Sobreviventes de um tempo em que o estado implementava medidas higienistas e de saúde pública, os balneários colectivos de Lisboa eram vistos, até há pouco tempo, como coisa a cair em irremediável desuso. Até que as actuais agruras económicas os tornaram outra vez procurados por muita gente.

 

Texto: Mário de Carvalho

 

“É uma dor da alma vê-los chegar”. A afirmação de Maria Ana, responsável do Balneário da Mouraria, reflete a angústia e o desespero perante o aumento dos sem-abrigo que, pela manhã, frequentam as instalações deste local para cuidar da sua higiene. “Eles chegam, por vezes, num estado que faz dó”, insiste Maria Ana, são-tomense de ascendentes cabo-verdianos, que desde 2009 vai tratando de minorar os devastadores efeitos da crise económica entre os mais desfavorecidos.

Um levantamento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa divulgado este ano revela que existem na cidade mais de 800 sem-abrigo, dos quais a maioria homens (87%) com idades entre os 35 e os 54 anos.

O Balneário de Mouraria, inaugurado a 30 de setembro de 1989, pelo então presidente de autarquia, Nuno Abecassis, é um dos mais “sensíveis” dos 22 existentes na capital. “Isto aqui aparece um pouco de tudo e, com a crise, começa a vir gente que já não tem dinheiro para pagar a conta da água. São pessoas de meia-idade e reformados”, explica Maria Ana.

O contacto diário de Maria Ana com os utentes do balneário permite-lhe um conhecimento das realidades sociais da população nesta zona da cidade. Com uma média diária de 20 banhos, disponibiliza ainda um serviço gratuito de lavagem de roupa: “A máquina começa a trabalhar às 9h00 e só termina às 17h00”. Os custos ficam a cargo de Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

Aos mais necessitados, o balneário tem ainda roupa limpa e engomada para entregar e fornece-lhes toalha e sabão azul – uma prática replicada pela maioria dos restantes balneários.

 

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Maria Ana é a responsável pelo funcionamento do balneário que serve o bairro da Mouraria.

 

Ricardo, 39 anos, um dos sem-abrigo que, “às vezes”, vai aos balneários, passa as suas noites na zona da Avenida Almirante Reis, onde dorme: “com os meus cobertores de cartão”. Não fala muito, mas sempre explica que está desempregado e conhece bem esta região da cidade, pois estudou no Instituto Superior Técnico.

Em Alcântara, num dos balneários mais procurados da cidade, com uma média de 500 banhos semanais, é visível a degradação das instalações – já visitadas por técnicos de Câmara Municipal de Lisboa, mas até agora sem qualquer efeito prático na sua recuperação.

“Isto não está com bom aspecto, mas sempre temos água quente e champô para nos lavarmos”, refere o jovem Carlos Martins, que costumava utilizar o balneário municipal de Xabregas. Contudo, “estou agora a trabalhar numa obra aqui a perto. Por isso, venho aqui”, explica.

Vítor Peito, que conhece bem os “clientes” do balneário, nota que, nos últimos anos, com a agravar da crise social, as pessoas do bairro começaram a utilizar mais as instalações. “Tanto homens como mulheres, embora no caso das senhoras nota-se um pouco mais de constrangimentos em entrar. Passam junto à porta várias vezes e só depois vêm perguntar como funciona. O balneário das senhoras é no piso de cima e recebem, como os homens, champô ou sabão e, se precisarem, também damos roupa. Não se paga nada”.

Em tom de desabafo, Vítor Peito diz: “As pessoas já não têm capacidade para pagar as contas da água e luz e mal têm dinheiro para comer. Isto nota-se que piorou nos últimos dois, três anos”.

Funcionando de terça a domingo, das 7h30 às 12h30, e encerrando aos feriados, o balneário de Alcântara, numa gestão assegurada pela junta de freguesia local, dispõem de um regulamento próprio, aprovado em 2011, onde num dos artigos se pode ler que os utentes devem fazer “uso prudente da água”.

“As pessoas, em geral, não abusam. Aqui, o gasto principal é a compra do gasóleo para a caldeira para termos água quente”, esclarece Vítor Peito. O balneário construído na década de 30, no período de Estado Novo, e a necessitar de obras de recuperação, está entretanto a ser alvo de estudo por parte de Universidade Nova de Lisboa, para a caracterização dos seus utilizadores.

Dados publicados em 2007 indicam que cerca 60 por cento dos seus utilizadores não são residentes da freguesia. Estimava-se, então, que neste balneário se servia banhos gratuitos a 300 homens e a 170 mulheres por semana.

 

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Mas, enquanto Alcântara espera por uma intervenção de recuperação, no balneário da Rua de Santa Cruz do Castelo, ao lado da escola do 1º Ciclo do Ensino Básico, a reabilitação está em curso, com obras a decorrer em plena zona histórica do Castelo São Jorge, e em período de grande afluência turística (Agosto). O alvará da obra, porém, não está colocado no local, apesar de existir um processo na câmara desde 2012.

Os moradores da rua estranham que as obras em curso tenham como objectivo a reabilitação do balneário, uma vez que não é frequentada pelos sem-abrigo, nem pessoas carenciadas, sublinhando tratar-se duma zona turística de excelência, onde já não faz sentido a existência de um balneário municipal.

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