“Estar no palco, para mim, é uma forma de vida que eu não gostava de prescindir”, confessa Kimberley Ribeiro, no intervalo do ensaio da peça “A Visita da Velha Senhora”, que estreia hoje (dia 7) no Teatro S. Luiz.

Texto: Mariana Garcia  Fotografia: David Clifford

Kimberley é uma bailarina que, quando saiu da Companhia Nacional de Bailado, não sonhou que iria voltar a dançar em palco aos  60  anos. Kimberley não só ainda dança, como é das  mais  novas da sua companhia: a Companhia Maior.

Composta por intérpretes profissionais da área do teatro, da dança e da música, a Companhia Maior  tem  uma particularidade: os seus artistas têm mais de 60 anos. “Há uma  generosidade que é absolutamente extraordinária, que só pode acontecer numa certa idade”, explica Luísa Taveira, mentora deste projecto e directora artística da Companhia Nacional de Bailado. “Para estas pessoas, o que  tem importância é aquele momento ali”, diz.

Depois de ver e se deixar comover pela inglesa Company of Elders, Luísa Taveira propôs uma iniciativa semelhante para Portugal. O Centro Cultural de Belém apoiou e, em 2010, nasceu a Companhia Maior. A selecção dos seus membros foi muito simples. E também especial. “Não fomos nós que os escolhemos, foram eles que nos escolheram”, diz a directora. Luísa Taveira relembra o primeiro workshop,  que tinha como finalidade a escolha dos candidatos. Ficaram todos. Desde esse primeiro momento foi perceptível o grande potencial, que agora começa a transparecer através dos muitos convites feitos à companhia.

Numa sociedade cada vez mais  envelhecida, projectos como a Companhia Maior podem dar resposta a uma criatividade sénior negligenciada e desaproveitada. A directora da companhia frisa, no entanto, que este não é um projecto social. Não descura esse lado, mas tem consciência de que, quanto melhor resultar o projecto artístico, melhores serão os benefícios sociais que dele advêm.  “Isto não é uma ocupação de tempos livres”, realça.

A Companhia Maior trabalha sempre com encenadores e coreógrafos diferentes. E conta já com três grandes espectáculos no seu historial: A Bela Adormecida, encenada por Tiago Rodrigues; Maior, da coreógrafa Clara Andermatt; e Iluminações, dirigido por Mónica Calle.

Até dia 27 deste mês, os artistas  da Companhia Maior podem ser vistos no Teatro S. Luíz, com “A Visita da Velha Senhora”. A peça, encenada por Nuno Cardoso, é sobre uma cidade arruinada que aguarda a visita da mulher mais rica do mundo para lhe pedir um empréstimo.  Apesar de escrita, em 1956, por Friedrich Dürrenmatt, o encenador admite ser uma  boa metáfora para os tempos actuais, “em que há uma aceitação da degradação das condições da população portuguesa, para pagar uma dívida”. A peça resulta de uma co-produção entre Ao Cabo Teatro, Companhia Maior, Centro Cultural Vila Flor e S. Luiz Teatro Municipal.

Sobre o trabalho desenvolvido com os artistas da Companhia Maior, Nuno Cardoso reconhece que é um processo diferente do habitual, “os ensaios têm de ser pensados de maneira substancialmente diferente, mas a capacidade de entrega deles é tão grande que torna o trabalho muito prazeroso”.

Na Companhia Maior há quem ande mais  devagar, há quem coxeie, mas o mais importante é que todos chegam lá. A Companhia Maior não é uma companhia constituída por velhos, porque a alma não tem rugas. E quem já os viu em palco sabe disso.

“Não pense que as coisas acabam, só porque não pode fazer uma determinada coisa na sua vida. Acaba uma coisa e começa outra. Há sempre outras coisas pelo horizonte, o mundo é redondo e a vida continua para além”, é a mensagem de Kimberley Ribeiro.

Kimberley é uma bailarina e actriz de 61 anos, que ainda não parou de dançar, que ainda não abandonou os  palcos. Kimberley é uma bailarina e actriz que não deixou que a sua alma envelhecesse.

Comentários
  • Eduardo Silva Anes
    Responder

    Artigo fantastico, pelo seu teor humano florescente no seu lado mais positivo.
    Uma extraordinaria referencia de motivacao e bem estar no mundo.
    Uma centelha solar na comunicacao social ocidental atual.
    Obrigado

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