Um grupo de voluntários, liderado pela coreógrafa Vera Mantero, começou a plantar hortas urbanas, entre o Campo Pequeno e a Avenida de Roma. Além de produzir legumes, a ideia é fazer nascer um espectáculo e suscitar o debate sobre a sustentabilidade alimentar. E, no fim, fazer uma sopa.

 

Texto: Samuel Alemão

 

De rosto banhado pelo sol forte do final de tarde, dois polícias de óculos de sol estão encostados às redes, do lado de lá, imóveis, como se estivessem presos. Curiosos pelo espectáculo a decorrer no terreno baldio situado ao lado do parque de viaturas apreendidas na Avenida Sacadura Cabral, os agentes da PSP admiram a estoicidade dos voluntários que, sob um calor inusual para época, tentam montar uma estrutura que há-de servir como os arrumos das ferramentas. Minutos depois, quebram os eventuais pruridos de protocolo, atravessam a rede e ajudam-nos na assim não tão fácil tarefa. Ou outros vão arranhando a terra, limpando-a da vegetação selvagem e fazendo marcações, antes de começar a cavar.

Os primeiros passos do projecto Um Horta em Cada Esquina, que até 29 de Junho planeia cultivar e manter quatro hortas na zona compreendida entre o Campo Pequeno e a Avenida de Roma, foram dados ontem, ao final da tarde. Uma dezena de participantes, com a convicção e o empenho suficientes para dar aos momentos iniciais da iniciativa um simbolismo inequívoco – embora o total de voluntários envolvidos seja, na verdade, de meia-centena. Acção de activismo ecológico-urbano enleada numa intervenção artística, a conceber pela bailarina e coreógrafa Vera Mantero, a bailarina Elisabete Francisca e pelo arquitecto Rui Santos, pretende levar a comunidade a reflectir sobre a forma como se produzem e consomem os alimentos, alertando para as consequências ambientais, sociais e políticas das nossa decisões individuais e colectivas.

A ideia passa por levar grupos de cidadãos a aprender a cultivar os seus próprios alimentos, participando na execução das hortas. A agricultura urbana é uma tendência crescente, mas ainda quase tudo está por fazer, se se pensar na massificação do consumo agro-alimentar. “Ouvimos todos falar destas questões das alterações climáticas e das consequências ambientais que acarretam. Mas sentimos que é muito difícil fazer coisas no nosso dia-a-dia, pois todos vamos ao supermercado fazer compras. Quisemos, com esta acção, pôr mãos à obra e fazer alguma coisa, pois sentimo-nos todos muito impotentes”, explica Vera Mantero, sentada numa pedra, entre vegetação a denunciar o abandono do terreno.

 

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Vera Mantero sorri com a perspectiva da evolução dos trabalhos na nova horta urbana.

 

É ela a mentora desta acção, juntamente com a bailarina Elisabete Francisca e o arquitecto Rui Santos – dois dos que ontem andavam à volta das folhas com as instruções para montar a tal estrutura metálica, junto ao parque da polícia. Idealizaram o projecto, que há-de dar legumes vários, ingredientes de uma futura sopa colectiva, e também um cenário onde se conceberá uma intervenção artística intitulada “Mais Pra Menos Que Pra Mais”. Acontecerá entre 25 e 29 de Junho e será antecedida de um conjunto de actividades relacionadas com a agricultura urbana – a 24 e 25 de Junho, por exemplo, ocorrerá um “mini-congresso” sobre o tema, no Teatro Municipal Maria Matos.

O terreno privado, localizado entre a Sacadura Cabral a Rua de Entrecampos e a linha de cintura ferroviária da capital, é administrado pelo fundo de investimento ESAF, do grupo BES. Está em baldio há muito e foi emprestado para esta iniciativa, uma co-produção do Maria Matos e da Culturgest, liderada por de Vera, Elisabete e Rui e que conta com o apoio da câmara e do Movimento de Comerciantes do eixo Guerra Junqueiro/Praça de Londres e Avenida de Roma. Esta é a maior horta do projecto, mas há mais três, duas delas funcionam no edifíco da Culturgest – uma no terraço e outra no lago. Nelas, além do crescimento dos legumes, ocorrerão “visitas semi-encenadas”.

Mas para quem acredita no poder simbólico das imagens e, mais especificamente, das paisagens, não precisa de esperar pela criação artítica. O entorno escolhido para a implantação da horta ganha especial força cenográfica pela massa compacta de prédios, ao fundo, e entre eles e o terreno, pela passagem quase ininterrupta de comboios. Urbanos, suburbanos, regionais e alfas pendulares são como que elementos dinâmicos do quadro que se começa a desenhar. A reiteração constante do urbano. “Há aqui uma simbologia especial, pois foi com o comboio que se passou a massificar o afastamento da produção da comida das cidades. Estamos aqui quase que em desafio ao comboio”, diz, antes de dar uma gargalhada.

A ela juntam-se voluntários, maioritariamente jovens, com mais ou menos conhecimentos da labuta agrária. Mas com igual vontade de fazer coisas. Júlio Teixeira, 22 anos, é estudante de biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ao Campo Grande, onde participa na horta comunitária lá existente. “No ano passado, não éramos bem vistos, toda a gente olhava com desconfiança, mas acabámos por ser compreendidos”, explica Júlio, rapaz de barba preta e voz de calma apaziguadora, que vai desfiando a enorme experiência que já tem no amanho da terra, apesar da idade. Viveu no Perú e no México e lá também trabalhava com a enxada. Tal como agora. Há ali muito terreno para desbravar e cultivar.

 

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Tarefa que não é assim tão simples. Caberá a Júlio, mas também a Daniel Garcia, 30 anos, espanhol de Madrid, ajudarem a fazer as coisas acontecerem. Daniel está cá há dois anos, é educador social, usulamente trabalha com crianças, mas agora está desempregado. Quer, no entanto, pegar nas práticas da agricultura citadina para desenvolver actividades com os miúdos. E acha que Lisboa até não fica a dever nada à capital espanhola neste campo. “Aqui há muitos pátios, existe mais espaço, por isso a cultura das hortas é maior”, assegura ao Corvo o agricultor urbano, de t-shirt vermelha e brinco numa das orelhas. Daniel é um dos responsáveis pela horta do Clube Nacional de Natação, em São Bento.

O que ele não sabe é que, ao seu lado, uma outra voluntária, de pose muito mais cuidada tem planos semelhantes aos seus. E não tarda estão a discuti-los. Bárbara Claustro, 29 anos, de impecável chapéu de palha, óculos de sol redondos e sandálias, também quer desenvolver os seus conhecimentos de cultivo – bem menores que os de Daniel – e integrá-los em actividades pré-escolares, incentivando a actividade física das crianças. Igualmente desempregada, Bárbara regressou em Setembro de uma temporada de quatro anos em Londres, onde estudou artes, com uma bolsa da Gulbenkian, e trabalhou. Mas fartou-se da metrópole britânica e regressou. Agora, só quer ficar em Lisboa e lançar sementes à terra. Alguma coisa há-de nascer.

 

* Texto corrigido e actualizado às 21h40 de 15 de Maio

 

Estão previstos pelo menos dois workshops:

– 24 de Maio – workshop de construção, das 10h00 às 13h30 e das 14h30 às 19h30.

– 25 de Maio – workshop de plantação, das 10h00 às 13h30 e das 14h30 às 19h30.

A partir de dia 25 de Maio, a manutenção será feita todos os dias, incluindo fins de semana, até ao final de Junho, das 9h00 às 11h00 e das 19h00 às 21h00.

Mais informações: 963812638

umahortaemcadaesquina@gmail.com

https://sites.google.com/site/umahortaemcadaesquina/

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