A operação de limpeza e desbaste do arvoredo levada a cabo, nos últimos dois dias, pela Junta de Freguesia de Arroios no Jardim Cesário Verde, na Estefânia, está a causar celeuma junto de alguns moradores. O corte de três lódãos e a intervenção de poda noutras árvores da mesma espécie ali existentes provocou surpresa e indignação junto de quem estava habituado a vê-los como companhia certa nas últimas décadas. A acção, levada a cabo por uma empresa ao serviço da junta, e que terá causado comoção em algumas pessoas, carecerá da devida fundamentação técnica, alegam os críticos. Mas a autarquia garante o “cumprimento de práticas de arboricultura urbana correctas”.

 

Argumento que é contestado por Susana Neves, moradora na zona e investigadora na área da botânica. “Para se fazer uma intervenção destas tem de haver um estudo multidisciplinar, meticuloso e aprofundado das condições fito-sanitárias, ao longo de um período alargado. É necessário, por exemplo, saber quais os lençóis de água que ali passam, como está disposto o sistema radicular das árvores e a relação que se estabelece entra elas. E isso não foi feito”, diz a autora do livro “Histórias que fugiram das árvores – um arboretum português”. “O que estamos a assistir é ao assassinato e descaracterização de árvores seculares”, acusa, alegando ainda que, como moradora, não recebeu informação com argumentos justificando “de forma clara a necessidade da intervenção”.

 

Ao olhar para as árvores derrubadas, Susana Neves fica revoltada porque, diz, “o cerne das árvores estava muito bonito e não indicava qualquer doença”. “As árvores aparentavam estar muito sólidas e, mesmo se estivessem doentes, podiam ser alvo de uma intervenção. Trata-se de uma acção muito questionável, até porque está sujeita a uma lógica errada e desactualizada, pressupondo que uma árvore é um objecto e pode ser substituída por outro”, critica. “Estas foram árvores que viram passar Fernando Pessoa”, lembra, numa alusão ao facto de o poeta ter vivido em cerca de uma dezena de locais naquela zona.

 

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Tanto a investigadora como outro morador da zona, Luís Marques da Silva, membro do grupo Fórum Cidadania LX, criticam a opção pelo corte “quando toda a gente sabe que as árvores são tratáveis”. E referem que, no momento em que se aperceberam que os lódãos estavam a ser cortados, na tarde de terça-feira (28 de Abril), algumas pessoas, sobretudo idosos, ficaram muito emocionadas com o que observavam. “Vi pessoas com lágrimas nos olhos, pois não percebiam o que se estava a passar. Eu não me consegui aperceber de qualquer tipo de doença nos lódãos”, afirma Luís Marques da Silva, que ontem, através do blogue do movimento, lançava um apelo a uma mobilização popular contra a operação fitossanitária, que recomeça na manhã desta quinta-feira.

 

No sítio da Junta de Freguesia de Arroios, existe um esclarecimento sobre os “trabalhos de arboricultura” em curso. Sustentando a sua acção em dois “princípios fundamentais, incrementar a segurança pública e promover árvores saudáveis e estáveis, aumentando a sua longevidade”, a junta diz que a mesma apenas se realiza “através do uso de processos sistemáticos que detetem e quantifiquem eventuais defeitos críticos suscetíveis de provocar fratura e queda de parte ou da totalidade da árvore”. E apresenta uma lista de cinco arruamentos na zona da Estefânia onde já foram detectadas 38 árvores com “defeitos críticos” e, por isso, sujeitas a corte.

 

No comunicado da autarquia é explicado que “tem sido aplicado sucessivamente aos vários alinhamentos arbóreos da freguesia um protocolo de inspeção de árvores e avaliação do seu potencial risco de ruptura”, o denominado Protocolo VTA (Visual Tree Assessment). Depois deste, é aplicado o método “Risk Rating System2”, o qual “permite obter um índice que expressa a probabilidade e gravidade de um eventual acidente, em função da probabilidade de rutura total ou parcial da árvore”. Foi com base neste procedimentos, salienta o esclarecimento, que foi decidido corte das tais 38 árvores, nas ruas Pascoal de Melo, Estefânia, Passos Manuel, Mindelo e Angra do Heroísmo.

 

O mesmo texto faz ainda um aviso: “É importante referir que uma árvore, embora mecanicamente instável e com um potencial risco de ruptura elevado, apresenta na maioria das situações copas frondosas e vigorosas”. O Corvo tentou ontem ouvir a presidente da Junta de Freguesia de Arroios sobre a operação em curso no Jardim Cesário Verde, mas tal não se revelou possível.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Raquel Fernandes
    Responder

    Também cortaram muitas árvores na Av Visconde Valmor , perto Arco do Cego

  • Ana Azevedo
    Responder

    ………………………………………….?????

  • Paulo Ferrero
    Responder

    Segundo fonte fidedigna o abate resume-se a 5 árvores, 3 já foram abatidas e 2 sê-lo-ão depois do feriado de dia 1. As outras árvores serão podadas. Portanto, do mal o menos, o que já não é mau, pelo menos nos tempos mais próximos. Veremos o que nos reserva a próxima Primavera.

  • Rosa
    Responder

    A transferência de competências da CML para as juntas (neste caso da manutenção das árvores) tem, quanto a mim, uma única vantagem e esta seria uma maior proximidade entre a população e os decisores ou executores. Não é isso que acontece neste caso em que um enorme grupo de gente indignada com o abate de árvores aparentemente saudáveis, não consegue comunicar com a responsável pelo pelouro dos espaços verdes da Junta de Freguesia de Arroios. É inacreditável!

  • Paulo Ramos
    Responder

    e na calçada da Ajuda:

  • Paulo Ramos
    Responder
  • Árvores de Portugal
    Responder
  • Isabel Maria Costa
    Responder

    Na Visconde de Valmor, foi uma razia quase total

  • Isabel Maria Costa
    Responder
  • Bruno
    Responder
  • Sara David Lopes
    Responder

    Fui perguntar ao senhor que andava a cortá-las, que me informou que as árvores estavam doentes e mostrou-me um plano do jardim, indicando as que estavam sinalizadas para abate. A árvore parecia super-hiper-mega saudável. “Foi mandada cortar pela Engenheira, estava doente, tem um buraco”, disse ele. Realmente, na bifurcação do tronco, lá muito, muito em cima, havia um buraco, não percebi com que profundidade. Todos os troncos que vi cortados (dos mais grossos aos mais finos) estavam saudáveis, sem marcas, assim como estes que se vêem em primeiro plano. É UMA VERGONHA!!! “Então e esta madeira toda, para onde vai”, perguntei? “Ah, isso não sei, vai para a oficina…”

  • Carlos
    Responder

    gente louca a solta em cargos de responsabilidade, foi tal o estudo que ninguém nos bairros os viu a fazê-lo…

  • o corvinho
    Responder

    mas não são os cidadãos que elegem os Presidentes de Junta e de Câmara?
    quando é para por a cruz fazem-no de forma pouco criteriosa, apenas com base no partido que os elege e depois…aguentem-se e participem nas eleições votem em partidos menos representados mas com ideias próprias e boas e que apenas não são eleitos porque não estão nos partidos do arco da governação

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