Cresce a pressão para reavaliar a criação da Linha Circular do Metro de Lisboa

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Samuel Alemão

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Cidade de Lisboa

15 Maio, 2018

Continuam a multiplicar-se as críticas à decisão de dar prioridade à ligação entre o Rato e o Cais do Sodré e assim criar uma Linha Circular no metropolitano da capital. Não só porque tal implicará o corte da actual Linha Amarela, obrigando ao transbordo no Campo Grande de quem vem da zona norte e de Odivelas e Loures, mas também porque estão por cumprir os planos de expansão à zona ocidental. Alcântara, Ajuda e Campolide precisam muito mais de metro do que Estrela e Santos, dizem os críticos da solução prestes a avançar. Além disso, apontam, a opção não estará devidamente sustentada do ponto de vista técnico, podendo mesmo contribuir para trazer mais carros para a cidade. PSD e Verdes pedem na Assembleia Municipal de Lisboa a suspensão imediata do projecto. Mas o PS não vê razões para tal.

Um ano depois do anúncio da criação da nova Linha Circular do Metro de Lisboa, as críticas ao empreendimento público não cessam. E até sobem de tom. São cada vez mais os que pedem a suspensão imediata do projecto tornado possível através da programada ligação entre o Rato e o Cais do Sodré e da conexão das actuais linhas Amarela e Verde no Campo Grande. É isso que pede o PSD, que, nesta terça-feira (15 de Maio), à tarde, apresenta na Assembleia Municipal de Lisboa (AML) uma moção com esse objectivo e, à noite, organiza ainda um debate sobre o tema– na qual participam três especialistas em transportes, promotores de uma petição contra o plano de expansão do metro, lançada na semana passada.

Uma recomendação do Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) no mesmo sentido será também discutida pela assembleia. Mas, apesar da multiplicação dos sinais de descontentamento, o PS mantém-se firme no apoio ao actual projecto de expansão – que prevê a construção de estações na Estrela e em Santos, deixando de fora área onde há muito se reivindica a chegada do metro, como Campolide, Amoreiras, Alcântara e Ajuda. “Os estudos que nos mostraram levam a crer que esta é uma decisão correcta e que é aquela que, face às necessidades actuais, faz mais sentido”, diz a O Corvo André Couto, presidente da Junta de Freguesia de Campolide e membro da direcção da bancada socialista na assembleia municipal.

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Mas são muitas e diversas as vozes em sentido contrário. A complexidade e o custo da obra, associados às consequências que a sua concretização terá, alegadamente, para o esquema de mobilidade da capital – em particular na ligação à zona norte da cidade e aos concelhos de Odivelas e de Loures -, bem como o facto de a mesma não resolver as carências de transporte público da zona ocidental Lisboa, têm vindo a ser apontadas como razões mais que suficientes para travar já a empreitada. Aos quais se junta também o que os críticos consideram ser a falta de fundamentação técnica para tão importante e onerosa empreitada – cuja conclusão, no momento do seu anúncio, há um ano, estava prevista para 2022.

“A avançar, será um erro crasso e gigantesco. A cidade vai pagá-lo caro, será um erro que prejudicará gerações. Vamos ter a constatação da inutilidade desta opção dentro de sete ou oito anos. Este é um dos raros momentos em que um sem número de especialistas e a esmagadora maioria dos partidos políticos estão de acordo. Só o PS é que defende isto”, ataca Luís Newton, líder da bancada do PSD na AML e presidente da Junta de Freguesia da Estrela, em declarações a O Corvo. “O que está em cima da mesa é a política de transportes públicos na cidade para os próximos 40 anos”, sustenta.


 

 

Por isso, o seu partido decidiu apresentar uma moção – intitulada “Linha Circular do Metro de Lisboa: uma opção muito cara para tão poucos benefícios ou a grande diferença entre despesa e investimento” -, em que pede a “suspensão imediata da intenção de levar para a frente a chamada Linha Circular, tendo em conta os enormes custos associados e não existirem estudos globais que suportem esta solução”. E solicita ainda que se proceda à divulgação imediata do estudo que levou à tomada desta decisão, bem como de todas as condicionantes que foram dadas à equipa que o produziu. Isto porque, sustentam os social-democratas, a “decisão terá decorrido de um estudo encomendado a uma empresa especialista em desenho e reestruturação de redes de transporte, à qual foram apresentados apenas dois cenários para serem comparados, eliminando assim qualquer outro cenário”.

 

Esse é, aliás, o primeiro de um conjunto de argumentos apresentados pelo partido laranja para denunciar o que considera uma grave decisão política e estratégica. Na lista de objecções encontram-se também críticas à justificação de que a ligação entre Rato e Cais do Sodré será necessária para assegurar a ligação do Eixo Central da capital e a Linha de Cascais. Essa, sustenta o PSD, não seria a única opção, “não tendo sido estudada qualquer outra ligação alternativa”. Na verdade, dizem, a “opção escolhida levará a um aumento considerável do uso do transporte individual, face às dificuldades criadas pelos transbordos adicionais em termos de conforto e tempo, aumentando assim a poluição sonora e ambiental e degradando ainda mais as condições de circulação e estacionamento na cidade”

 

Os argumentos dos social-democratas acabam, na verdade, por replicar em grande parte os motivos que sustentam a petição “Plano de Expansão do Metro de Lisboa: um erro a evitar!”, lançada, na semana passada, por cinco cidadãos, entre os quais se contam alguns dos maiores especialistas nacionais em transportes. Entre eles contam-se Mário Lopes, Fernando Nunes da Silva, Luís Cabral da Silva e Fernando Santos e Silva, especialistas em transportes, e ainda Henrique Neto, empresário e ex-candidato presidencial. Mário Lopes e Fernando Santos e Silva estarão no debate a organizado pelo PSD, a realizar a partir das 21h desta terça-feira (15 de Maio), no Hotel Roma. A eles se juntará José Manuel Viegas, professor aposentado do Instituto Superior Técnico.

 

 

Na referida petição, é apontado como especialmente negativo o corte da Linha Amarela, que passará apenas a assegurar a ligação entre Odivelas e Telheiras, tendo os utentes da mesma que fazer um transbordo no Campo Grande para chegarem ao centro da capital. “A Linha Amarela, bem como os seus potenciais prolongamentos para Loures e Carnide, passariam a ser um ‘apêndice da rede’, pois não cruzam com as Linhas Azul e Vermelha. Assim, qualquer percurso entre estas Linhas e a Linha Amarela obrigará a dois transbordos”, alega-se na recolha de assinaturas, que acrescenta: “A situação descrita representaria um incentivo ao uso do automóvel individual no acesso ao centro de Lisboa para a população das freguesias do norte da cidade e dos concelhos vizinhos”.

 

Os peticionários defendem a “expansão das linhas Amarela e/ou Vermelha para a zona ocidental de Lisboa, com ligação à Linha de Cascais”. Algo que vai ao encontro do que estava previsto no anterior plano de expansão da rede, de 2009, com previa ligações a Alcântara (da Linha Amarela, com estações na Estrela, Infante Santo e Alcântara-Mar) e a Campo de Ourique (da Linha Vermelha, com estações em Campolide, Amoreiras e Campo de Ourique). E que, no fundo, é o que pedem quase todos os que criticam o actual plano, que privilegia a ligação do Rato ao Cais do Sodré, com estações na Estrela e em Santos.

Algo pedido também pelo PEV na sua proposta de recomendação à Câmara de Lisboa, a discutir nesta terça-feira na assembleia municipal. Nela exortam o Governo a proceder não só “à suspensão do projecto da linha circular e de todas as diligências com vista à sua concretização”, como também “à reelaboração de um plano de expansão do Metropolitano de Lisboa que preveja a expansão para a zona ocidental da cidade, em detrimento da projectada linha circular”. Afinal, lembram os ecologistas, “o plano de expansão do Metro da década de 1970 já previa a ligação do Marquês de Pombal a Alcântara”. Ao invés, a opção pela ligação Rato-Cais do Sodré, criticam, “iria esquecer zonas como Campolide, Campo de Ourique e toda a zona ocidental: Alcântara, Ajuda e Belém, onde 100 mil habitantes continuam mal servidos de transportes”.

 

Uma visão com a qual não concorda André Couto, presidente da Junta de Freguesia de Campolide e um dos líderes da bancada do PS na Assembleia Municipal. “Uma coisa não é feita em detrimento da outra. Acredito que se estudou a questão ao pormenor. Os estudos que nos mostraram levam a crer que esta é uma decisão correcta e que é aquela que, face às necessidades actuais, faz mais sentido”, diz. O deputado municipal e autarca considera que as áreas da Estrela e de Santos constituem uma zona muito desprotegida ao nível dos transportes, pelo que se justifica a ligação de metro passar por ali. Mas admite que “haverá, igualmente, argumentos válidos a favor de outras opções”.

 

André Couto diz não se sentir desconfortável com o facto de o PS estar praticamente isolado nesta matéria. “Não deixamos de ser a maioria na Assembleia Municipal”, sustenta, frisando que, por outro lado, “existem exemplos de soluções que se vêm a provar correctas depois terem sido defendidas por vozes minoritárias”. Em todo o caso, e no que respeita à freguesia da qual é presidente da junta, André Couto diz acreditar na promessa feita pela administração central de que, depois da construção da Linha Circular, “a estação de Campolide será a seguir”.

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COMENTÁRIOS

  • Anónimo
    Responder

    É uma vergonha e um absrudo que um dos bairros residenciais e comerciais, e agora também com forte componente turística, de Lisboa, Campo de Ourique, seja tão mal servido de transportes públicos.
    O metro está prometido há mais de 40 anos, mas até agora nem vê-lo.
    Até quando esta situação?
    Há dezenas e dezenas de milhar de pessoas em Campo de Ourique que não têm acesso ao melhor transporte público de Lisboa.

  • LM
    Responder

    Uma vergonha absoluta, um bairro como Campo de Ourique, com uma pressão automóvel insustentável, não ser servido por uma estação de metro que possa libertar um pouco o bairro da pressão enorme de carros. Um pais com anormais a tomar decisões.

    • Alexandre Gonçalves
      Responder

      Vai cavar

      • LM
        Responder

        Vai tu azeiteiro.

  • Francisco Ferreira
    Responder

    Tanto tempo perdido!
    Nada há que inventar !
    Há quarenta anos o plano de rede do Metro incluía a ligação Rato -Alcântara na actual linha amarela. Na década de 90, a nova linha vermelha tinha prevista como extensão natural Amoreiras e Campo de Ourique.

    Hoje o Metro tem 4 linhas que se cruzam umas com as outras facilitando o acesso por meio de um unico transbordo a toda a area servida. O bom senso aconselha manter este modelo prolongando as linhas existentes em direcção às zonas carentes de ligações.
    Juizo nessa cabecinha senhores!

  • Santos
    Responder

    Portugal no seu pior, inacreditável.

  • Bruno
    Responder

    A obra verdadeiramente estrutural é a ligação da linha de cascais à linha de cintura com comboios a circular de Cascais até ao Oriente ou no limite até à Azambuja. Milhares de pessoas da linha passariam a usar o comboio que teria ligação direta a Campolide (com transbordo para o comboio da ponte) , e ao centro da cidade em Sete Rios, Entrecampos e Roma Areeiro de uma forma rápida e sem transbordos. Tudo o resto é conversa. No estado atual, com a obrigação de ir até ao Cais do Sodré, as pessoas da linha estão muito mal servidas de transportes compensando muito mais ir de carro pela A5 com acesso direto ao centro.

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