Comércio em declínio na Rua Morais Soares

REPORTAGEM
Fernanda Ribeiro

Texto & Fotografia

VIDA NA CIDADE

Arroios

10 Fevereiro, 2014

Num ano, fecharam cerca de 15 lojas, numa das artérias outrora mais emblemáticas do comércio alfacinha. A crise, o encerramento de serviços ao redor e, em parte, a nova Lei do Arrendamento contribuíram para o cenário. Isso e um certo desfasamento temporal. Mas há novos negócios a remar contra a maré.

Que diria o Conselheiro Morais Soares se hoje visse a rua que o homenageia em Lisboa? O médico e professor de Chaves que, no século XIX, se notabilizou na administração pública portuguesa, como é referido na toponímia de Lisboa, ficaria no mínimo triste com o cenário actual daquela artéria, onde o comércio dá sinais de forte declínio.

Algumas das mágoas de Morais Soares já virão de longe, de inícios do século XX, quando em 1916, por edital, os republicanos alteraram o nome da sua rua, que deixou de ter o título de Conselheiro, talvez por estar demasiado associado à monarquia. Passou então a chamar-se simplesmente Rua Morais Soares e, nas placas que ainda hoje ostentam o seu nome, é apenas isso que consta.

Nem títulos, nem datas, nem sequer profissão se referem, não permitindo que se saiba algo mais sobre quem foi Morais Soares para merecer o nome numa rua da capital. Mas Rodrigo de Morais Soares teria hoje razões mais concretas para se sentir preocupado.

O comércio, que já foi forte e a actividade principal da Morais Soares, está em declínio, dizem os lojistas que ali permanecem. E o mesmo acontece com parte dos edifícios mais antigos, construídos em princípios do século XX, alguns dos quais a ameaçar ruína iminente – o que já levou comerciantes a mudar de instalações.

Mais de dezena e meia de lojas fecharam no último ano, uma boa parte delas de vestuário, enquanto outras duas tiveram de mudar de instalações – a Moda Maiorista e a Saia & Casaco -, por estarem alojadas num edifício que ameaça derrocada, na esquina da Morais Soares com a Francisco Sanches. Dois antigos cafés, entre eles o Avoense, uma papelaria, as dependências bancárias do Barclays e do Banco Popular encerraram também, tal como uma livraria que pouco durou, a par de meia dúzia de lojas de roupa. E o comércio ficou a perder com tanto fechar de portas.

Uma das primeiras lojas a fechar, ainda em 2012, foi o outlet da Pull & Bear, anunciado nas redes sociais e que levava muita gente nova à Morais Soares. Já em 2013, seguiu-se a loja contígua, que era também de roupa a preços reduzidos, o mesmo acontecendo com uma loja mais antiga, do tempo do “pronto-a-vestir”, a Control, e ainda com uma loja chinesa, de artigos de vestuário. Nos escassos quinhentos metros de rua entre a Praça do Chile e a Praça Paiva Couceiro, desapareceram em pouco tempo dez estabelecimentos, entre lojas, cafés e dependências bancárias.

Subindo um pouco mais a Morais Soares, entre a Praça Paiva Couceiro e o cemitério do Alto de São João, outros cinco estabelecimentos fecharam portas, dois deles de móveis usados e que eram já uma sombra do outrora florescente comércio de mobiliário da Morais Soares, desaparecido daquela zona da cidade há perto de uma década.

Sobrevivem agora, além dos talhos e das farmácias, que pululam na zona – em menos de um quilómetro de rua, há cinco talhos e quatro farmácias -, as lojas chinesas, que também já fazem saldos, dado o abrandamento nas vendas. De estaca, mantém-se a papelaria e livraria Isabsa, há 34 anos estabelecida naquela rua e que, início de cada ano escolar, atrai centenas de pais, em busca dos manuais escolares para os filhos.

Permanecem também algumas lojas da área do vestuário, como a Cadena, ou ainda aquelas cujos proprietários se agarram com unhas e dentes ao que têm e diversificaram as áreas de comércio. Como a Condestaque. Estabelecida na Rua Morais Soares desde 1987, esta loja que vendia exclusivamente roupa, tendo começado por ser unissexo, passou agora a vender também atoalhados, na esperança de diversificar a clientela.

O comércio está mau para todos, diz quem trabalha na Morais Soares, sem conseguir apresentar um motivo único para o encerramento de várias lojas. A nova Lei do Arrendamento poderá ter contribuído, nalguns casos, mas a crise também ajudou ao fecho de portas, referem os empregados, sem saber ao certo o que fez disparar ali o encerramento das lojas.

Carla Salsinha, presidente da direcção da União das Associações de Comércio e Serviços considera que “a nova Lei do Arrendamento Urbano pode não ter sido a única e exclusiva razão para o encerramento de tantas lojas em Lisboa, mas acelerou o processo, quando não foi a machadada final”. E exemplifica: “Um associado a quem o senhorio pedia, antes, 1200 euros de renda e foi-lhe proposto um aumento para quatro mil euros. O associado, para quem as coisas já não estariam bem, nem negociou. Entregou a loja, sem sequer negociar um acordo”.

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O outlet da Pull&Bear, que atraía muitos jovens, fechou em 2012.

Na Morais Soares, há quem pense que existem várias razões a concorrer para tal cenário.“O que está mal é mesmo a zona, que era de passagem para muita gente e que, ao longo dos anos, foi perdendo serviços, o que afastou muita clientela desta rota”, afirma uma empregada da loja de roupa Cadena, conhecedora do comércio do bairro há já 20 anos.

A par do “desaparecimento de serviços, entre eles a repartição de Finanças da Visconde de Santarém e do Tribunal de Trabalho, que mudou de instalações, a crise também fez desaparecer a clientela”, acrescenta a funcionária. “Nem as lojas chinesas estão bem. As empregadas são nossas colegas e queixam-se”, sublinha.

Numa das lojas chinesas que habitualmente tem mais movimento, próxima da Praça do Chile, a época é de saldos, mas nem isso chama maior número de clientes. “Isto está mesmo mau, é que nem baixando os preços as pessoas compram ao ritmo de antes”, lamentou ao Corvo uma das empregadas.

O encerramento de lojas na zona não ajuda ninguém. Só torna a rua mais triste e menos atraente para as compras. “Quanto mais lojas fecharem, pior. Porque quanto mais lojas houver, mais são as opções e as pessoas podem escolher”, afirma a dona da loja Condestaque.

A ESPERANÇA ESTÁ NAS BICICLETAS

Mas nem tudo é negro. Há ainda quem tenha esperança e ouse abrir uma nova loja na zona. É o caso da BK, loja de bicicletas portuguesas, que é representante exclusivo da Órbita em Lisboa e que tem um sítio na internet onde anuncia a marca. Instalou-se na Morais Soares há cerca de ano e meio e o seu proprietário, Diogo Dias, afirma não ter razões de queixa. Mas alerta. “Aqui é necessário estar atento ao tipo de negócio que se pode instalar. No caso das bicicletas, o mercado está a crescer. E além disso, também ajuda ser um produto português, que é algo a que as pessoas começaram a dar valor. Mas, se for um restaurante ou uma loja de roupa, já pode ser mais complicado”.

A sua loja não vive tanto, como as demais, do comércio de passagem, mas sobretudo de clientes que sabem ao que vão. “Também há clientes que passam aqui à porta e entram, por curiosidade”, diz ao Corvo Diogo Dias. Mas a maioria, sublinha, já lá vai com uma ideia do que quer e já pesquisou na net o contacto deste representante da Órbita.

Também novo na zona é um restaurante de salgadinhos brasileiros, o Recanto dos Amigos. Tem, por certo, o objectivo de cativar a atenção da grande quantidade de cidadãos brasileiros a viver, desde há alguns anos, na zona do Alto de São João. Isto apesar de, mais abaixo, na Morais Soares, recentemente ter fechado a loja Luso-Brasileira, um mini-mercado que vendia produtos vindos do outro lado do Atlântico – onde, às vezes, até se encontrava água de coco natural.

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Há muitas lojas a fechar, mas também existem outras a tomar o seu lugar.

Abriu igualmente uma casa de artigos usados, “A Loja da Liany”, e outra de artigos electrónicos, em locais onde antes existiam lojas de ferragens e de artigos eléctricos. Nesta zona, parece sentir-se uma vaga tentativa de renovação. Mas ela não equilibra, porém, a onda de encerramentos verificada mais abaixo, na zona comercial outrora mais movimentada.

Em Lisboa, há quem olhe para este cenário e peça intervenção, como se verificou com a proposta constante do Orçamento Participativo de 2013/2014, reclamando à Câmara Municipal a Requalificação do eixo Praça do Chile-Alto de São João.

Alargamento de passeios, ordenamento do trânsito, melhoramentos no estacionamento, para acabar de vez com as segundas filas, e ainda a plantação de árvores ao longo da rua eram algumas das sugestões de intervenção. Mas apenas 63 pessoas votaram nesta proposta.

Nessa proposta, eram sugeridas intervenções a nível do espaço público, que poderiam ajudar a melhorar a qualidade de vida de quem ali mora ou trabalha e de quem apenas a atravessa de passagem para outras zonas da cidade.

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COMENTÁRIOS

  • Pedro
    Responder

    enquanto for uma rua com passeios onde duas pessoas nao conseguem andar a par em conforto e onde a policia permite o estacionamento de carros em cima do passeio, bem podem continuar a fechar lojas.

  • Gonçalo Peres
    Responder

    Acrescentaria que duas das principais razões para o declínio do comércio local são a deslocação de pessoas para os subúrbios a abertura de shoppings (zonas comerciais) fora dos centros populacionais. Duas tendências insustentáveis que incentivam e dependem da presunção que todas as pessoas têm um automóvel. No curto prazo arruínam com o comércio local e depois entram também em declínio, porque para as pessoas sustentarem um automóvel em tempos de crise, têm que abdicar doutros tipos de consumo. As entidades que licenciaram estas zonas comerciais e que à custa disso fizeram grandes negócios para os próprios e ruinosos para o todo em geral, deveriam responder perante a lei.

  • João P. Ferreira
    Responder

    A solução é muito simples, passa por pedonalizar a rua ou alargar significativamente os passeios.

    Só um comerciante autista ou masoquista é que incorre no erro sistemático de achar que para faturar é preciso ter uma via com imensa circulação automóvel à porta, esquecendo-se que o comércio urbano não obedece ao paradigma do cozido à portuguesa em canal caveira nas viagens para o Algarve.

    Pelo contrário, ruas mais amigas dos peões, fazem renascer os bairros com polos comerciais, recreativos e culturais, atraindo clientela. Casos disso temos a nova Duque d’Ávila ou mesmo a Rua Augusta.

    Mas para não variar andamos sempre atrasados em relação à Europa

  • PAULO SOARES
    Responder

    Estranho a falta de referência à emblemática Alfaiataria do Chile que ainda resiste. Quanto aos problemas da Morais Soares são fáceis de identificar : estacionamento selvagem com automóveis com as quatro rodas em cima dos passeios e lixo por todo o lado. Se juntarmos a falta de dinheiro temos o cocktail perfeito para fecharem lojas!

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