Do lado oposto ao recém-inaugurado Elevador do Castelo, na Rua dos Fanqueiros, na Baixa, reina o desânimo, sentimento que alastra por todo o quarteirão existente entre a Rua da Vitória e a Rua de S. Nicolau. As portas dos estabelecimentos vão fechando para sempre, uma após a outra, para que ali se inicie a construção de um grande hotel. Só uma lojista se dispõe a resistir.

 

Texto e fotografia: Fernanda Ribeiro

 

“A Adega dos Lombinhos não chegará a completar os 100 anos. Fica-se pelos 96, porque vamos ter de fechar portas no próximo dia 31 de Outubro”, afirma com tristeza João Amorim, sócio deste estabelecimento, que existe na Rua dos Douradores desde 1917.

 

Conhecida pelos seus petiscos, a Adega dos Lombinhos, com apenas uma dezena de mesas, está sempre lotada à hora de almoço. Não tem falta de clientes e o seu nome é referido em guias turísticos onde é anunciada como uma das tasquinhas típicas da Baixa lisboeta. Mas isso não bastou para evitar a sua condenação ao desaparecimento.

 

Pressionados pelos proprietários do imóvel – a companhia de seguros Tranquilidade, que criou o Fundo de Investimento Imobiliário Corpus Christi –, João Amorim e o irmão, seu sócio na Adega dos Lombinhos, acabou por aceitar a indemnização que lhes foi proposta, ainda que ela “não cubra sequer o valor do trespasse”, que há nove anos ambos pagaram para se instalar naquele estabelecimento quase centenário.

 

A Adega dos Lombinhos torna-se assim uma das vítimas da nova Lei das Rendas, que permite aos proprietários desalojar os inquilinos, pagando-lhes apenas um ano de rendas, desde que os donos promovam obras profundas nos seus imóveis.

 

Com essa “arma” na mão, os proprietários avançam para acções de despejo e aos inquilinos pouco ou nada resta, a não ser tentar negociar valores de indemnização um pouco mais altos. No caso deste quarteirão da Baixa, é o que tem acontecido. Alguns conseguiram indemnizações de 25 mil euros e, seja na Rua dos Douradores, seja na Rua dos Fanqueiros, a maioria dos lojistas aceitou já sair, a troco de valores que não lhes permitem instalar-se noutros imóveis da Baixa, onde as novas rendas são muito elevadas.

 

“No Chiado, chegam a pedir por uma loja, 20 mil euros por mês. É uma loucura”, disse ao Corvo Emília de Sá, dona de uma loja de confecções e a única comerciante da Rua dos Fanqueiros que está disposta a resistir. “Fui a única que não fiz negócio. A mim fizeram a actualização da renda. Passava para 1.700 euros, mas eu continuo a pagar a renda antiga. E não saio. Eles que me levem a tribunal”, diz Emília de Sá.

 

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Na porta ao lado, fechou recentemente uma outra loja de roupa. Na Rua dos Douradores encerrou já uma ourivesaria e dos 29 contratos de arrendamento que existiam no quarteirão, restam agora meia dúzia. Entre eles está a ArtiModa, uma loja de fios e lãs, que deverá fechar portas no fim de Setembro. Paula, a dona, que ali investiu tudo o que tinha num trespasse e procura agora um novo espaço na cidade para se manter à tona.

 

Com saída marcada para Outubro está também a Associação de Cabeleireiros de Portugal, instalada num segundo andar do número 175 da Rua dos Fanqueiros.

 

Os proprietários “querem começar as obras de construção do hotel em Novembro”, diz Emília de Sá, a resistente, que conhece a situação de quase todos os lojistas e dos moradores que ainda ali habitam. “A maioria vai sair até dia 31 de Outubro. E aqui no quarteirão só vamos ficar eu e três inquilinas dos prédios: duas irmãs que já têm perto de 80 anos, uma senhora que vive sozinha e uma outra senhora que vive com a mãe, também já com 80 ”, conta.

 

“Um casal que morava na Rua da Vitória já saiu. Os proprietários arranjaram-lhes outra casa na Baixa, mas num sexto andar, sem elevador!”, sublinha, indignada, Emília de Sá.

 

O património do antigo Convento Corpus Christi foi avaliado em cerca de 10 milhões de euros pelo Fundo de Investimento Imobiliário que pretende erguer ali um hotel de quatro estrelas e também criar novas zonas de comércio e serviços.

 

“Eles fazem o hotel e ganham milhões e a nós querem dar-nos tostões”, diz Emília Sá.

  • Luis Matias
    Responder

    a baixa a morrer todos os dias, é muito triste…. Rua dos Fanqueiros parece um deserto!!! 🙁

  • José
    Responder

    COMO É QUE A BAIXA ESTÁ A MORRER,SE VÃO TRANSFORMAR O EDIFICIO NUM HOTEL.
    Com as miseraveis rendas que pagam, não se consegue arranjar um predio.
    Esta senhora, o que está há espera, de uma grande OFERTA $$$$.É ESPERTA

  • André Pereira
    Responder

    A reconversão deste quarteirão e antigo convento em hotel era há muito aguardada, pelo que o anúncio do início das obras para Novembro deste ano não pode deixar de ser encarado como uma boa notícia para a Baixa. Note-se que o edifício permanece há vários anos praticamente devoluto (com a excepção do piso térreo correspondente às lojas) e foi um milagre não ter ardido entretanto. É aliás dos poucos que ainda mantêm intactas certas características pombalinas, escondendo ainda quase intacto o espaço da antiga igreja conventual (anteriormente usado como armazém de uma dessas lojas). O desalojamento dos comerciantes não pode portanto de ser encarado como um mal menor. Esperemos sim que a obra respeite ao máximo o edifício e que nasçam lojas mais qualificadas e apelativas no lugar dos anteriores espaços comerciais.

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