Contadora de histórias quer pôr idosos e sem-abrigo de Lisboa a conviverem através dos livros

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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Ler Doce Ler

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CULTURA

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

14 Junho, 2018

Todas as semanas, dezenas de pessoas que se sentem sozinhas abrem as portas de casa para ouvirem histórias, no âmbito da iniciativa “Ler Doce Ler”, integrada no projecto “Na rua com histórias – Uma biblioteca para todos”. A ideia partiu da contadora de histórias Elsa Serra. Mais que quebrar a iliteracia, ela quer “combater a solidão e motivar as pessoas a saírem de casa, porque existe uma grande nudez social”. Ainda este mês, vai também começar a contar histórias a sem-abrigo. “Queremos relembrá-los aquilo que são, porque acreditamos na transformação pessoal e social das pessoas”, explica. E tem mais ideias em mente, estando uma delas já na rua –  a “Biblioteca Itinerante”, um tuk-tuk com livros para todas as idades. No primeiro ano de actividade, a meta é chegar aos 10 mil leitores. Brevemente, vai ser possível ainda ouvir testemunhos de vida de pessoas que cresceram nos bairros de Alfama, Castelo, Graça e Mouraria, no site oficial do projecto.

“Se a vontade de nos fazer companhia vier do coração, pode entrar”. É assim que Helena Esperança, 84 anos, recebe Maria Pacheco, uma voluntária da iniciativa Ler doce Ler: Leitura ao domicílio, integrada no projecto Na rua com histórias: uma biblioteca para todos. A ideia pensada por Elsa Serra ganhou forma em 2016 e já conta com 21 voluntários, dos 15 aos 62 anos, 26 parceiros, 337 visitas e 700 histórias contadas. Quer chegar a casa dos idosos, mas também de pessoas que estão sozinhas ou não conseguem deslocar-se. Combater o isolamento dos que vivem “num centro histórico movimentado, mas estão sozinhos em casa” é a grande missão desta rede de apoio social.

 

Todas as semanas, Helena Esperança e o marido, Orlando Esperança, abrem as portas de casa para ouvirem contos, romances ou notícias do jornal. As primeiras visitas servem para os voluntários os conhecerem melhor e, depois de criada uma ligação afectiva, começa-se a ler. Mas há dias em que dispensam a leitura. “É um dia muito diferente, em que temos companhia. Gostamos de ouvir, mas gostamos mais de fazer e contar as nossas histórias”, diz, entre risos, Orlando Esperança, 89 anos. Sentados lado a lado, numa mesa de madeira forrada a azulejos, e tendo como pano de fundo uma vista privilegiada sobre Lisboa, vão contando o seu dia-a-dia e as suas preocupações. As histórias antigas, dos tempos em que tinham mais vizinhos e amigos por perto, são as que mais gostam de partilhar.

“Lisboa era uma aldeia. Partilhávamos casa com a minha mãe e um casal, não era qualquer um que tinha casa própria”, explica Helena Esperança, enquanto que o marido vai explicando que é dos poucos da sua geração a viver ali. “Era uma festa nesta sala, fazíamos patuscadas até tarde. Sou o único que resta daquele retrato, já morreram todos”, diz, referindo-se a uma fotografia com os amigos. A voluntária Maria Pacheco ouve-os atentamente e vai perguntando sobre o estado de saúde de Helena Esperança, que a limpar um lance das escadas do prédio fez uma ligeira fractura.


 

Além dos idosos, há casos como o de Miguel Paulo, 54 anos, natural de Angola, que, após ter tido um AVC aos 40, ficou impossibilitado de trabalhar. “Conto-lhe histórias do país dele, principalmente, mas comecei a perceber que algumas lhe traziam muita nostalgia e mudei de tema. Vamo-nos adaptando. Mas, para isso, é preciso conhecê-los bem. O que gostam mais é da companhia, às vezes não leio”, explica a coordenadora do projecto, também responsável por acompanhar Miguel. Há, ainda, o caso de uma idosa que voltou a pintar, depois de anos sem praticar esta arte. “Também realizamos sonhos. Agora, todas as semanas, a senhora pinta com uma voluntária. E até expusemos os quadros dela”, explica Elsa Serra.

Orlando e Helena Esperança contam com os livros e com a companhia (foto: Sofia Cristino)

No início, a contadora de histórias e escritora, era a única que fazia visitas. A constatação de que existia uma enorme carência de literacia no bairro onde reside, na Graça, levou-a até à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior para propor uma ideia: sinalizar idosos e pessoas incapacitadas, através de parcerias com instituições de solidariedade social, para lhes contar histórias. O projecto Ler doce Ler foi o primeiro a avançar e, desde 12 de Maio, já está outro na rua: a Biblioteca Itinerante.

 

A chegada do tuk-tuk, o meio de transporte escolhido para levar os livros aos bairros históricos de Lisboa, alargou a dimensão social do projecto a toda a população, incluindo crianças e sem-abrigo. Com duas rotas, que mudam de duas em duas semanas, estão previstas paragens em sítios como o Largo da Graça, Castelo de São Jorge, Largo da Severa ou Largo do Chafariz de Dentro. A ideia é estar um dia em cada bairro e tentar que as pessoas saiam à rua, para lerem ou conviverem. “Queremos colocar jogos de tabuleiro junto ao tuk-tuk, para que seja um ponto de encontro. O nosso principal objectivo não é quebrar a iliteracia, é combater a solidão e motivar as pessoas a saírem de casa porque existe uma grande mudez social”, diz a mentora do projecto.

 

 

No primeiro ano, pretendem chegar a 10 mil leitores dos bairros de Alfama, Castelo, Graça e Mouraria. Estas duas actividades acabam por interligar-se, uma vez que as pessoas que recebem visitas, como o casal Esperança, também já requisitam livros. São dos poucos com hábitos de leitura e já levaram para casa algumas obras. Dizem que se não fosse a biblioteca itinerante não conseguiriam ler tanto. “Já vai sendo difícil irmos até à Baixa a uma livraria. É muito bom que a biblioteca venha até nós”, diz Helena Esperança, que já terminou a leitura do livro “A Amiga Genial”, de Elena Ferrante, e “Vai aonde te leva o coração”, de Susanna Tamaro. Orlando Esperança está a ler o “Este livro que vos deixo”, de António Aleixo.

 

Entretanto, já há mais dois projectos em construção. Este mês, na página da internet naruacomhistorias.pt vai ser possível ouvir testemunhos de vida de cinco pessoas que cresceram nos bairros históricos de Lisboa. Os depoimentos foram gravados em casa das mesmas, dando-lhes a oportunidade de eternizar as suas memórias. Para já, só vai estar disponível em áudio, porque a câmara de filmar ainda os intimida. Esta actividade chama-se As histórias que somos e é “uma espécie de museu virtual destas histórias”. “Somos as histórias que vivemos e são essas que nos tornam únicos. Tal como os bairros históricos, únicos na sua identidade e cultura popular, são as pessoas que os habitam que lhes dão matéria e sentido. É esse amplo património imaterial que não queremos nem podemos deixar morrer”, explica Elsa Serra que, ainda em Junho, quer avançar com outra actividade: a Biblioteca Inclusiva.

 

Esta última, consistirá em pôr os voluntários a conversar com sem-abrigo na rua e possibilitar-lhes a oportunidade de requisitarem livros, jornais, revistas e outras publicações. O tuk-tuk vai parar em Santa Apolónia, junto aos cacifos solidários, duas quartas-feiras por mês, das 12h30 às 13h30, para promover hábitos de leitura e rotinas de inclusão social. “Queremos relembrá-los aquilo que eles são, porque acreditamos que todos somos feitos de histórias e na transformação pessoal e social das pessoas”, diz Elsa, que quer alargar esta ideia a mais freguesias de Lisboa.

 

 

A contadora de histórias começou por trabalhar com crianças em escolas e bibliotecas. Quando, em 2013, lhe foi diagnosticado um problema de saúde limitativo da mobilidade, começou a questionar-se sobre formas de combater a solidão. “O apoio domiciliário é muito reduzido, consiste na alimentação e na higiene íntima, e não tanto em fazer companhia. Cerca de 64% das pessoas que vivem no centro histórico sentem-se isoladas”, explica. O objectivo principal deste projecto é, por isso, “criar laços através da partilha de histórias e acima de tudo ouvir o outro”. “A fase final da vida e o início, a infância, acabam por se tocar, porque são fases muito frágeis. Quando trabalhava com crianças, comecei a aperceber-me que os problemas dos bairros sociais não eram assim tão diferentes dos problemas do centro histórico e, acima de tudo, que as pessoas estão muito sozinhas”, conclui.

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