Por causa das obras na Ribeira das Naus, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu desligar os semáforos em diversos pontos da Baixa, para “facilitar a fluidez do trânsito”. Em consequência, a sinistralidade num dos pontos nevrálgicos daquela área aumentou de forma significativa – mas também por culpa do ignorar da regra da prioridade. Os choques são tantos que até já há quem faça o seu registo fotográfico diário.

 

Texto: Samuel Alemão

 

É tão previsível que até chega a surpreender. “Os acidentes, aqui, são dia sim, dia sim”, graceja Mário Parreira, 80 anos, dono desde 1968 de uma casa de componentes eléctricos, situada na parte inferior da Rua da Madalena, junto ao cruzamento com a Rua da Conceição. Local onde os acidentes de viação começaram a acontecer de forma quotidiana, desde que os semáforos foram desligados pela Câmara Municipal de Lisboa, há alguns meses, como forma aumentar a fluidez do trânsito. Uma situação provisória, enquanto os automóveis não voltam a transitar pela renovada Ribeira das Naus.

 

Até que isso volte a acontecer, e ao invés da desejada facilidade de circulação, assiste-se a um cenário onde a casuística, a persistência dos condutores e a pura sorte ou azar parecem regular a transposição daquele ponto. Os choques, que ali ocorrem com uma frequência quase diária, têm quase sempre como protagonistas os automóveis que fazem os sentidos ascendentes de ambos os arruamentos. Nesta quarta-feira (6 de Agosto), já tinham ocorrido duas colisões até à hora do almoço, garantiam, por volta das 17 horas, Mário Parreira e o seu funcionário. Eles já perderam a conta ao número de colisões, toques e travagens bruscas naquele local. Para não falar das apitadelas constantes.

 

Uma realidade confirmada por Rui Brito, funcionário da casa de venda de tintas situada no lado oposto, no Largo da Madalena. À porta da loja, enquanto não entram os desejados clientes, Rui tem outro passatempo, para além de ver passar os muitos turistas que, de forma ininterrupta, sobem em direcção ao Castelo e descem para a Baixa. Está num ponto de observação privilegiado “dos acidentes que acontecem quase todos os dias, desde o início do ano”. “Isto começou quando desligaram os semáforos”, explica Rui.

 

O lojista concorda que, numa situação como esta, em que os semáforos não cumprem a sua função – na verdade, estão não estão desligados, mas sim com o amarelo intermitente, o que vai dar ao mesmo -, os condutores deveriam fazer a transposição do cruzamento cumprindo a regra da prioridade. Ou seja, quem se apresenta pela direita, no caso os carros que sobem a Rua da Madalena, tem prioridade face aos que fazem a ascensão da Rua da Conceição. “O problema é que as pessoas não respeitam a regra e, ainda por cima, os que sobem a Rua da Madalena vão sempre a grande velocidade”, afirma.

 

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O mesmo diagnóstico faz Miguel Coelho, o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior. “O problema é que quem sobe a Rua da Madalena parece ter tendência em acelerar. O que, conjugado com o desrespeito pela cedência de prioridade, pode causar algumas dessas situações”, diz o autarca, salientando, porém, não ter conhecimento de uma “tão grande” sinistralidade naquele local. “Dizer que há acidentes todos os dias parece-me manifestamente exagerado. Não tenho registo de queixas na junta”, diz Miguel Coelho, antes de frisar que a gestão dos semáforos nem é uma competência da edilidade por si liderada.

 

A mesma é da câmara, a quem Miguel Coelho diz já ter alertado para a eventual perigosidade do actual quadro. E apesar de desvalorizar a recorrência dos sinistros, o presidente da junta acaba por admitir que “é um sítio de risco”. “Eu próprio já ia levando com um carro em cima, quando ali passava”, afirma. Miguel Coelho diz que, quando colocou a questão, os serviços camarários o informaram do carácter “temporário” desta desactivação do sistema semafórico. Ouviu ainda que a medida havia sido adoptada “para facilitar o escoamento do trânsito, enquanto não estivesse concluída a intervenção na Ribeira das Naus”.

 

O trânsito naquela zona foi cortado a 4 de Abril, e por tempo indeterminado, para que se procedesse à finalização das obras de requalificação daquele troço da zona ribeirinha – o que veio a acontecer no passado dia 13 de julho. A partir daquela data, os automóveis passaram a circular pelas ruas do Arsenal e da Alfândega – uma opção que, conjugada com a deliberada alteração no funcionamento normal dos semáforos em muitos cruzamentos, tem contribuído para transformar a circulação viária na Baixa numa experiência muito pouco recomendável. O trânsito automóvel na Ribeira das Naus, anunciou recentemente a CML, será retomado em Setembro, mas “com muitas restrições”. Ou seja: o mesmo apenas acontecerá durante os dias de semana dos períodos escolares. Aos fins-de-semana e nas férias, a zona será só para peões.

 

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Mas, até lá, continua por resolver o imbróglio do cruzamento das ruas da Madalena e da Conceição. Os acidentes serão tantos e tão frequentes que até há moradores – como uma leitora do Corvo, que preferiu manter o anonimato – que acharam melhor começar a fazer um registo fotográfico de todos os que ali ocorrem – são dela as imagens que documentam dois dos acidentes ocorridos nos últimos dias. É que, muitas vezes, contado ninguém acredita. “Não percebo porque não actuam. Isto não faz sentido”, diz a munícipe, esclarecendo que – e contrariando as palavras de Miguel Coelho – já alertou a junta de freguesia para a perigosidade da situação.

  • Nuno Rebelo
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Cruzamento das ruas da Madalena e da Conceição com acidentes diários – http://t.co/dJ73oSA2Mr

  • Artur C. Margalho
    Responder

    As “costices” nunca mais param

  • Ricardo Ferreira
    Responder

    O problema não são os semáforos desactivados. O problema é a habitual forma selvagem como se conduz em Portugal: velocidade excessiva e ignorância das regras (como é reconhecido por alguns dos testemunhos).
    Uma solução é colocar semaforos a cada 100 metros, em todas as ruas e estradas do país, outra é punir severamente os infractores que, num local como o do artigo, colocam em perigo a vida de muita gente.

  • Sofia Coelho
    Responder

    O problema aqui, para além dos semáforos sempre no intermitente, são os carros que viram para a esquerda (R. da Madalena) vindos da R. da Conceição (onde está o táxi na imagem).
    É proibido e tem originado imensos acidentes também!

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