gente e de gente diferente, e até gosto de que os estrangeiros gostem de Lisboa, embora não possa ter escapado a ninguém que more no centro histórico que o crescimento do número de turistas em Lisboa está a acontecer de forma algo descontrolada (a Baixa, por exemplo, qualquer dia é constituída apenas por hotéis) e que um crescimento deste tipo não tem só consequências positivas, como o demonstram as experiências de outras cidades.

Mas preocupo-me. Preocupo-me porque, com excepção da Mouraria, onde o projecto de renovação se preocupa igualmente com a fixação das populações residentes, arriscamo-nos a reservar a Lisboa Histórica aos turistas, para seu usufruto exclusivo, como se fosse um parque temático e não uma cidade viva. O que é mau para a cidade, porque uma cidade equilibrada não é fragmentada, não devia ter zonas de trabalho, zonas de moradores e zonas turísticas separadas umas das outras (*), nem é estratificada, não devia expulsar as populações mais pobres para guetos nas periferias – duas tendências que já eram problemáticas em Lisboa e que estão a agravar-se com este desenvolvimento.

Mas, para além disso, é mau para o turismo – cada vez mais os turistas se interessam pela vida local, pelos bairros, restaurantes e cafés. Ainda existe o turismo “maratona de monumentos”, e ainda tem expressão em Lisboa mais que não seja pela quantidade de navios de cruzeiro que chegam regularmente, mas estas pessoas que procuram apartamentos locais claramente vêm à procura de uma experiência diferente.

E essa experiência está ameaçada, pelo menos em Alfama: metade das lojas, restaurantes e cafés foram pensadas exclusivamente para turistas, bifinhos aux champignons (nas mais diversas grafias) por meia fortuna acompanhados de um fado manhoso, recuerdos, tapas e petiscos gourmet, recuerdos, galões pelo quádruplo do preço normal, recuerdos, sardinhas de Janeiro, recuerdos, recuerdos, recuerdos. As velhinhas, cansadas de ver passar excursões, estão a ficar com menos vontade de aparecer nos feeds de Instagram dos outros. Metade do meu prédio já é habitado, de forma irregular, por turistas, muitos outros estarão em situação semelhante.

E os senhorios, ou me engano muito, ou não vão sequer usar a lei das rendas para trocar a população de Alfama por uma outra economicamente mais capaz: porque é que alguém há-de alugar uma casa por quatrocentos, quinhentos ou seiscentos euros por mês, com obrigatoriedade de passar recibos, quando pode alugar a mesma casa por 100€ por noite, fugindo aos impostos, e até pode subcontratar a coisa a uma agência que tem o trabalho todo por ele?

Resultado: um dia destes, os turistas chegam a Alfama, ou à Baixa de Lisboa, e percebem que estão ali a olhar uns para os outros. E, às tantas, depois, vão-se embora.

E com isto volto à comparação com Berlim, uma cidade com um mercado de arrendamento vital que o viu repentinamente muito reduzido e significativamente encarecido. O que fizeram? Regularam fortemente o Airbnb e amigos. Como aliás também Paris e Nova Iorque. E nós? Nós também ainda vamos a tempo, se formos rápidos.

(texto publicado originalmente no blog http://infernocheio.blogspot.pt)

(*aliás, devia estudar-se, já e antes que seja tarde de mais, os efeitos da retirada dos ministérios do Terreiro do Paço. Claro que fez sentido abrir esplanadas no andar de baixo, mas dizer que ter pessoas a trabalhar naqueles edifícios é “um desperdício” é para mim muito típico de uma lógica muito pobrezinha, muito saloia, muito “roupa de domingo”, em que o melhor da cidade tem de ser para os outros, e para aqueles de entre os outros que os possam pagar. O comércio da Baixa, a vida da Baixa, a restauração da Baixa, depende da existência de pessoas que lá vivam e lá trabalham – e a esse respeito, pelo menos, a Baixa está claramente moribunda. E a mim parece-me que a lei das rendas não explica tudo)

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