O uso da bicicleta como meio de transporte na cidade tem crescido bastante, nos últimos anos. Misto de moda, tomada de consciência ambiental, opção economicamente correcta ou puro gozo,  as duas rodas parecem ter vindo para ficar. Já há maior respeito por parte dos automobilistas, mas o que dava jeito mesmo eram ciclovias bem concebidas.

 

Texto: Sérgio Alves  Ilustração: João Concha

 

Lisboa está a mudar e uma das grandes transformações é a forma como os alfacinhas se deslocam para o trabalho, para a escola e para as várias zonas da cidade. São as formas de mobilidade “suaves”: andar a pé e especialmente de bicicleta. Nas ciclovias e nas ruas e avenidas da cidade circulam já, diariamente, numerosos ciclistas a caminho da escola, da universidade ou do trabalho.

É o caso de João Gomes, músico e ciclista veterano, que enaltece as vantagens de circular de bicicleta: “há a independência em relação ao trânsito e não há grandes oscilações quanto à duração das viagens. Numa cidade pequena como Lisboa, as distâncias não demoram mais de 20 minutos a fazer”. Para Luís Gregório, diretor-adjunto do Jornal “Pedal”, “ as principais vantagens são a independência do trânsito e o estacionamento”.

A bicicleta começa, pois, a ser um meio de transporte alternativo no quotidiano dos lisboetas, com óbvias vantagens de ordem ambiental e financeira relativamente ao automóvel. “As vantagens são muitas. As pessoas não têm que se preocupar com os combustíveis. Ao reduzir-se a utilização do carro, poupa-se ainda em pneus e em idas à oficina”, sublinha Paulo Vieira, dirigente da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUB), aludindo à gravidade da crise que atravessa a sociedade portuguesa.

Para além disso, a utilização da bicicleta tem ainda características únicas, como salienta Nuno Sota, ciclista e dono da conhecida loja “Roda Gira”: “não existem praticamente sentidos proibidos, mesmo que não consigas circular em sentido contrário, como não o deves fazer, podes desmontar a bicicleta e atravessas com a bicicleta à mão e estás na outra rua ao lado”. Ou, como refere Paulo Vieira: “Acho que há um aspeto muito interessante para quem escolhe andar de bicicleta como adulto, é o lado de reviver a infância”.

Porém, andar de bicicleta na cidade tem igualmente desvantagens, nomeadamente a impossibilidade de transportar pessoas ou bens. “ Obviamente, estás limitado ao transporte. Não consegues transportar o mesmo que transportas com um carro”, lembra Nuno Sota. A questão meteorológica também é apontada como desvantagem da opção pela bicicleta, embora Lisboa tenha um clima bem mais ameno que outras cidades europeias. “Se estiver mau tempo, não dá muito jeito”, admite João Gomes. Ou, como refere Paulo Vieira, “a bicicleta é muito mais limitada. Se eu quiser, por exemplo, ir daqui a Belém, vou demorar um bocadinho…”.

Para este experiente ciclista, a questão da topografia da cidade é um “mito” urbano, dada a possibilidade de escolha de percursos alternativos. “Pode-se dar uma voltinha um pouco maior, mas evitam-se as subidas inclinadas.”

A verdade é que o número de utilizadores tem aumentado do modo significativo. “Está a crescer. Nos últimos dois anos, tem sido sempre a crescer”, diz Paulo Vieira. “Vêem-se mais ciclistas nas ruas e há menos espanto por parte dos automobilistas”, acrescenta João Gomes.

O fenómeno tem sido acompanhado de uma expansão da rede de ciclovias, construída pela Câmara Municipal de Lisboa, nos últimos anos. Prevista desde o ano 2000, a rede já atingiu os 50 quilómetros e deverá aumentar, conforme estabelece o respetivo programa autárquico: “a criação de uma rede de percursos e corredores, que ligue os principais parques e áreas verdes de Lisboa, é um investimento estratégico na área da mobilidade suave e no uso da bicicleta”. A conclusão do corredor verde, a ligar o centro da cidade a Monsanto, aponta nesse sentido.

Os utilizadores não poupam, porém, nas críticas. Nuno Sota considera que “98% das ciclovias são mal construídas”. Luís Gregório refere que “as coisas são feitas de forma atabalhoada” e Paulo Vieira garante que “alguns quilómetros foram claramente mal desenhados, mesmo a nível técnico, com obstáculos constantes”.

A redução do limite de velocidade a 30 km/h, nalguns bairros da cidade, as chamadas zonas 30, parece ir ao encontro das aspirações dos ciclistas, que assim podem circular de forma mais tranquila. “Há soluções – assinala Paulo Vieira -, como as zonas 30, nós não queríamos ciclovias, queríamos zonas 30! Numa zona 30, pode-se andar de bicicleta, a velocidade da bicicleta é entre os 15 e os 30km“. E aponta o caso da ciclovia da Avenida do Brasil como exemplo de falta de estratégia, com as paragens a meio do percurso. A ciclovia pára, desaparece, tem uma paragem e recomeça 50 metros mais à frente… a pessoa tem que mudar de faixa de rodagem e, do outro lado, é que continua a ciclovia”.

Os utilizadores de bicicletas na cidade desejam circular nas principais faixas de rodagem, ao lado dos automobilistas e não encostados aos peões, em pleno passeio público. “Não preciso das ciclovias para circular, desde que ande na estrada e que ninguém me chateie por andar na estrada”, diz Nuno Sota. E Luís Gregório reforça: “existe um novo meio de transporte que ocupa as vias que até aqui só eram utilizadas por veículos motorizados”.

A questão da segurança é fundamental para quem circula na cidade. “O problema – frisa Nuno Sota – é que a maioria das pessoas que conduz não tem qualquer cuidado com quem anda a pé, por isso também não vai ter cuidado com quem anda de bicicleta”. Mais otimista, Paulo Vieira, nota “cada vez mais, uma mudança de atitude. As pessoas são mais tolerantes, têm mais cuidado na ultrapassagem”.

Todos os inquiridos convergem, entretanto, para a necessidade de maior respeito e civismo em relação a quem circula de bicicleta. Maior proteção legal pelo código da estrada e campanhas de sensibilização são medidas apontadas para fomentar uma outra atitude. No que toca ao código da estrada, há alterações em curso – em fase de aprovação na especialidade na Assembleia da República -, que contemplam uma maior proteção dos velocipedistas, nomeadamente a distância dos automóveis em relação às bicicletas nas ultrapassagens, a diminuição de velocidade na aproximação de passagens de ciclistas e peões e a proibição de estacionamento em ciclovias.

As organizações do sector têm desempenhado um importante papel nas alterações ao código e na promoção de campanhas de sensibilização. Tanto Sota como Vieira reconhecem a influência das iniciativas da FPCUB (Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta), da FPC (Federação Portuguesa de Ciclismo) e da MUBI na mudança das normas do código da estrada e na pressão sobre os poderes públicos.

“Acho que o trabalho da MUBI e de outras associações é importante para que as coisas avancem, como foi agora o caso da Avenida de Liberdade. Depois de termos pressionado bastante e com o apoio dos media, acabaram por reconhecer o valor das nossas propostas…”, salienta Paulo Vieira.

A grande questão para os que acompanham de perto esta nova realidade lisboeta é se se está perante uma mudança consistente e profunda, ou se assiste apenas a uma moda, acelerada pela austeridade. Paulo Vieira admite que “tem tudo a ver com a crise. Antes, um jovem fazia 18 anos, tirava a carta e ofereciam-lhe um carro. Agora, não é assim, não há dinheiro para isso. E muitos já perceberam que, para se ir para a faculdade, não é preciso um carro. E, se não quiserem ir de metro, podem usar a bicicleta. Acho que percebem que para viagens dentro da cidade, de quatro ou cinco quilómetros, estão perfeitamente à vontade com a bicicleta. Perceberam que têm mais uma opção”.

Nuno Sota reconhece as vantagens da moda. “Em todas as mudanças de mentalidades houve modas…que seja uma moda, as modas mudam hábitos e isso é o mais importante. A ver vamos …”.

  • mbbl
    Responder

    <3! Crise “acelera” a duas rodas em Lisboa http://t.co/Oa3GajD7uV via @ocorvo_noticias

  • anabananasplit
    Responder

    Dizer que a bicicleta apresenta uma desvantagem face ao carro porque não permite transportar pessoas e bens só mesmo por quem nunca andou numa bicicleta de carga. 🙂 Se eu andar na cidade com um carro de corrida também não tenho muita capacidade de carga. Mas há vários tipos de carros, com diferentes tamanhos e funcionalidades. A mesma coisa acontece com as bicicletas.

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com