Uma exposição no Padrão dos Descobrimentos, em Belém, permite descobrir a obra do arquitecto que o imaginou. Um pretexto para os lisboetas regressarem a um monumento que visitam pouco. Está patente até 6 de Abril.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

Cottinelli Telmo (1897-1948) é uma figura incontornável da cultura portuguesa da primeira metade do século XX. Um nome que nos é familiar. Sabemos alguma coisa da sua obra, de arquitecto, de cineasta, mas, quando abrimos o diafragma da lente e vimos o plano geral da sua obra, as surpresas são imensas.

 

É o que permite a exposição patente no Padrão dos Descobrimentos, “Os arquitectos são poetas também”. Uma frase que Cottinelli adoptou como lema, ele que acreditava na arquitectura como o estuário onde desaguariam todas as disciplinas artísticas: da pintura, à música, da literatura ao cinema, da fotografia à dança. Ele próprio passou a vida a dar exemplos dessa prática artística comprometida e interligada.

 

A Cotinelli Telmo se deve o primeiro caso sério de banda desenhada portuguesa popular, as “Aventuras Inacreditáveis (e com razão) do ‘Pirilau’ que vendia balões”, que faz publicar no magazine ilustrado ABC. A seguir, cria mesmo o “ABC-inho”, a primeira revista para a infância portuguesa, que dirige entre 1921 e 1929. Toda esta década é prodigiosa em termos de trabalho.

 

Cottineli assina capas de revista, desenha selos, capas de livro, cartazes. Faz fotografia, pinta, faz crítica de arte, compõe. Enquanto arquitecto, desenha a designada Estação de Sul e Sueste, no Terreiro de Paço, porta de entrada de Lisboa para quem chega a Lisboa de barco vindo dos comboios que a sul terminavam no Barreiro.

 

A década desagua numa outra paixão crescente, o cinema. Funda a “Kino”, a primeira revista cinematográfica portuguesa. No número exposto no Padrão, pode ver-se a polémica que dividia os defensores do cinema mudo e os adeptos do sonoro. Cottinelli foi o primeiro em muitas actividades e é ele que assina – aceitando o desafio de um grupo de amigos, entre os quais Leitão de Barros – o primeiro filme sonoro português, “A Canção de Lisboa.”

 

Cinemateca

 

De tanto vermos esta comédia clássica, e de lhes decorarmos as frases ditas por Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva, escritas por Cottinelli Telmo e depois testadas em improvisos com os actores, talvez não tenhamos reparado que o travelling inicial, com um esbaforido Vasco Santana a percorrer meia Lisboa a caminho da faculdade de medicina, só podia ser ballet de arquitecto. Cottinelli Telmo dirigirá ainda, em 1937, três curtas-metragens documentais sobre temas ferroviários, que diz preferir ao popular “ A Canção de Lisboa”. As versões completas perderam-se.

 

A Exposição do Mundo Português (1940)

 

Foi o grande desafio da sua carreira. Cottinelli foi escolhido como o grande maestro, o arquitecto coordenador da exposição que mudaria Belém. Nesta grande celebração do regime, trabalham os melhores artistas plásticos e arquitectos portugueses. Cottinelli Telmo pensa numa vela de navio que desse um sentido ao espaço e abrisse horizonte frente ao rio, coroando o mar de pavilhões em redor. Nasce o Padrão dos Descobrimentos, estrutura, como todas as outras, pensada para ser efémera.

 

João Paulo Martins, comissário desta exposição, chama-nos a atenção para esta batalha perdida. “O Cottinelli achava, e deixou escrito, que deveriam ser as memórias a lembrar a exposição e que terminadas as celebrações tudo deveria desaparecer. Não foi esse o entendimento subsequente e o monumento que hoje se visita, inaugurada em 1960, é a passagem a pedra desse outro padrão”, explica.

 

BAHOP PRAÇA IMPÉRIO c.1940

 

Em 1943, morre subitamente o ministro das obras públicas Duarte Pacheco. Toda a voluptuosidade do fazer obra pública no prazo, funcional e que, de certa forma, incitava e acolhia a modernidade é posta em causa. Cotinelli Telmo, seu colaborador directo, tal como toda uma geração de arquitectos que definiram o traço modernista, ressente-se. O arquitecto embrenha-se em vários projectos de um monumento a Duarte Pacheco, que a burocracia protela e que nunca será construído.

 

No entanto, a sua cabeça fervilha de ideias, que quer discutir em conjunto e é nesse âmbito – enquanto termina o edifício da Standard Eléctrica, onde concilia classicismo e modernismo e que ninguém suspeitava que viria a ser o seu testamento – que organiza o primeiro congresso dos arquitectos portugueses. Estamos em 1948, o país artístico está deprimido e os arquitectos discutem abertamente as tendências da sua disciplina em Portugal. Deixam nos discursos e nas actas críticas à lentidão e à linha estética das obras do regime.

 

Uma semana depois dos ecos desse encontro, o desinquieto arquitecto resolve aprender outra disciplina: a pesca. Perto de Cascais, uma onda em movimento – a imagem, mesmo fatal, não deixa de ser poética – engole Cottinelli Telmo e põe fim a uma vida inteira agitada pelo sonho.

 

A exposição, que pode ser visitada até dia 6 de Abril, dá corpo a esse mundo de sonhos e obra. E tem um excelente mapeamento da obra de Cottinelli Telmo que podemos ainda hoje observar em Lisboa e um pouco por todo o país.

 

Mais informações sobre a exposição e actividades paralelas em www.padraodosdescobrimentos.pt

 

  • Rosa Ramos
    Responder

    A maior figura de sempre do panorama artístico nacional.

  • O. ARQUITECTOS SRS
    Responder

    Cottinelli Telmo: um arquitecto de sonhos desinquietos http://t.co/ZSMDW7yFa5

  • Inês B.
    Responder

    Excelente mapeamento? A exposição é medíocre. Mas aposto que custou uma pipa, sobretudo o folhetozinho, único objecto que ficará como testemunho do que nunca foi.

  • Rui Barradas Pereira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Cottinelli Telmo: um arquitecto de sonhos desinquietos – http://t.co/40sDqs6Kqu

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