Contentor-modelo do projecto de requalificação do Martim Moniz pode ser visitado pela população de Lisboa

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Sofia Cristino

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URBANISMO

Santa Maria Maior

1 Março, 2019

A partir de segunda-feira (4 de Março), a comunidade local poderá visitar o contentor modelo, instalado na Praça Martim Moniz. A Moonbrigade, concessionária do espaço, diz que quer mostrar que os módulos têm várias potencialidades e podem ser transformados “em muitas coisas diferentes”. “As pessoas projectam uma imagem de um contentor industrial, mas não tem nada a ver com isso”, diz um dos representantes da concessionária. Apesar da vontade em ouvirem a população, garantem que não abdicam da instalação dos contentores, o elemento do projecto mais contestado. As alternativas já foram todas estudadas e esta é “a melhor solução”, garantem. Afirmam que “não é verdade que as pessoas estão contra o projecto” e que até terão reunido centenas de assinaturas de pessoas a apoiá-lo. A obra já deveria ter arrancado no mês passado, mas está parada. A Assembleia Municipal de Lisboa decidiu que o projecto só será aprovado depois de debate público, que ainda não estará agendado.

Afinal, o contentor colocado no estaleiro de obras da Praça do Martim Moniz, a semana passada, não é o primeiro a chegar dos vários previstos para aquela zona concessionada pela Moonbrigade. É apenas um “módulo modelo” para, a partir desta segunda-feira (4 de Março), a população o visitar. E os responsáveis do projecto marcarão presença para esclarecer todas as dúvidas da comunidade. “Vamos definir um horário de visita, que colocaremos à entrada do estaleiro. As pessoas projectam uma imagem de um contentor industrial, mas não tem nada a ver. Queremos mostrar-lhes que é possível transformar um contentor em muitas coisas diferentes, revestindo-o. Isto não é um projecto meramente financeiro, queremos dinamizar uma zona que precisa de investimento”, defende Geoffroy Moreno, sócio da Stone Capital, que detém uma parte desta concessão, atribuída à empresa Moonbrigade. A conversa decorreu ao final da manhã desta sexta-feira (1 de Março), num encontro com jornalistas realizado dentro da unidade móvel.

As obras estão paradas, e a concessionária aguarda apenas a discussão pública, onde será divulgado e apreciado o projecto final, antes da sua aprovação em reunião de câmara. Enquanto não é agendada a discussão, os promotores querem mostrar a quem quiser que a instalação destas estruturas – um dos aspectos mais contestados na apresentação pública do projecto, a 20 de Novembro – poderá ser uma boa opção. Quando questionado por O Corvo se pondera avaliar outras alternativas, Geoffroy Moreno diz apenas que “quer mostrar o que são as verdadeiras potencialidades de um contentor”. “Temos de ver se as alterações sugeridas têm viabilidade económica, é essencial”, acrescenta. Mas José Filipe Rebelo Pinto, sócio maioritário da antiga concessionária da Praça Martim Moniz, a NCS – Produção, Som e Vídeo, integrada recentemente na estrutura accionista da Moonbrigade, após alguma insistência acaba por responder. “Todas as alternativas aos contentores já foram estudadas. Não ponderamos mudar os contentores porque são a melhor solução para a praça”, afirma.

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Os promotores do projecto prometem manter o cariz multicultural da Praça do Martim Moniz

O contentor modelo tem 15 metros quadrados, o tamanho mais pequeno dos módulos. Chegarão ainda unidades de 30 metros quadrados, o dobro do tamanho do modelo. A altura máxima das unidades móveis não ultrapassará os cinco metros, “não afectando as vistas”, reforça Moreno. As mais pequenas poderão ser divididas em três áreas comerciais e, no total, haverá entre 30 a 50 lojas no recinto. A ideia é criar uma zona comercial ao estilo dos mercados de Campo de Ourique e da Ribeira, mas com uma diferença. Aqui, só trabalharão pessoas da comunidade local. “O principal objectivo do mercado é integrar as comunidades. A loja de especiarias mais antiga desta zona, que está no metro do Martim Moniz, onde tinha menos visibilidade, vem cá para cima”, diz um dos responsáveis. Cerca de 15% a 20% dos comerciantes não pagarão renda pelo espaço, uma forma de “integrar todos”, promete ainda.


 

A empresa vai promover, por isso, uma plataforma de emprego, de forma a fazer uma ponte entre os comerciantes e desempregados. Além de espaços comerciais, o novo mercado terá uma peça do artista português Bordalo II e do brasileiro Kobra, sendo que esta última representará “a união dos povos”, numa alusão à multiculturalidade do Martim Moniz. Haverá ainda workshops e um fórum mensal, com mesas redondas, para convidar a população e as associações locais a debater temas como a imigração e a sustentabilidade. “Queremos dar voz às pessoas e partilhar ideias. Estou cá há sete anos, e sonho que a praça possa ser um exemplo daquilo que queremos para o mundo, mais harmonia e paz, numa ligação entre todas as comunidades”, diz José Rebelo Pinto.

 

 

Quando confrontado sobre as exigências da comunidade local, que pede “um espaço aberto” e zonas verdes, o responsável diz que a praça nunca poderia ser um jardim por se encontrar por cima de um parque de estacionamento. “Não é uma zona permeável. Além disso, temos um contrato de concessão por um período de tempo. No dia em que sairmos, a praça fica totalmente intacta, não vamos danificá-la”, explica. O também promotor do Out Jazz, um festival de música em zonas verdes da cidade, diz que havia muitos jardins que não eram utilizados antes da realização deste evento, como o de Campo Grande, entre outros. “Existe o jardim da Cerca de Graça, a 700 metros daqui, que não é utilizado por quase ninguém”, observa.

 

José Rebelo Pinto, que acabou por tomar as rédeas da conferência de imprensa, adianta ainda que, no novo espaço, utilizarão apenas copos reutilizáveis e loiça biodegradável. “As lojas não vão poder utilizar plástico, vai estar definido nos contratos. Queremos dar um exemplo a nível da sustentabilidade. O contentor também é feito de um material reutilizável. Uma das grandes vantagens é transformá-los em três unidades comerciais”, explica. Os promotores voltaram a mostrar fotografias da nova versão do projecto de requalificação, apresentadas no início de Dezembro, com mais “canteiros, cadeiras e bancos”, e um parque infantil, onde pretendem desenhar um mapa mundo no chão com jogos interactivos.

 

 

A gerir a Praça Martim Moniz desde 2012, José Rebelo Pinto partilhou ainda algumas fotografias do estado de degradação da zona antes de montarem o estaleiro. “Quando viemos para cá, isto era uma terra de ninguém. Tivemos muitos problemas sociais com sem-abrigo e drogados. De um dia para o outro, fica tudo sujo. Desentupimos sanitas com seringas. Agora, queremos ser um lugar onde as pessoas possam vir sem medo, queremos manter a segurança através da nossa presença”, explica. Contestando o que tem sido voz corrente, diz ainda “não ser verdade as pessoas estarem contra o projecto”. “Recentemente, reunimos 400 assinaturas de apoio ao projecto. E metade foram de pessoas que moram aqui”, diz.

 

As críticas, que se fizeram ouvir desde a apresentação pública da proposta, originaram um cordão humano, promovido pela Associação Renovar a Mouraria, em redor da praça, como forma de protesto, e ainda uma ameaça de avanço de uma providência cautelar do movimento cívico Morar em Lisboa. Os promotores dizem, contudo, que “um espaço que não tem ocupação acaba por ser vandalizado”, não sendo fácil encontrar alternativas. “É muito difícil gerir um espaço aberto, as pessoas vão para lá beber e sujam tudo. Esta é mesmo a melhor solução. Ninguém queria vir para aqui, procurei um investidor durante muito tempo. Só eles – Moonbrigade – quiseram pegar nisto, e estamos aqui por paixão”, afirma Rebelo Pinto.

 

 

O valor da renda pela área concessionada, 5700 euros, “é muito mais elevado do que os mercados de Campo de Ourique e da Ribeira” – volta a comparar Moreno – e, além disso, vão ter gastos mensais com a limpeza, gestão de resíduos e a segurança na ordem dos 45 mil euros. A requalificação da Praça do Martim Moniz vai custar cerca três milhões de euros e as obras deveriam ter arrancado em Janeiro e terminar no início do Verão. Neste momento, a data estará indefinida. “Queremos fazer um mercado a céu aberto e dar-lhe alma. Agora, só estamos à espera do debate público, não depende de nós e, por isso, não nos vamos pronunciar sobre o retomar das obras”, diz ainda.

 

Há um ano, em Março de 2018, largos meses antes da proposta ter sido tornada pública, a Direcção Geral do Património e Cultura (DGPC) aprovou o projecto de requalificação da Praça Martim Moniz. De acordo com o documento, este “encontra-se convenientemente caracterizado”. “Consideramos que a intervenção proposta não altera, no essencial, as características do local e a instalação do mercado proposto não irá alterar a relação do Martim Moniz com as características da envolvente aos valores patrimoniais em que este se insere”, lê-se. Segundo a DGPC não há “lugar à emissão de parecer”. Para os promotores, as estruturas não serão assim “tão volumosas”. “A escala desta praça é enorme, bastante maior que o Rossio, e qualquer coisa que se coloque perde expressão pela dimensão”, conclui José Rebelo Pinto.

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COMENTÁRIOS

  • Fernando
    Responder

    Esta porcaria è mesmo angustiante… Minha pobre Lisboa.

    • Fatima Fonseca
      Responder

      Vai ser a cidade mais pirosa da Europa !Depois de bem descaracterizada e sem raizes sera mais um aglomerado de lixo, onde contentores não faltam.

    • Maria Ribeiro
      Responder

      O Martim Moniz é a última oportunidade de se criar um Parque Central na cidade. Não pensem só no lucro. Vale a pena um esforço para termos umParque Central, como todas as potras capitais da Europa. Os contentores são pindéricos. Vamos ser exigentes com Lisboa.

  • Flor.P.
    Responder

    Esse Moreno que leva os contentores para a terra dele que aqui não manda nada😠

  • José Colaco
    Responder

    Estes contentores são muito bonitos. Já vi coisas parecidas em outras cidades. É espectacular. Quem é contra nunca deve ter saído desta terrinha. Será que já viveram em contentores totalmente equipados com tv, sala de estar, quarto, ar condicionado, 2 casas de banho, etc. Em África. Que maravilha.

    • João Fernandes
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      É precisamente esse o problema …. já vi isto também noutras cidades … há mais de 10 anos atrás. É de uma pobreza enorme e de grande provincianismo achar que optar por algo assim é estar “na crista da onda”. Lisboa não deve ser como qualquer outra cidade Europeia onde tudo é estandardizado e igual, deve apostar no que tem de característico e acima de tudo apostar no bem estar dos seus habitantes.

      Ter algo que foi moda há 10 anos em Londres, Copenhaga, etc. não é desenvolvimento, é retrocesso.

  • liberal encantador
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    isto é uma parvoice!!! deviam por o dinheiro no quartel da Graça para criar habitação. E assi não roubavam os proprietarios. Medina jamais!

  • miguel lima
    Responder

    e jardim? não podia ser um jardim? ha alguém na CML que pense em jardins? ha alguém na CML ou está tudo nos populismos dos projetos turísticos?

  • Joselito Fagundes
    Responder

    se é para isto, mais valia ficar como estava….

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